Madrugada de domingo

Terminei o livro com um estranho pesar que não saberia explicar aqui: mal o consigo compreender. Saí do quarto, pus-me de frente ao grande espelho da copa. Não gostei do que vi, nunca gosto. Senti vontade de me fechar ali para sempre – bobagem minha, pessoas com problemas realmente muito mais sérios que os meus não o fazem, por que eu, aparentemente saudável, tenho agora esse medo de encarar a vida? Voltei para o meu quarto, dirigi-me à estante dos adorados, aqueles que sempre me fazem bem. Passei os olhos sobre os títulos, nenhum me chamou dessa vez. Fiquei ali ainda alguns minutos a pensar, olhar e dialogar com eles. Talvez Cecília ou Pessoa, não, não, não estou hoje para poesia, podia tentar Flaubert, Goethe, Remarque, estão acenando de leve, são tão simpáticos… Mas não, não, não quero, simplesmente me deprimiria ainda mais, não, chega de literatura por hoje, amanha pego algo às escuras, saberei do que se trata apenas quando estiver já na faculdade. Voltei à beira da cama, sentei-me como quem senta no sofá dum desconhecido, recatada, encolhida. Olhei em direção ao meu espelho. Veja só, como mudei, como estou sempre a mudar, cada dia mais diferente e, no entanto, sempre a mesma. Ainda não sabia, mas esse pensamento me viria cutucar de novo na manhã seguinte. A mãe bateu à porta, deitou-se em minha cama como uma adolescente que vai escrever em seu diário, pediu-me um beijo. Eu te amo demais, filha. Beijei-a na testa, dei-lhe um abraço longo e silencioso. Pegou o livro que repousava ao meu lado. Em que parte estás, Já terminei, Não acredito, vives de literatura, és pior que eu, não fazes nada além disso, ler, ler mais um, ler de novo. Suspiramos as duas. Rimos as duas, ela falava de mim como se fosse diferente, não o era, a não ser pelo fato de trabalhar – mas como seu trabalho envolvia também ler e ler e ler mais um pouco, estávamos agora na mesma. Agora me fale, o que acha da cena das galinhas, acho que é na volta da moça dos óculos escuros, esse li há tempos, não me recordo bem como é, sei que há coelhos também. Pensei por um instante. Sim, sei do que falas, há peles de coelho espalhadas pela casa, pedaços de carne crua mastigados sobre a mesa, só a mulher do médico pode ver, Claro, horrível, lembrei-me dela porque no filme não aparece, Imagino, seria difícil adaptar cena assim, inclusive, falando no filme, dessa vez senti vontade de assisti-lo, sei que nunca gosto de adaptações, se foi por isso mesmo que não fui contigo ano passado, mas agora estou curiosa para saber como o fizeram, Desse gostei, acho que devias ver. Paramos as duas. Vou dormir, estou cansada, amo-te muito, Vá sim, vou também, até amanhã à noite. E ela foi. Fiquei um tempo ainda sentada, olhando em direção ao vazio, a pensar no que me tem angustiado. Melzinha acomodou-se no cantinho a ela reservado ao lado de minha cama, afofou seu cobertor e fechou os olhinhos negros e tristes. Tive pena, apaguei as luzes, achei que realmente era hora de dormir. Boa noite, Melzinha, baixei a mão, recebi uma lambidinha carinhosa, virei para o lado e dormi o sono dos descontentes, a espera do que havia de vir.

 

Pela manhã, passei pela prateleira novamente, sorteei um livro ao acaso, coloquei na mochila. Ao chegar na faculdade, depois do trajeto pelos anos 90, abri-a para ver de qual se tratava. Nada de Novo No Front. Remarque vencera. Mais um sinal de que ando reclamando demais de uma vida que tem sido até que bem fácil.

 

Não me matem por ter escrito à moda de Saramago. Estava piraaando quando rascunhei esse texto. Não quis mudar o original. Não achei bonito, fato. Mas piração é piração, prefiro respeitar. Prometo não fazer de novo. (Não prometo nada, o texto é meu, escrevo como bem entender! hahaha)

Toca, Raul!

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Eu, minha infância e minhas lembranças, divididas entre "A Verdade Sobre A Nostalgia" e "Você Ainda Pode Sonhar", nos tempos da Rua Wolstein, 74

Uma das maiores recordações da minha infância, é engraçado, é a de como eu amava ouvir as fitas do meu pai: tinha coisas loucas, sempre, mas as minhas favoritas eram  Queen, Beatles e, especialmente, Raul Seixas e Pink Floyd. O diabo é o pai do rock! O diabo é o pai do rock! Enquanto Freud explica as coisas o diabo fica dando toque! Pra mim, criança de tudo, era sensacional aquele cara gritando ali, no bom e velho português, algo sobre diabo e rock – coisas que eu, em casa, sequer podia falar naquele tempo sem ouvir poucas e boas, tamanha a rigidez de minha mãe – com aquela empolgação. Cantava junto baixinho, cantava junto escondido. – Faz o que tu queres: Há de ser tudo da Lei. Pulava ao som de Raul até sentir que  as molas do sofá de couro preto pediam socorro.

Vim assaltada por essas recordações no caminho da faculdade, meu pai, eu, a radial e o toca-fitas prata do fusquinha vermelho. Viva! Viva! Viva A Sociedade Alternativa! A vinte e oito dias de meus dezenove anos, entre o chiado da fita e o inconfundível barulho do motor do besourinho VW, comecei essa semana no início dos anos noventa. Pense num dia com gosto de infância, sem muita importância, procure lembrar: você por certo vai sentir saudades… Incrível como o mês de março para mim é sempre nostálgico, como que me dizendo, na voz de Raul: Faça uma força; você não está velho demais prá voltar e sorrir.

Eu não nasci há dez mil anos, mas aprendi de pequena que quem não tem colírio usa óculos escuros, ora ora. Como vivi Seixas! Éramos três, meu pai e seu gurgel ‘conversível’ branco, minha mãe e seu fusquinha azul, eu a cantarolar Eu sou a mosca que posou em sua sopa… Eu sou a mosca  que pintou prá lhe abusar… – cantarolar quando ainda mal sabia falar. Quantas vezes, no decorrer da minha vida (que ainda nem foi tão longa assim, convenhamos!), não aconteceu de, em diálogos com minha mãe, uma das duas aludir a Tente Outra Vez, que a vida nunca nos pareceu fácil: ela sempre trabalhando muito, eu sempre a estudar, até quando brincava. Mamãe sempre diz que essa música lhe faz bem. Tente! Levante sua mão sedenta e recomece a andar… Não pense que a cabeça agüenta se você parar… Não! Não! Não! Realmente, sempre me lembrará a força que ela teve durante esses anos todos – e que só quem a conhece sabe quão grande realmente foi.

No alto de meus quinze anos, revoltada com a politização excessiva de alguns, alimentada pela necessidade de afirmação comum da adolescência, minha espada era guitarra na mão. É. Saía bradando por aí, não sem causar estranhamento em alguns: Se você acha o que eu digo fascista, mista, simplista ou anti-socialista, eu admito, você tá na pista: Eu sou ista, eu sou ego, eu sou ista, eu sou ego, eu sou egoísta… Por que não? Por motivos diversos, mesmo depois de mudar muito, concluí hoje, parada num farol da Avenida Rebouças, cabeça entre noventa e uns e 2009, que essa é ainda a música que melhor me sintetiza. O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço.

Estávamos já chegando à Faculdade de Educação quando começou a tocar Metamorfose Ambulante. Nem meu desprezo por Paulo Coelho, nem minha espécie de ‘TOC’ quanto à regência do verbo “preferir” me impedem de gostar dela – talvez porque ambas as informações me tenham chegado ao conhecimento depois da própria música, que eu tenho impressão de ouvir desde muito antes de compreender qualquer palavra. Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes, eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo… Engraçado como mudei, como estou sempre a mudar, cada dia mais diferente e, no entanto, sempre a mesma. A memória, a essência, o caráter,  os princípios (agora não tão inocentes quanto antes)… Tudo intacto aqui dentro.

Hoje podia ser domingo, segundo de janeiro, pra mim vai dar no mesmo lugar: vai dar na minha alegria. Eu não quero mesmo nada, eu não tenho nada a ver com isso. Às seis e dez da manhã, o motor do fusquinha 68 se desligou completamente, e eu sorri por dentro, um sorriso de gratidão, porque não há prazer maior que saber que devo a Raul todo esse meu amor ao rock. Demos sorte, nós que tivemos essa oportunidade. Tem gente da minha idade que diz ser do rock graças ao som de Avril Lavigne – não estou brincando nem sendo preconceituosa, é só somar dois e dois pra ver que realmente posso me considerar privilegiada. E sobraram lições, pra toda vida. A de que hoje me valho, todo um contexto que aqui não cabe explicar leva-me a isso, é uma das melhores: Se o rádio não toca a música que você quer ouvir, não procure dançar ao som daquela antiga valsa! Não! Não! Não! É muito simples! É muito simples! É só mudar a estação, é só girar o botão…

Todo Mundo Está Feliz Na Terra, penso. E aí, casperiana sem lar, como me intitulei ano passado numa carinhosa alusão à Raulzito, eu saio do carro, pronta pra mais um ano. Cansei de passar os dias só, sem ter ninguém. Vivo a sofrer, me lamentando, também procurando toda verdade esquecer. Penso nas últimas ilusões que vivi enquanto subo as escadas do prédio deserto do bloco B. Eu posso ficar melhor sozinha. Quando eu me sentia caída você me botava pra baixo,tão pra baixo… Você tem sido uma pedra bem no meu caminho, e eu nunca tive coragem pra dizer. Eu realmente não preciso de você… Tento me convencer. Todo homem tem direito de pensar o que quiser. Agora é que o ano começa de verdade. E eu fico imaginando quantas vezes a voz de Raul ainda não fará todo o sentido do mundo para mim nos momentos mais aleatórios… Gente é tão louca… E no entanto tem sempre razão.


quinta-feira de manhã

no relógio, 8h. na vitrola, Mart’nália. na cabeça… bom, na cabeça a resposta é bem previsível.

— pensamentos aleatórios ajuntados pra serem guardados num potinho:

se eu pudesse – ah! se eu pudesse… – fotografava cada uma das suas expressões e colava todas elas na minha parede, pra ficar olhando o dia todo. o biquinho de beijo, a carinha de mimimi, o sorriso, o olharzinho malandro… se bem que… fotografaria, sim, e esconderia todas num lugar em que só eu pudesse ver. só eu. se eu pudesse… eu pegaria você todinho só pra mim.

(e eu ainda não sei diferenciar um astra de um civic de longe no escuro. nem um fiesta de um focus, ou um picasso de um 307. eu preciso de óculos e um pouco de atenção no mundo, que minha cabeça anda completamente nas nuvens. não que isso importe, claro.)