Caio e eu

Não, eu não vou falar pela milionésima vez no Caio-da-infância, o Caio-primeiro-amor, o Caio-que-amei-durante-oito-anos-e-jamais-esquecerei. Não é desse Caio que falo hoje.

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Como se eu já não fosse criativamente piegas sozinha, resolvi me desprender de obrigações e passar a tarde com Caio Fernando Abreu. O livro, CAIO3D, eu já tinha lido e reencontrei ontem na Biblioteca, enquanto fuçava uma das prateleiras que mais me fascinam.

(Ok, a bibliografia de que realmente precisava pra estudar/trabalhar ficou por lá mesmo. Peguei só o que eu queria ler. Sei que é total FAIL, que no fim do bimestre mimimi mimimi mimimi, blablabla whiskas sachê, whatever.)

Eu quero e preciso de uma pausa pra mim. Preciso de um tempo pra pensar, preciso de um carinho, preciso da sexta-feira. Acima de tudo, preciso entrar mais um pouco em mim enquanto ela não chega. Caio se encaixa perfeitamente nessa necessidade, porque me identifico com ele, porque sinto que há muito dele em mim e (eu poderia ficar falando o dia todo), enfim, é melhor parar por aqui, afinal, ele me espera na cama, com mousse de maracujá na mão, pra continuar a me contar de novo suas histórias deliciosas.

(Por mim eu nem ia pra Cásper hoje. Nem pra USP amanhã. Por mim eu largava da vida e ia morar numa biblioteca. E eu não estou brincando nem figurativizando nada…)

imagem via unicorlogy.

Noite de domingo

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“Você é masoquista, eu não”, ele disse, sério, enquanto subiam a Avenida Consolação. E essa ideia, esse “você é masoquista” perturbou-a ainda repetidas vezes antes que finalmente aceitasse essa condição. Masoquista. O maldito tinha razão.

Tinha razão. Não gostava de nada que não a descontrolasse, remexesse por dentro, arrancasse pedaços, causasse espasmos loucos de vontade. Não gostava de nada ameno e racional. Não gostava da tranquilidade: só achava bom quando era insano, quando era confuso, quando lhe tirava o ar e causava dores estranhas.

(Por isso não estava tão feliz. Aquela relação planejada, cheia de limites, casual, a ideia de não poder se apaixonar, de saber estar com alguém que não a quereria, tudo aquilo a podava, limitava, tudo aquilo causou-lhe um desencanto profundo.)

Às vezes as pessoas pagam um preço alto por sonharem demais. Quase sempre, aliás. Ali, por exemplo. Naquela noite gostosa, feita especialmente para o amor. Ali. A vontade existia, mas não foi daquela vez. Talvez não fosse pra acontecer nunca, isso não importava. Aquela paixão que a motivava a fazer loucuras não estava ali. Não era a ele que ela pertencia. Só estava carente, só isso. Precisava de colo. E se estava fazendo as coisas do jeito errado, meu bem… Agora não queria nem saber. A ideia de aproveitar o que tinha nas mãos naquele instante prevaleceu, e foi bom – tanto quanto assustador – conciliar razão e emoção.

“Você é masoquista, eu não”, ele disse, sério, enquanto subiam a Avenida Consolação. E ela sorriu como quem sabia que aquilo era verdade. “Vou pra casa”, ela respondeu com carinho. Entreolharam-se. Um beijo, um abraço forte o suficiente para machucar. “Tem certeza?”, perguntou, respeitando a vontade dela, mas mostrando que não concordava com a decisão. “Tenho. Vou para casa”. Estava criando mais uma ferida quando dizia não a ele – mas e daí? Era masoquista mesmo, a dor é que lhe dava prazer.

imagem via vi.sualize.us

Encontro

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Ela volta do jantar solitário, cabeça nas nuvens, pasta sanfonada na mão, coquezinho-secretária, óculos embaçados pelo rímel recém-passado. Malditos cílios gigantes que sempre esbarram nas lentes… Não é um de seus melhores dias. Confusão mental, a sempre triste confusão mental.

Caminha olhando para cima, sempre. Não por arrogância ou esperança, mas porque, inexplicavelmente, há algum tempo já não há o que lhe fascine mais que o céu. Especialmente o céu logo acima da torre da Gazeta, sua torre, pedacinho da sua vida. De repente, uma voz a tira do transe.

– Olá, você vai atravessar a avenida?
A velhinha sorri afetuosamente.

– Vou sim.
A resposta vem ainda com algum receio. Não gosta de contato com estranhos. Tem dificuldade pra conversar até com conhecidos…

– Me ajuda a atravessar? Fico tão receosa…
A doçura da senhora a conquista. Faz que sim com a cabeça e volta os olhos para o farol.

– Você trabalha por aqui?
– Estudo na Gazeta
– Cursinho?
– Não, Jornalismo…
– Jornalismo… É uma bela profissão para as mulheres. Em que ano está?
– Segundo.
– E como é o campo?
A pergunta do campo. Do mercado de trabalho. Sempre a pergunta do mercado de trabalho. Responde qualquer coisa, deseja não ter parado ali. Odeia falar sobre área de trabalho, campo, especialização… Todos sempre lhe torcem o nariz ao ouvir suas opiniões e opções.
O sinal abre. Coloca a mão nas costas da velhinha e atravessam, enquanto, cachinhos brancos ao vento, vestido floral, a idosa continua:

– A filha do meu irmão fez jornalismo. Trabalha naquela revista… como é… Valor, conhece?
– Economia?
– Isso, isso! Trabalhava na Gazeta Mercantil, mas recebeu uma proposta mais lucrativa, sabe como é, dinheiro a mais é sempre bom… Ela adora economia. Você… Tem alguma área de interesse em especial?
– Tecnologia.

Chegaram ao outro lado da Avenida. Paradas em frente ao Top Center, as duas se entreolham.

– Você tem mesmo cara de quem gosta de tecnologia, como não pensei nisso? Sério…
– Obrigada…

A dona da cabecinha branca olha para os lados como quem não sabe para onde vai. A idade tem dessas coisas. Por um instante, fica com as mãos no queixo. Solta de repente e puxa a garota, que recebe um afetuoso beijo no rosto.

– Sucesso, menina! Sucesso! Você merece muuuuito sucesso! Obrigada, obrigada mesmo!

Ainda assustada com a estranha alegria advinda apenas de alguns segundos de atenção, sorri. Agradece. A confusão já não está mais dominando sua mente. Só consegue se sentir contagiada pela felicidade e pelo carinho da terna desconhecida.

– Mulheres! Mulheres! Sucesso, hein?, ainda gritava a senhora, parada entre a banca de jornal e o ponto e ônibus.

A garota continua seu caminho, passando pelo escadão, até chegar à Faculdade Cásper Líbero. Ah, a Cásper… Sorri para o segurança, cumprimenta o bedel com quem dividiu a viagem elevador e, como se fosse outra pessoa, passa o fim de sua segunda-feira esperando o melhor – não dos outros, mas de si mesma.

Senta em frente ao seu computador para fazer um trabalho, para, de sopetão, por um instante e, de repente, passa-lhe uma ideia louca pela cabeça. Ah, tolinha. Esqueceu de perguntar o nome daquela que por muito tempo ainda irá figurar em seu pensamento lembrando-a de sorrir pra vida…

Quem a vê assim já não sabe mais dizer quem ajudou quem.
Mas qualquer um apostaria que quem mais ganhou nisso tudo foi ela, que, perto de seus vinte anos de idade, andava sofrendo sem porquê.

Foto por Raphael Strada.

Let it go

lua em 2.03.09

A lua estava chamando a atenção ontem. Enorme, linda. Com uma enxaqueca enlouquecedora, o meu passeio de moto noturno não foi a coisa mais agradável do mundo. Mas a lua estava lá. E estava linda. Em meio a contrações de dor e parcela leve da atenção no trânsito (que eu também não queria morrer), eu chorei. Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se não chorássemos. Chorei porque vi a lua, e a lua me lembrou de uma conversa que tive há não muito tempo com alguém que, espero, não terei conversas íntimas nunca mais.

A noite mal dormida graças às dores insuportáveis trouxe de presente uma manhã melancólica e tão dolorosa quanto a madrugada. Na caixa de entrada,  só o Personare, dizendo, infelizmente, aquilo que eu já sabia desde a cena na moto:  “transbordamento de emoções e problemas que você tem tentado evitar nos últimos dias, Ariane. (…) sugerindo que você até deseja levar as coisas numa boa, com mais relaxamento e tranqüilidade, mas há problemas e pendências a resolver que não podem ser evitadas! (…) não faça de conta que não existem coisas que lhe incomodam e que dê atenção a estes pontos. (…) A reflexão para o período é: do que eu preciso me libertar?” . Eu realmente estava fugindo, vide posts anteriores nesse mesmo blog. Já sabia também do que precisava me libertar. Só não sabia como.

No início a culpa era minha. Eu ia atrás da dor, todos os dias, em silêncio, sem que ninguém soubesse. Ele não sabia que eu estava ali, mas eu estava. Fuçava tudo, achando que descobrir as coisas me faria sentir uma raiva inexplicável e levaria todo amor embora. Bobagem, amor é perdão, sou toda perdão, sempre fui. Descobrir as coisas me deixava mal comigo mesma, com ninguém mais. Mas o fundamental é não perdermos o respeito por nós próprios, então eu disse adeus (confesso: submissinha como nunca o fui com ninguém, esperando que do outro lado viesse um “Não, não vá, sei o que quero, quero você” – bobagem de novo, não se deve esperar que alguém te diga algo só porque você o diria). Enfim, disse que ia embora, mas isso muitas vezes o fiz: despedia-me, mas voltava antes de virar a esquina. Dessa vez fui de verdade. Achei que finalmente fosse conseguir vencer esse sentimento estranho e o “Adeus” foi com toda a convicção que ainda restava aqui dentro.

Era a vez dele ser culpado. É dessa massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade. Sempre se fez de bobo, nisso não havia novidade nenhuma. Mas achei que o bom senso se manifestaria dessa vez. Esqueci a miséria egoísta que todo ser humano é. Na verdade ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, bem mais dura que a outra, que por qualquer coisa sangra. Ter me recolhido aos estudos me fez muito bem. Enquanto lia, fingi não notar que tudo parecia um aviso, um lembrete. Mas está tudo lá, está tudo aqui, e o pior cego é aquele que não quer ver. Eu não queria, talvez fosse uma esperança, talvez achasse realmente que isso fosse dar certo um dia. Mas agora vejo, não que isso me tenha feito bem, que não vai ser diferente do que foi até hoje. Agora sou capaz de notar o quanto tenho sido boba, o quanto muita gente o é. O que começa errado, termina errado, e errado será se tiver novas chances de acontecer, a experiência da vida e das vidas tem cabalmente demonstrado que ao tempo não há quem o governe.  O tempo vai curar, eu espero, essa ferida que tem corrido cada vez mais previsível. O tempo vai me manter forte para que eu não falhe, de novo, comigo mesma.

Sinto falta de tanta gente, de tanta coisa, que engraçada é a internet, que engraçada é a vida, que panaca sou eu. A consciência moral, que tantos insensatos têm ofendido e muitos mais renegado, é coisa que existe e existiu sempre, não foi uma invenção dos filósofos do Quaternário, quando a alma mal passava ainda de um projecto confuso. Está tudo ali, na sua mão, e você acaba por não segurar. Está tudo disperso, tudo solto, tudo confuso, e você chora dizendo que queria ter. Nunca achei que essa coisa de Close your eyes, clean your heart, let it go fosse fácil, juro. Mas não sonhei – nem de longe – com toda essa dificuldade que tenho enfrentado. Não é que eu queira ter alguém, não, que ultimamente o que quero é que me tenham. Cansei de ser só minha, cuidar sempre dos outros e acabar esquecida. Sinto que só vai parar de doer quando ele deixar de existir pra mim. Só não vejo meios disso acontecer sem que eu aja de maneira infantil. Porque é assim que ele tem agido. Sendo infantil.

É por isso que horóscopos, em especial o Personare, me divertem. Eles dizem o óbvio, ok. Todo mundo tem algo de que precisa se libertar. Às vezes, só precisamos ouvir isso de alguém, ué. E ele diz. É só não viver em função disso. É só saber o que vale a pena ouvir. Hoje ele confirmou o que tenho pensado há tanto tempo… “Seja fiel aos seus ideais, não se contente com pouco. Avalie criticamente o ambiente e corte todas as pessoas e situações que não servem mais em sua vida, sobretudo pessoas que você não avalia como construtivas, afinal todas as relações se pautam numa boa troca. Conselho: Mantenha seu nível de exigência alto, não se contente com pouco.” Vêem? O mesmo que eu disse ontem no Twitter, ao citar Saramago. É de doer o fígado. (Mentira, as dores são por culpa da enxaqueca mesmo). É de partir o coração que, com tanta reflexão, tanta dor e sofrimento (não só psicológicos, mas físicos!) eu ainda não tenha conseguido me resolver. Eu quero meu equilíbrio de volta. Enquanto isso não acontece, quero ir logo ao pronto-socorro tomar uma injeção na veia, que a Neosaldina já não está resolvendo mais.

Observação:
O conteúdo grafado em itálico corresponde a trechos de Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.

O conteúdo entre aspas foi retirado do site Personare.

A imagem da lua é realmente dessa noite é foi tirada por Dave Young.

Madrugada de domingo

Terminei o livro com um estranho pesar que não saberia explicar aqui: mal o consigo compreender. Saí do quarto, pus-me de frente ao grande espelho da copa. Não gostei do que vi, nunca gosto. Senti vontade de me fechar ali para sempre – bobagem minha, pessoas com problemas realmente muito mais sérios que os meus não o fazem, por que eu, aparentemente saudável, tenho agora esse medo de encarar a vida? Voltei para o meu quarto, dirigi-me à estante dos adorados, aqueles que sempre me fazem bem. Passei os olhos sobre os títulos, nenhum me chamou dessa vez. Fiquei ali ainda alguns minutos a pensar, olhar e dialogar com eles. Talvez Cecília ou Pessoa, não, não, não estou hoje para poesia, podia tentar Flaubert, Goethe, Remarque, estão acenando de leve, são tão simpáticos… Mas não, não, não quero, simplesmente me deprimiria ainda mais, não, chega de literatura por hoje, amanha pego algo às escuras, saberei do que se trata apenas quando estiver já na faculdade. Voltei à beira da cama, sentei-me como quem senta no sofá dum desconhecido, recatada, encolhida. Olhei em direção ao meu espelho. Veja só, como mudei, como estou sempre a mudar, cada dia mais diferente e, no entanto, sempre a mesma. Ainda não sabia, mas esse pensamento me viria cutucar de novo na manhã seguinte. A mãe bateu à porta, deitou-se em minha cama como uma adolescente que vai escrever em seu diário, pediu-me um beijo. Eu te amo demais, filha. Beijei-a na testa, dei-lhe um abraço longo e silencioso. Pegou o livro que repousava ao meu lado. Em que parte estás, Já terminei, Não acredito, vives de literatura, és pior que eu, não fazes nada além disso, ler, ler mais um, ler de novo. Suspiramos as duas. Rimos as duas, ela falava de mim como se fosse diferente, não o era, a não ser pelo fato de trabalhar – mas como seu trabalho envolvia também ler e ler e ler mais um pouco, estávamos agora na mesma. Agora me fale, o que acha da cena das galinhas, acho que é na volta da moça dos óculos escuros, esse li há tempos, não me recordo bem como é, sei que há coelhos também. Pensei por um instante. Sim, sei do que falas, há peles de coelho espalhadas pela casa, pedaços de carne crua mastigados sobre a mesa, só a mulher do médico pode ver, Claro, horrível, lembrei-me dela porque no filme não aparece, Imagino, seria difícil adaptar cena assim, inclusive, falando no filme, dessa vez senti vontade de assisti-lo, sei que nunca gosto de adaptações, se foi por isso mesmo que não fui contigo ano passado, mas agora estou curiosa para saber como o fizeram, Desse gostei, acho que devias ver. Paramos as duas. Vou dormir, estou cansada, amo-te muito, Vá sim, vou também, até amanhã à noite. E ela foi. Fiquei um tempo ainda sentada, olhando em direção ao vazio, a pensar no que me tem angustiado. Melzinha acomodou-se no cantinho a ela reservado ao lado de minha cama, afofou seu cobertor e fechou os olhinhos negros e tristes. Tive pena, apaguei as luzes, achei que realmente era hora de dormir. Boa noite, Melzinha, baixei a mão, recebi uma lambidinha carinhosa, virei para o lado e dormi o sono dos descontentes, a espera do que havia de vir.

 

Pela manhã, passei pela prateleira novamente, sorteei um livro ao acaso, coloquei na mochila. Ao chegar na faculdade, depois do trajeto pelos anos 90, abri-a para ver de qual se tratava. Nada de Novo No Front. Remarque vencera. Mais um sinal de que ando reclamando demais de uma vida que tem sido até que bem fácil.

 

Não me matem por ter escrito à moda de Saramago. Estava piraaando quando rascunhei esse texto. Não quis mudar o original. Não achei bonito, fato. Mas piração é piração, prefiro respeitar. Prometo não fazer de novo. (Não prometo nada, o texto é meu, escrevo como bem entender! hahaha)

Toca, Raul!

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Eu, minha infância e minhas lembranças, divididas entre "A Verdade Sobre A Nostalgia" e "Você Ainda Pode Sonhar", nos tempos da Rua Wolstein, 74

Uma das maiores recordações da minha infância, é engraçado, é a de como eu amava ouvir as fitas do meu pai: tinha coisas loucas, sempre, mas as minhas favoritas eram  Queen, Beatles e, especialmente, Raul Seixas e Pink Floyd. O diabo é o pai do rock! O diabo é o pai do rock! Enquanto Freud explica as coisas o diabo fica dando toque! Pra mim, criança de tudo, era sensacional aquele cara gritando ali, no bom e velho português, algo sobre diabo e rock – coisas que eu, em casa, sequer podia falar naquele tempo sem ouvir poucas e boas, tamanha a rigidez de minha mãe – com aquela empolgação. Cantava junto baixinho, cantava junto escondido. – Faz o que tu queres: Há de ser tudo da Lei. Pulava ao som de Raul até sentir que  as molas do sofá de couro preto pediam socorro.

Vim assaltada por essas recordações no caminho da faculdade, meu pai, eu, a radial e o toca-fitas prata do fusquinha vermelho. Viva! Viva! Viva A Sociedade Alternativa! A vinte e oito dias de meus dezenove anos, entre o chiado da fita e o inconfundível barulho do motor do besourinho VW, comecei essa semana no início dos anos noventa. Pense num dia com gosto de infância, sem muita importância, procure lembrar: você por certo vai sentir saudades… Incrível como o mês de março para mim é sempre nostálgico, como que me dizendo, na voz de Raul: Faça uma força; você não está velho demais prá voltar e sorrir.

Eu não nasci há dez mil anos, mas aprendi de pequena que quem não tem colírio usa óculos escuros, ora ora. Como vivi Seixas! Éramos três, meu pai e seu gurgel ‘conversível’ branco, minha mãe e seu fusquinha azul, eu a cantarolar Eu sou a mosca que posou em sua sopa… Eu sou a mosca  que pintou prá lhe abusar… – cantarolar quando ainda mal sabia falar. Quantas vezes, no decorrer da minha vida (que ainda nem foi tão longa assim, convenhamos!), não aconteceu de, em diálogos com minha mãe, uma das duas aludir a Tente Outra Vez, que a vida nunca nos pareceu fácil: ela sempre trabalhando muito, eu sempre a estudar, até quando brincava. Mamãe sempre diz que essa música lhe faz bem. Tente! Levante sua mão sedenta e recomece a andar… Não pense que a cabeça agüenta se você parar… Não! Não! Não! Realmente, sempre me lembrará a força que ela teve durante esses anos todos – e que só quem a conhece sabe quão grande realmente foi.

No alto de meus quinze anos, revoltada com a politização excessiva de alguns, alimentada pela necessidade de afirmação comum da adolescência, minha espada era guitarra na mão. É. Saía bradando por aí, não sem causar estranhamento em alguns: Se você acha o que eu digo fascista, mista, simplista ou anti-socialista, eu admito, você tá na pista: Eu sou ista, eu sou ego, eu sou ista, eu sou ego, eu sou egoísta… Por que não? Por motivos diversos, mesmo depois de mudar muito, concluí hoje, parada num farol da Avenida Rebouças, cabeça entre noventa e uns e 2009, que essa é ainda a música que melhor me sintetiza. O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço.

Estávamos já chegando à Faculdade de Educação quando começou a tocar Metamorfose Ambulante. Nem meu desprezo por Paulo Coelho, nem minha espécie de ‘TOC’ quanto à regência do verbo “preferir” me impedem de gostar dela – talvez porque ambas as informações me tenham chegado ao conhecimento depois da própria música, que eu tenho impressão de ouvir desde muito antes de compreender qualquer palavra. Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes, eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo… Engraçado como mudei, como estou sempre a mudar, cada dia mais diferente e, no entanto, sempre a mesma. A memória, a essência, o caráter,  os princípios (agora não tão inocentes quanto antes)… Tudo intacto aqui dentro.

Hoje podia ser domingo, segundo de janeiro, pra mim vai dar no mesmo lugar: vai dar na minha alegria. Eu não quero mesmo nada, eu não tenho nada a ver com isso. Às seis e dez da manhã, o motor do fusquinha 68 se desligou completamente, e eu sorri por dentro, um sorriso de gratidão, porque não há prazer maior que saber que devo a Raul todo esse meu amor ao rock. Demos sorte, nós que tivemos essa oportunidade. Tem gente da minha idade que diz ser do rock graças ao som de Avril Lavigne – não estou brincando nem sendo preconceituosa, é só somar dois e dois pra ver que realmente posso me considerar privilegiada. E sobraram lições, pra toda vida. A de que hoje me valho, todo um contexto que aqui não cabe explicar leva-me a isso, é uma das melhores: Se o rádio não toca a música que você quer ouvir, não procure dançar ao som daquela antiga valsa! Não! Não! Não! É muito simples! É muito simples! É só mudar a estação, é só girar o botão…

Todo Mundo Está Feliz Na Terra, penso. E aí, casperiana sem lar, como me intitulei ano passado numa carinhosa alusão à Raulzito, eu saio do carro, pronta pra mais um ano. Cansei de passar os dias só, sem ter ninguém. Vivo a sofrer, me lamentando, também procurando toda verdade esquecer. Penso nas últimas ilusões que vivi enquanto subo as escadas do prédio deserto do bloco B. Eu posso ficar melhor sozinha. Quando eu me sentia caída você me botava pra baixo,tão pra baixo… Você tem sido uma pedra bem no meu caminho, e eu nunca tive coragem pra dizer. Eu realmente não preciso de você… Tento me convencer. Todo homem tem direito de pensar o que quiser. Agora é que o ano começa de verdade. E eu fico imaginando quantas vezes a voz de Raul ainda não fará todo o sentido do mundo para mim nos momentos mais aleatórios… Gente é tão louca… E no entanto tem sempre razão.


Eles têm sempre a razão

de Vinícius e Tom:

haja o que houver
há sempre um homem para uma mulher
e há de sempre haver
pra esquecer um falso amor
e uma vontade de morrer
seja como for
há de vencer o grande amor
que há de ser um coraçao
como perdão pra quem chorou

E quem sou pra discordar?

Belinha

Não podia ouvir ninguém chegar, fosse de carro ou a pé, que corria pra porta, latindo. “Quieta, Belinha! Já é tarde! shiiiiu!” Voltava, avisava a todos na casa, ia desesperada em direção ao portão. Sem boas vindas nem tem graça entrar em casa. Ao menor barulho do saco de pão, disparava em direção à cozinha. “Ô, Belinha, me deixa tomar meu café!”.

Nem quando alguém ia ao banheiro dava sossego. Corria atrás e se escondia embaixo da pia. Vira e mexe passava despercebida aos olhos de alguém e acabava lá presa, sozinha, até latir por socorro.Isso quando não esqueciam a porta aberta na hora do banho – ia pra baixo do chuveiro na hora! “Belinha, sua danada, acabei de secar você…!”. Adorava tomar banho, sentir-se limpa, bonita. Caminhava feito uma princesa pela casa. Isabella. Mais Bela que Isa, mas era o nome perfeito. Beleza imponente. “Nunca vi cachorra assim! Parece uma gata!”.

Dormia o tempo todo no braço do sofá. “Bela, desce daí!” E ela esperava a gente virar as costas e subia de novo. Eu, papai, mamãe, Tainá e Melissa éramos mais dela que ela nossa. Escalava escadas como ninguém, avançava em qualquer um que lhe parecesse ameaçar um de nós. Ciumenta que só. Pulava de um sofá para o outro. Orgulhosa.  Nem adiantava chamá-la se pegássemos a Melzinha primeiro. Virava a cara. “Belinha! Bela! Vem cá, cheirosa!”. E a sem vergonha sumia.

Num passe de mágica, surgiam calças e calcinhas furadas. Quantas calcinhas novas joguei no lixo por ter esquecido na cama no dia da compra! “Dá um beijo, Belinha!” E ela dava uma lambidinha só, rápida e carinhosa, na face de quem pedia. Belinha era a alegria da casa. Até quando fazia coisa errada, nos fazia sorrir.

Dormia na porta do quarto esperando alguém levantar. Às vezes, no meio da madrugada, empurrava a porta e subia na minha cama. Eu acordava com o que mais parecia um bolinho peludo no edredom, fazendo calor em cima das minhas pernas. “Sai daqui, Belinha!”. De vez em quando, engasgava com alguma porcaria achada no chão e deixava todo mundo assustado. Companhia quando eu estava carente. Inspiração nas minhas aventuras escritas. Belinha sim era cachorra pra amar…

Assustada. Sempre. O que tinha de espoleta, tinha de medrosa. Medo de tudo. Sombra, bonecas, espelho, televisão… Temia o tartarugo… Temia até – e principalmente! – rodos e vassouras. Era só ver um que saia latindo e chorando, rosnando pra quem se pusesse em seu caminho. Invocava até, mas era só oferecer um carinho que já se abria toda. Não fazia xixi fora do jornal, não aceitava sair sem antes colocar um lacinho, ah, Belinha! ô Belinha… De vez em quando eu ainda a espero vir correndo. De vez em quando ainda me pego chamando. Belinha! Belinha! Mas ninguém vem.

Bobeira segurar as lágrimas. Bom deixar correr. “Belinha! Belinha! Não faça isso! O que você tem? Engasgou de novo? Responde, Belinha! Belinha… ô, minha menina… Belinha?” Fiz tudo o que pude, juro. Mas o corpo foi esfriando, fez-se duro – e ela nunca mais respondeu.

escrito na madrugada de 21 para 22/02, no quarto escuro, entre o rodízio de lágrimas dos quatro que Belinha deixou aqui quando partiu.

Maria Solidão

– É daqui que sai o ônibus que vai para o Pacaembu?

Quem, na saída de uma missa, vê a sorridente senhora de 73 anos perguntando, animada, onde pegar um ônibus, não imagina a sua vida triste. Maria Alaburda Katsus é descendente de lituanos. Seus pais vieram para o Brasil por conta própria, como imigrantes, iludidos com a idéia de que aqui “pão dava nas árvores”, fugindo da crise instaurada pelas constantes mudanças na Lituânia antes mesmo de ela nascer. Assim que chegaram aqui, tiveram uma surpresa. Ao contrário das promessas de uma vida maravilhosa, tudo que a família Alaburda encontrou foi pobreza e morte: os três filhos adoeceram e ficaram internados por um tempo no hospital Emílio Ribas – mas não adiantou: morreram um a um, deixando apenas Marianna, sua mãe, na época grávida de um menino, e Miguel, seu pai. “Muitos de nós perderam seus filhos com a imigração. Doenças… Não sei. Mas a maioria das criancinhas morria, era muito comum. Meu último irmãozinho morreu nos meus braços… Foi triste!”.

Os pais de Maria foram morar na Moóca, numa casa de dois cômodos que dividiam com várias outras famílias. Miguel trabalhava carregando vagões de sacas de café na Lapa. Viviam da distribuição alimentícia da prefeitura, que na época mandava caminhões para não deixar que as pessoas morressem de fome. “Quase ninguém tinha dinheiro, então a prefeitura passava com os caminhões na rua pra distribuir comida pro povo; então eles pegavam as panelinhas pra pegar comida da prefeitura”.

Mas a miséria não durou para sempre. Um dia, enquanto seu pai trabalhava carregando sacas, aconteceu um incêndio no prédio do depósito e ele desabou. Miguel não hesitou ao ver os amigos nos escombros: “Ele pegava sacas vazias de café, encharcava na água, punha nas costas e ia puxar os amigos. Foi quando ele se feriu e ficou 13 meses internado lá na Santa Casa – a mesma época em que eu nasci”. Arriscar a vida pelos amigos valeu a pena. Dentre as vítimas, estava o Interventor de São Paulo, Fernando Costa, que, agradecido, foi ao hospital atrás de Miguel oferecer ajuda. O que o lituano pediu? Um emprego para ele e para a esposa. O interventor providenciou suas naturalizações e deu a eles o emprego pedido. Trabalharam lá até o fim da vida.

O emprego dos pais abriu as portas para Maria na Secretaria da Agricultura. Ela trabalhou lá sua vida inteira, como secretária. Há alguns anos, entrou com a aposentadoria. De lá, guarda muitas histórias que diz preferir nem comentar – “A política é uma coisa muito suja, muito sem escrúpulos”, suspira , com ar de quem sabe do que está falando.
Maria cresceu no meio da comunidade lituana de Vila Zelina. Conta que, muitas vezes, os imigrantes juntavam-se todos numa casa só e cantavam, felizes, velhos hinos de sua terra. O catolicismo, imperante dentre eles, é que a faz seguir em frente até hoje: é brigada com o filho, que não fala mais com ela, nunca casou-se de novo e não tem mais parentes vivos. Mas está todos os domingos na missa da Igreja de São José da Vila Zelina, participa ativamente da arrumação das festas e quermesses de lá, e ainda arruma tempo para reivindicar consertos e limpeza pelo bairro. Mas o que a faz mesmo contente, e isso pôde-se perceber ao conhecê-la, é estar com outras pessoas e ser ouvida. A única casa no meio de muitas agências de automóveis da região fica na esquina entre a Avenida Anhaia Mello e a Rua Taberoé e guarda uma senhora cheia de feridas que a vida deixou, desde a vinda dos pais para o Brasil, até hoje.

Maria solta repetidas vezes expressões como “Se minha netinha estivesse viva…”, “Se meu filho viesse me visitar mais vezes”, “Eu gostaria de ter mais pessoas por perto” – mas nunca se mostra completamente abalada: “A igreja é como uma família pra mim. Adoro cozinhar nos eventos. Sabia que a barraca lituana é a que mais vende comida na quermesse?”. E é assim que ela se despede, sorrindo e convidando a todos para comer de sua comida na próxima festa junina.

post-diarinho

Passei o dia customizando coisinhas. Sempre bom. A verdade é que as férias estão acabando, Cásper Líbero e USP me esperam e eu, embora nada empolgada, estou aqui, aos trancos e barrancos, encapando cadernos, jogando fora papéis velhos e dando espaço aos novos, organizando meu horário e, sobretudo, gritando “CORRÃO!!!!” pra todo mundo que vem me pedir conselho sobre fazer duas faculdades. Olha, não é pouca gente que vem falar comigo sobre isso.

 

Enfim, eu alerto as pessoas pra que elas não cometam os mesmos erros que eu. Se bem que, no fim, acho até meio chato dizer ‘não faça isso’. É hipócrita, sei lá. Eu só digo ‘eu, se pudesse, voltaria atrás’. Cada um tem um jeito de levar uma experiência. pra mim foi péssimo, pelo menos esse primeiro ano. Mas eu vou confessar: ainda não sei se tranco a USP ou não. É, não quero ter que aguentar mãe em casa todos os dias. Prefiro estudar até pirar. Sério. Sério mesmo. Não estou brincando.

 

E por falar em estudar, vou ali ler mais um pouco de Vinícius enquanto eu ouço meu querido Cazuzinha. Dessa vez tô guardando minhas anotações, quando acabar de reler o livro, trago-as pra cá. :}

 

Pra vocês, aqueeeeeeele beijo que eu nunca mando, ao som de quase um segundo – que me tirou lágrimas minutos atrás.
Despeço-me por hoje. Melhor, por agora. Por agora, porque sei que sempre volto antes do combinado.