Reflexões autobiográficas
(Ou apenas reflexões – o fato é que não fazem sentido algum)

“Se você tivesse de escrever uma biografia sua hoje, como iria chamá-la?”. Foi assim. Numa estocada, numa paulada só. Entre as prateleiras escondidas no fundo da biblioteca, ríamos de contentamento a cada obra que nos despertava interesse, confabulávamos sobre as já lidas, discutíamos as pretensas leituras do ano, lamentávamos não poder morar ali ou levar para casa tudo que nos desse vontade. Aí eu vi uma biografia qualquer e ri do nome que esta recebera. A Tory, depois do nosso acesso de riso, quebrando o silêncio dos olhares que passeavam pelas obras, lançou essa pergunta. E eu fiquei completamente sem resposta.
Se eu escrevesse uma autobiografia, como iria chamá-la? Curioso. “Eu só escrevo sobre mim, – respondi ainda meio atordoada com a pergunta, sem saber o porquê de ela ter mexido tanto comigo – mas quando me vejo frente a um pedido de ‘fale sobre você’, travo completamente. Não sei, não sei que nome daria”. Sorrimos uma para a outra, demos com os ombros e voltamos à nossa viagem. Em pouco tempo estávamos sentadas no chão, cada uma frente a uma prateleira, maravilhadas e soltando apenas interjeições de admiração ou espanto e declamando poesias de vez em quando, como se a pergunta nunca tivesse existido.
O tempo livre acabou, trocamos nosso chão e nossas viagens literárias por uma jornada até a Antropologia. Infelizmente, não por opção. Estudamos, fotografamos, bebemos, comemos, tropeçamos, caminhamos… Foi só quando eu já estava em casa, cabeça deitada no travesseiro, olhos fixos no teto, que a pergunta resolveu vir me assombrar. Não sei, algo estranho passou pela minha cabeça. Sensação de culpa, talvez. Ou incompreensão. Como é possível não saber uma palavra que me resuma? Como diria o Faustão, “a vida passou como um filme na minha frente”.
Lembrei da infância toda. Dos pesadelos. Do desejo incompreensível de usar óculos. Da paixão por Sérgio Mallandro e por japoneses. Dos verões no morro do Querosene, em Caraguatatuba. Das festas de aniversário – super festas de aniversário – que minha mãe e minha tia preparavam pra mim todo ano. Do Fábio e do Fernando. De como li, sozinha, a primeira palavra de tantas mais que encontraria em minha vida, dentro do carro, aos quatro anos. Da vontade de ter uma irmã. Das brincadeiras nem sempre inocentes com as primas. Da tão esperada gravidez da minha mãe quando eu cheguei aos cinco anos. Das crises de enxaqueca que nasceram junto com ela. Da entrada no colégio, da professora Lucilene, da choradeira por não querer assistir aulas na sala avançada só porque a professora era muito brava. Lembrei do dia em que ganhei um cachorro, do dia em que fui ao Beto Carrero, das vezes em que visitei os Parques da Mônica, da Xuxa, do Gugu… Lembrei da minha biblioteca, com todos os livros da Série Vagalume. De como eu os lia rápido e com vontade, de como sempre queria mais. Mal percebi, já lembrava dos meus nove anos, das minhas tardes sozinha em casa, das poesias e diários que escrevi. Onde estariam todos os poemas e diários que escrevi? Fui parar na adolescência. No meu primeiro amor (até então, no meu único amor). Lembrei das mudanças – de casa, de colégio. Do dia em que, com 11 anos de idade, sentada na primeira fila da sala 201 – a 7ª série A do Colégio Cruzeiro do Sul – eu vi o Caio como homem pela primeira vez. De como minha vida passou a ser em virtude dele, das nossas brigas, idas e vindas. Da primeira vez que tingi o cabelo – Cereja, da Koleston – e de como eu e ele havíamos combinado de pintar igual. Lembrei das desilusões, das ofensas, de como ele me fez perder o amor próprio. De como a minha suposta melhor amiga começou a namorá-lo um ano depois, mesmo falando mal dele para mim todos os dias. Lembrei da formatura da oitava série, da viagem a Brotas, do meu primeiro piercing, dos cabelos cor-de-rosa. Lembrei que fui uma adolescente feliz, apesar dos pesares. Lembrei de quão rápido as mudanças se deram em mim. De como troquei os livros e a inteligência pela internet, pelo photoshop. De como virei uma popzinha de fotolog e de repente tinha todos em volta me bajulando e amando. Lembrei dos festivais de teatro, das indicações à Melhor Atriz Revelação e Melhor Atriz Coadjuvante. Lembrei do meu aniversário de quinze anos, do namorico de igreja que fez com que eu descobrisse as pessoas ao meu redor e tomasse atitudes até então impensadas, do dia em que conheci Campos do Jordão. Lembrei do meu primeiro beijo – de que tanto fugi, e que tanto guardei, em vão, para o Caio. Das aulas de guitarra. Do dia em que ganhei a Neguinha. Da minha primeira apresentação. De todas as apresentações que vieram depois. De como é bom subir num palco, cantar e tocar. (E de como faz tempo que não subo num palco…). Lembrei do terceiro colégio, dos trabalhos coletivos, do último passeio em equipe, da apresentação final, da despedida, de como fui oradora da classe. Lembrei do vestibular, da bomba, da cirurgia, de como de repente eu me vi obrigada a crescer de uma vez. Lembrei da barra que foi o ano de cursinho. De como conheci amigos verdadeiros que carrego até hoje. De como nunca pensei que pudesse aprender tanto em tão pouco tempo. De como voltei à Ariane centrada, inteligente, estudiosa. De como descobri ser capaz de realizar todos os meus sonhos só com esforço e determinação. De como descobri a importância dos meus pais. De como percebi ser diferente dos demais. Lembrei da entrada na juventude. Da primeira balada, exatamente no dia do aniversário de 18 anos. Da luta que foi entender que havia idealizado demais as faculdades. De como foi triste descobrir que nem sempre aquilo que reluz é ouro. Lembrei da sensação de perdida que tive desde o primeiro dia. E de como, até hoje, não sei que atitude tomar naquele meio, naquele lugar. Lembrei das horas no farol da Paulista. Das tardes solitárias no Starbucks. Do dia em que alguém se matou na linha do trem e eu acabei conhecendo o Francisco. De como minha vida mudou quando conheci outras quatro pessoas como eu num lugar em que achava que nunca iria falar com ninguém. Lembrei dos medos de hoje. De que ainda há muito por fazer, sem que eu saiba ao certo como fazê-lo. De como, depois de tanto tempo e tantas mudanças, eu ainda amo o Caio. De como uma caminhada na Avenida Paulista, tão cheia de gente, pode fazer me sentir mais solitária do que passar a tarde sozinha embaixo da coberta com filme e pipoca. De como é difícil pensar no que virei a ser. Lembrei que o tempo não volta e o futuro não me pertence…
Então eu entendi. Eu sou plural. Vivi muito, em tão pouco tempo. Para alguns, aquilo que vivi foi ínfimo. Outros, certamente, nunca viveram nada igual. Entendi? Não, não entendi não. Nunca entendo nada. Eu apenas vi, naquele momento, tantas coisas que estão sempre em minha frente e não sou capaz de ver. Até porque, ao que me consta, ainda tenho muito para viver, para ser, para descobrir, querer, sentir, conhecer.
(Não sei que nome terá minha biografia, se um dia existir. Tem que ter um quê de insano, sem se permitir chamar de anormal. Tem que mostrar que houve garra, sem parecer pretensioso. Tem que provar que houve vontade, desejo, que houve ambição e muitos sonhos. Que tudo foi sempre muito intenso, mesmo que na maioria das vezes tenha sido completamente platônico. Tem que mostrar a constante inconstância que me rodeia. Tem que carregar até doçura, sem ignorar nem um pinguinho de toda a minha rabugice. Nem sei se existe palavra ou expressão que una tudo isso. Talvez tenha que ser inovador também. Ou inocente… Não consigo imaginar um título – mas não abandono a idéia de que escolhê-lo será mais difícil que contar toda a minha história.)
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Pesquisando pra um job, caí num post meu do começo do ano passado. Emocionei :'D http://bit.ly/mJWMA