partidas, #14

Eu soube quando trocamos as primeiras palavras que não era real. Toda a sua empolgação, sua efusividade. Eu já tinha visto esse filme algumas vezes. Mas a carência tem me guiado a ruínas maiores nos últimos dias, e eu estava lá, às seis horas em ponto daquela tarde chuvosa, sentada sozinha no bar recém-aberto.

Você entrou tímido, diferente daquele rapaz de muitas palavras que conheci. Sentou-se à minha frente, encolhido atrás da mesa. Escondeu-se atrás dos chopes que tomava tranquilo, enquanto eu engolia rapidamente um atrás do outro, até que o assunto se esvaísse. Não porque não quiséssemos conversar, mas porque queríamos mais. Eu queria, pelo menos. E me divertia vê-lo tremendo, suando, perdendo as palavras. É sempre engraçado quando a timidez de alguém é maior que a minha.

“Tem muita gente aqui”, você disse, “eu me sinto observado. Não consigo”. Então pagamos a conta e fomos para a rua. Apesar de ser uma tarde de verão, o dia estava frio e coroado por uma garoinha fina e gelada, o que nos levou a entrar em outro bar – mais cheio – e sentar lado a lado, bem apertadinhos, olhando para a pintura de um Morissey meio disforme.

Nessa hora eu já não esperava que mais nada acontecesse. Minhas mãos percorriam sua tatuagem e eu tentava pensar nas coisas que faria ao chegar em casa sozinha. Eu olhava para você e enxergava pinturas, flores, cenas que não estavam ali, mas dentro de mim. Eu sentia o seu cheiro e sabia que estava encantada, sabia que nunca mais nos veríamos depois disso e que dessa vez, por mais simples que fosse, iria doer. Doeria a falta das indicações de bons discos no meio da tarde, das divagações suas sobre caminhar sozinho nas noites escuras, da empolgação que você tinha até com as coisas mais simples.

Então você me beijou.

Depois de tanto eu perguntar o que lhe afligia e tentar romper o silêncio desconfortável da sua angústia, você me beijou. E foi doce, lento, foi muito bom. Possivelmente um dos melhores beijos que recebi esse ano.

Foi também a sua confissão: eu tive a certeza naquela hora – não era a minha imaginação pregando peças, não era a insegurança me boicotando – você tinha voltado atrás. Tudo o que você disse sobre estarmos juntos realmente não fazia mais sentido. Você repetia frases feitas sobre estar muito ferido desde o último relacionamento, sobre ter medo de se ferir de novo, sobre estar confuso demais. “O problema não é você, sou eu”, você disse.

“O problema sou eu sim”, respondi, “e não há problema algum. Todos nós temos feridas e todos nós temos medo de nos machucar de novo. Mas, quando nos interessamos de verdade por alguém, a vontade de correr o risco é maior que o medo. Quando não estamos interessados, o medo surge como muleta. É nossa forma de fugir sem ferir ninguém”.

E até tentamos fingir que ficaria tudo bem, que nossa companhia bastava para que as coisas se acertassem, mas eu só voltei a sorrir assim que decidi que era hora de você partir.

uma drama queen e tanto. cabeça de escritora, diploma de jornalista, vida de publicitária. trabalha fazendo Indiretas do bem e espalhando amor por aí. não escreve: transborda. por uma questão de sobrevivência.

5 thoughts on “partidas, #14

  • Reply Paula A. 16 de dezembro de 2014 at 7:48 am

    Que lindo, Ari. O trecho sobre medos e riscos é uma das coisas mais verdadeiras que li esse ano. <3

  • Reply BA MORETTI 16 de dezembro de 2014 at 8:24 am

    maior verdade. quando o interesse é real, a vontade supera qualquer medo.
    texto lindo! :*

  • Reply Diogo 16 de dezembro de 2014 at 11:32 am

    Belo texto! Representa bem coisas pelas quais todo mundo passa. Sempre tive medo de rejeições e nunca fui bom com términos, o que acontece depois que o casal se separa e sobem os créditos. Talvez seja questão de criar calos: sofrer tantos machucados que os novos nem tiram sangue. Mas eu acho que não. Prefiro meu coração em carne viva do que calejado: é da natureza do coração sangrar. Talvez o amor não seja uma dor gostosa, mas é uma dor que vale a pena.

  • Reply Jo Rod 16 de janeiro de 2015 at 7:55 pm

    Nossa, nunca li algo que representasse tão bem minha vida amorosa… Parabéns o texto é lindo!

  • Reply Elisa Alecrin 13 de fevereiro de 2015 at 5:39 pm

    Definiu a minha vida, Ari!! <3
    Por que a dor soa tão bonita no papel?

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