partidas, #1

cansei de negar a ideia de que amor é um jogo e aceitei me entregar, uma partida atrás da outra. respirando a poeira dessa cidade que todos chamam de cinza, vejo cores por todos os cantos – muitos encantos que ninguém diz. tento traçar rotas de fuga e me espanto, há trânsito de ponto a ponto. e ainda assim sou feliz.

evito as reprimendas após um beijo roubado no portão, divido um café e cigarros, esquento a cama, ouço samba de raiz ao vivo, caminho de mãos dadas sob as árvores, sonho correr os dedos pelo seu rosto e me reclinar pra sentir a sua barba. cada um me proporciona algo único. ainda assim, durmo e acordo só todos os dias.

as flores estão lá, o sol está lá, escolho um vestido atrás do outro, afino a cintura, escondo com corretivo e pó as olheiras. decido a cor do batom de acordo com meu humor. entro e saio de táxis gastando o dinheiro que não tenho para evitar uma morte que provavelmente não aconteceria. e aceito o convite para os jogos sem medo.

eu quero tudo e não quero nada. quero conhecer os sabores dessa vida. e, enquanto puder, quero registrar cada partida. porque o amor é isso: uma jogada atrás da outra, vitórias e derrotas, idas e vindas. é sempre uma nova partida de um jogo que se propõe diferente mas nasceu dos mesmos desejos. também acaba sempre em partidas – doces, amargas, leves, pesadas. sempre alguém vai embora deixando um pedaço de história pra marcar minha vida.

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“partidas” é uma série de tirinhas que retratam as idas e vindas – platônicas ou não – da minha vida. uma maneira de eternizar e valorizar as cicatrizes que coleciono com tanto afinco.

uma drama queen e tanto. cabeça de escritora, diploma de jornalista, vida de publicitária. trabalha fazendo Indiretas do bem e espalhando amor por aí. não escreve: transborda. por uma questão de sobrevivência.

3 thoughts on “partidas, #1

  • Reply Beatriz G Coutinho 2 de dezembro de 2014 at 7:52 am

    “um jogo que se propõe diferente mas nasceu dos mesmos desejos” ???
    você escreve tão bem, de um jeitinho tão doce.
    o tema é meio pesado, mas você faz parecer tão mais leve, acho legal porque você não tem raiva nem nada, só quer registrar aquilo que aconteceu porque isso faz parte de quem você é, muita gente por aí faria algo do tipo para se vingar ou para mandar indiretas do mal!

  • Reply Beatriz G Coutinho 2 de dezembro de 2014 at 7:53 am

    ps: saíram interrogações mas eram coraçõezinhos 🙁

  • Reply Tany 15 de dezembro de 2014 at 1:29 am

    Deus do céu, Ariane. Cada dia você tá mais sensacional e interessante.

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