helpless

voando, quando não estamos aqui nem lá – apenas acima de nossos problemas, afinal nada se pode fazer lá de cima – foi onde me senti melhor esse ano. pena que são tão poucas horas dessa fuga não intencional, depois vem a realidade, o desamor, a solidão já não opcional que é viver a vida que nos é dada, sem direito a escolher quem vai e quem fica.

parece que, voando, existir dói menos.

mas eu não posso voar pra sempre.

Todo o amor que a gente sente deve valer de alguma coisa nas horas difíceis. Talvez esteja errada, mas hoje só quero acreditar que sim. Que importa, que é visível, que ajuda a gente a mudar, que supera as diferenças.

E que, se não superar, uma hora a dor passa.

Crianças

Há algum tempo eu estava obcecada com a ideia de ter um bebê. Biologicamente obcecada, digo. Os hormônios meio que imploravam por isso. As sensações me perturbavam. E era engraçado porque eu não queria um filho de jeito algum. Ainda não quero, não agora – isso não se encaixa na minha vida no momento. É um pouco egoísta, mas não tenho estrutura pra criar alguém. E tenho planos que um bebê atrapalharia. Achei engraçado como o meu corpo reagia, no entanto. Como se isso fosse uma necessidade. Fiquei assustada. E, por ser franca demais sempre, acho que acabei assustando os outros também. Com meu falatório, com minhas angústias. Com minha exposição exagerada.

Mas tá tudo bem, eu estou aqui: sem bebê, sem previsão, sem planos. E com o anticoncepcional em dia. E as sensações esquisitas foram embora, moro um milagre. :))

(Embora ainda suspire um pouco ao imaginar como serão os maltininhos, num futuro distante: quem será o pai? Quem eu serei quando chegar a hora? Quantos cachorrinhos teremos? Ah, crianças…)

Truman’s Show

Eu era ainda criança quando meu pai trouxe para casa um VHS de “O Show de Truman, o show da vida”. Desde a primeira vez que vi, ainda em pânico, fiquei obcecada pela cena final, em que ele descobre estar num cenário imenso e ter vivido uma farsa desde o nascimento. O momento em que ele abre a porta, ignora todos os medos que possam lhe segurar, despede-se ironicamente e parte em direção ao verdadeiro desconhecido.

desde pequena é essa cena. desde pequena sou eu buscando forças para abrir portas e seguir às cegas.

desde sempre um não televisionado Show de Mim.

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Reviravoltas

A vida inteira eu disse para mim e para os outros, me referindo a todas as áreas da vida: “se está insatisfeito, mude!”. E eu mudava. A vida inteira eu acreditei que a conversa pudesse resolver as coisas, que a cumplicidade fosse algo natural. E eu falava. Ouvia. Não é como se minha vida tenha sido muito longa, nem que eu tenha vivido muitas experiências. Mas ultimamente, toda vez que me vejo perdida como agora, quando mudar não é uma opção porque meu coração e meu corpo não querem, eu gostaria de ao menos resolver as coisas. E aí descobri que conversar nem sempre resolve. Porque um diálogo envolve duas partes – e existem situações em que o outro lado é mais intransponível que paredes de adamantium.

Nessas horas sinto que a vida inteira eu fui uma fraude. Comigo mesma, o que é pior ainda.

Laranjinha

Pensei em te escrever e mandar pelo correio – torcendo pra que a carta se perdesse pelo caminho e eu vivesse o alívio de ter escrito tudo e não dito nada. Mas nós sabemos que isso acabaria em ainda mais agonia – eu desesperada na dúvida entre você ter lido ou não o que tentei contar.

Então transformei a agonia em pixels, enderecei ao seu email e, finalmente, apertei “Desfazer envio”.

Porque algumas coisas são melhores quando as deixamos por dizer.

Porto seguro

É sempre assim. Eu vou levando, sem fingir que está tudo bem, mas sem botar pra fora tudo que me incomoda. E aí, num dia qualquer, quando algo me fere demais, eu bebo. E falo tudo – do jeito errado, pras pessoas erradas. É difícil me controlar, talvez por isso eu faça tanta questão de não sair. Em casa, sozinha, tudo se mantém sob controle. Não é que eu não fique mal – apenas que o ambiente não me permite fazer bobagens demais. Dificilmente acordo com remorso.

Na rua não. Toda vez que eu saio na rua, volto mais arrependida.

Odd

Eu não sei por quê, dentre todas as pessoas, sou assim tão apegada ao tempo, às demonstrações de afeto, às declarações de amor impensadas e à liberdade de dizer o que estou sentindo, sempre. Parece uma maldição: quando estamos acostumados a sentir demais, a falar demais, é preciso muito treino para não exigir isso dos outros. Para não exigir menos de nós. Porque a sensação é sempre de que não mostramos o suficiente, a recíproca não é verdadeira, não merecemos atenção, estamos sufocando o outro.

Nem sempre é isso. Às vezes só estamos lidando com alguém que não lida com a vida da mesma maneira. Às vezes os gestos que não notamos no outro são exatamente a forma que ele tem de dizer o mesmo que nós.

Eu passo o dia entregue, brigando com os pensamentos, tentando colocar alguma ordem nisso tudo, mas a verdade é que não sei lidar com o novo – e sempre há algo novo pra viver e sentir. Posso escrever mil histórias, colocar minha vida no papel, desenhar cada átomo meu, narrar com palavras, músicas e cores tudo o que eu sinto, toda a liberdade que perdi na primeira vez em que lhe disse “eu te amo”. Nunca fará sentido para ninguém, apenas para mim.

escritório

Essa história de Home Office é provavelmente uma das coisas mais felizes da minha vida. Como moro num bairro distante do centro e da Zona Sul, onde estão a maioria das agências e redações, eu sofria bastante com percurso – saía as 6h para conseguir entrar as 9h, na maior parte do tempo. Agora acordo 9h e as 9h30 já estou trabalhando.

Mas tudo tem dois lados: além de, algumas vezes, eu me sentir sem escape (afinal, depois de um dia difícil de trabalho, chegar em casa é um conforto… Mas e quando o dia difícil foi em casa?), também tem um agravante: não sou muito fã de sair. Tenho fases festeiras, em que nem precisa chamar pra me encontrar por aí, mas no geral eu não saio do meu quadradinho – minha vida é ler, escrever, desenhar e ver séries no sofá. E, sem a existência do escritório, eu fico cada vez mais afastada do contato humano. Não costumo sentir falta, mas faz uma enorme diferença na prática, no trato com as pessoas.

Quer dizer: o efeito é pior pra quem convive comigo do que pra mim. Mas juro que me esforço. Enquanto isso, tento aproveitar os passarinhos cantando, a solidão e a vontade de fazer o melhor possível. As coisas tem dado certo.

Lembranças

Estava me preparando para tocar quando o Alex, que tocou antes, me perguntou no canto do ouvido “Ta namorando?”. Eu não entendi a pergunta – respondi “mais ou menos” com um sorriso sem graça. E ele rebateu com um “É que ele não para de te olhar com os olhinhos brilhando tanto…”, e apontou ainda de lado pra você, na pista.

Olhei. Era verdade. Meu coração acelerou e senti imediatamente o rosto corar. O bom da noite é que ninguém repara nessas coisas.

Fazia um mês que estávamos juntos. Naquela noite, antes de irmos até lá, você havia dito pela primeira vez que me amava – isso só eu sabia. E só eu sabia também que sentia o mesmo, que queria ficar com você o quanto pudesse, que desejava que as infinitas horas que passamos juntos no nosso primeiro encontro e nos finais de semana seguintes se multiplicassem pelos dias da minha vida.

Já faz quase um ano desde que isso aconteceu. Seus olhos não brilham mais daquele jeito – a convivência muda tudo o tempo todo, inclusive a nossa forma de ver um ao outro. Mas só consigo gostar ainda mais de você, com todo o meu coração. A cada sinal do seu companheirismo, a cada segundo sentindo seu cheiro ou aproveitando seu abraço. Você é meu porto seguro, é meu brilho nos olhos.

É tão bom que eu poderia trocar tudo por um momento deitada ao seu lado discutindo amenidades no edredom. Até dormirmos, tranquilos, um do lado do outro. Eu trocaria os desafios de uma vida por horas a fio descansando e olhando para você.