Osmar olhou para mim do outro lado da mesa e questionou sobre a hora do parabéns. Não sei bem o porquê dele estar ali quando tinha certeza de que não nos víamos há mais de dez anos. Mas era ele, estava claro. “Estamos esperando ela voltar”, eu disse. Se era o meu aniversário ou o dela, não sei. “Mas será possível? Será que a guria morreu no banheiro?”, perguntei em tom de brincadeira. Todos riram. O bar ficava na esquina da rua Olívia de Oliveira com a avenida Amador Bueno da Veiga, não muito distante de um quartel, de modo que o barulho das ambulâncias não nos assustou de primeira. Só ao ver a movimentação em direção à avenida foi que a minha própria brincadeira ecoou por dentro. Eu ouvia repetidas vezes minha voz dizendo “morreu”. A esta altura, já correndo desesperada em direção ao acidente, uma voz na rua irrompeu meus pensamentos, dizendo: “ela desceu as escadas saltitando, cantando. escorregou, distraída, coitada. com o impacto do carro, morreu na hora”. Vazio e dor.
Rodeado de pessoas, o corpo de minha irmã estava estatelado no meio da avenida, carro nenhum à vista, os cabelos loiros caídos sobre o rosto, os olhos azuis fechados para sempre. Invadi o cerco e deitei-me no chão ao lado dela, abraçando aquele pedacinho de carne sem vida, implorando aos olhos que se abrissem, tentando ouvir as batidas de um coração que já não funcionava mais. “Acorda, Tainá, diz que tudo isso é brincadeira, por favor. Acorda”… Um corpo tão presente e alma nenhuma acompanhando. Tantas coisas passaram pela minha cabeça, tudo tão rápido. Meus pais, como contar? Como viver sem tê-la ao meu lado, todos os dias, contando sobre como conseguira um ensaio fotográfico, ou como faltavam poucos dias para sua viagem para os Estados Unidos… Sua voz repetia em meus ouvidos suas contas eternas de quantos dólares poderia gastar e como amava a todos nós e gostaria de trazer algo para cada um… E tudo havia terminado ali, de forma tão… Inesperada? Não sei se é essa a palavra. Quando uma pessoa tem 15 anos e é saudável, acho que a morte nunca é esperada, não é mesmo?
Sufocada pelo meu choro e ainda temendo abrir os olhos, virei para a esquerda de minha cama a tempo de vê-la coçar o nariz. Respirava embalada por um sono tranquilo, abraçada ao edredom com inscrições japonesas. Quis eternizar aquilo, tive medo de que fosse outro sonho, que ela não estivesse mesmo comigo, mas a câmera não estava na cabeceira, como de costume. Não importava: era verdade ela estava ali, viva. A morte, em mim essa ferida exposta, não levou minha irmã essa noite, a não ser num pesadelo profundo. Mas me fez pensar em como somos impotentes diante dela, no quanto todos em casa sofremos nos últimos meses, no último ano, com a partida de tia Adeilda. A sensação é a de que nunca estarei preparada, de que preciso estar sempre alerta, de que não posso ficar mais nenhum instante longe de todos que amo. Porque é assim, um dia, antes mesmo que possa piscar os olhos, um de nós pode não estar mais aqui. E mesmo com todo o conhecimento, a impressão é de que nunca estarei preparada para certas ausências.

Tainá, uma das presenças mais importantes da minha vida desde 1995