partidas, #1

1 de December de 2014 Posted by Ariane Freitas

cansei de negar a ideia de que amor é um jogo e aceitei me entregar, uma partida atrás da outra. respirando a poeira dessa cidade que todos chamam de cinza, vejo cores por todos os cantos – muitos encantos que ninguém diz. tento traçar rotas de fuga e me espanto, há trânsito de ponto a ponto. e ainda assim sou feliz.

evito as reprimendas após um beijo roubado no portão, divido um café e cigarros, esquento a cama, ouço samba de raiz ao vivo, caminho de mãos dadas sob as árvores, sonho correr os dedos pelo seu rosto e me reclinar pra sentir a sua barba. cada um me proporciona algo único. ainda assim, durmo e acordo só todos os dias.

as flores estão lá, o sol está lá, escolho um vestido atrás do outro, afino a cintura, escondo com corretivo e pó as olheiras. decido a cor do batom de acordo com meu humor. entro e saio de táxis gastando o dinheiro que não tenho para evitar uma morte que provavelmente não aconteceria. e aceito o convite para os jogos sem medo.

eu quero tudo e não quero nada. quero conhecer os sabores dessa vida. e, enquanto puder, quero registrar cada partida. porque o amor é isso: uma jogada atrás da outra, vitórias e derrotas, idas e vindas. é sempre uma nova partida de um jogo que se propõe diferente mas nasceu dos mesmos desejos. também acaba sempre em partidas – doces, amargas, leves, pesadas. sempre alguém vai embora deixando um pedaço de história pra marcar minha vida.

—–
“partidas” é uma série de tirinhas que retratam as idas e vindas – platônicas ou não – da minha vida. uma maneira de eternizar e valorizar as cicatrizes que coleciono com tanto afinco.

registro

24 de September de 2014 Posted by Ariane Freitas

É chato quando a gente sente coisas muito boas mas não tem como registrar numa foto. Quando uma música, uma poesia ou um texto talvez façam o trabalho por nós – mas não se encaixam nas circunstâncias. É chato porque em alguns momentos parece que nosso corpo pede “avisa, avisa que está sentindo isso! que é bom! que você não quer parar!” – mas a gente se perde tentando encontrar a palavra ou o gesto certo, e o momento passa.

Passa mas não permite que você o esqueça. Você pode facilmente se livrar de objetos, musicas, poemas, textos, fotografias. De lugares. Mas não é tão simples se livrar da sensação. Das memórias.

O que é bom fica ali, pra sempre – começa doce, em algum momento vira dor e, quando você menos espera, é só uma pintura opaca nas paredes da memória. Uma música baixinha, ecoando em vão. Cenas de um filme que provavelmente não terminou bem.

Nós

21 de August de 2014 Posted by Ariane Freitas

Não devia me importar com isso, mas as vezes fico pensando no que você diz de mim para os outros. Até hoje você não me contou os meus defeitos, não me disse o que te fez desistir de mim, mas sei que espalha isso por aí. Talvez para os meus amigos, aqueles que eu te apresentei. Ou os poucos que já tínhamos em comum.

Sei que a cada mulher nova que conhece, apresenta a tal vilã anterior. Eu sei porque eu lembro como foi quando nos conhecemos. Lembro o quanto você falou dela. E de algumas outras. Naquela época nós éramos tão francos um com o outro que eu nem imaginava que talvez você nunca tivesse reclamado nada disso com elas. Que tudo o que você dizia a respeito da ex ela talvez nunca saiba que você sentiu.

Hoje sei como você é. Sei que coragem não é o seu forte, sei que não enfrenta nem as próprias decisões – e que, entre fazer uma coisa funcionar e desistir, você opta pelo segundo, porque é mais simples do que olhar nos olhos de alguém e dizer a verdade.
Às vezes eu me pego pensando no que você diz de mim para as pessoas e me sinto culpada de só ter elogios a seu respeito. Porque era tudo mentira, toda a sua gentileza. Era apenas medo de enfrentar a realidade.

E eu não posso amar uma mentira, por isso foi tão fácil abrir não daquilo que por quase um mês me consumiu. Quando finalmente enxerguei que foi tudo encenação, por mais que tenha doído, isso me salvou. Me salvou de continuar querendo ser perdoada por um crime que não cometi sozinha. As coisas não se desfizeram por minha causa. Elas simplesmente não eram reais. E embora tenha perdido o chão ao notar isso, percebo que fui salva.

Eu sinto falta de momentos que vivemos e sei que não terei com mais ninguém, porque eu te amei de verdade. Porque ninguém é igual e novas emoções são vividas de outras formas. Mas eu não sinto falta da angústia de nunca saber se você estava feliz ou não, de te enxergar insatisfeito e só ouvir mentiras ao tentar acertar as coisas, de implorar para que você me dissesse o que estava havendo e só ouvir “Eu te amo, está tudo bem” em troca, até o dia em que você resolveu gentilmente me apagar da sua vida sem conversar e me mandar um “infelizmente não consigo mais dizer que te amo” por SMS. Eu não sinto falta de ter sido tratada como um peso. E eu tenho medo do que você conta de mim por aí. Porque é tudo que eu queria saber e você sempre se negou a me dizer.

Eu quero ser uma pessoa melhor. Não por você, por mim. E mesmo sem querer me ajudar, você me fez dar um grande passo quando me deixou para trás.

Espero que você seja mais gentil com a próxima pessoa que passar na sua vida. Que saiba usar “eu te amo” com parcimônia e que realmente se importe com ela. Que olhe nos olhos e diga a verdade. E espero tudo isso não por você, você nem merece essa compaixão. Mas por ela.

La Seine

26 de July de 2014 Posted by Ariane Freitas

Há um ano eu sentei na beira do Sena apenas pra ficar observando o rio. Só para passar o tempo depois de uma visita à Pont des Arts. Naquele dia, depois de ver casais prendendo cadeados na ponte e jurando amor eterno, quando finalmente achei que fosse me sentir menos sozinha, um casal sentou-se no banco à minha frente e começou a trocar carinhos.

Eu achei aquilo lindo. Quase senti o amor dos dois. Queria capturar numa foto e levar pra casa, mas jamais aconteceria. E a sensação foi também de que nunca viveria algo parecido: recíproco.

Pouco depois que voltei pra São Paulo, acabei conhecendo alguém. E, a princípio, as coisas aconteceram de forma recíproca. Foi talvez a fase mais feliz da minha vida (talvez porque eu não sei o que virá depois, mas certamente é a melhor dentre o que já passou). Eu me sentia feliz, amada. Tinha um propósito para sair do casulo. Como qualquer coisa na vida, acabou. Antes do que eu gostaria, diferente de como eu esperava.

Mas sempre penso naquele casal, em como achei que nunca teria aquilo e tive tão rapidamente, em como foi realmente bom. E aí lembro também que nada é irremediável: existem vários corações por aí esperando uma chance de viver momentos assim, que valham a pena. E, quando acabar, se acabar, assim que a ferida cicatrizar, ficam as memórias boas pra gente visitar e sorrir de novo. Nada dura pra sempre: nem aquela dor que parece não ter remédio algum. 🙂

É isso que me faz levantar todos os dias e olhar pra frente.

helpless

11 de July de 2014 Posted by Ariane Freitas

voando, quando não estamos aqui nem lá – apenas acima de nossos problemas, afinal nada se pode fazer lá de cima – foi onde me senti melhor esse ano. pena que são tão poucas horas dessa fuga não intencional, depois vem a realidade, o desamor, a solidão já não opcional que é viver a vida que nos é dada, sem direito a escolher quem vai e quem fica.

parece que, voando, existir dói menos.

mas eu não posso voar pra sempre.