eu não queria recolher coisas nem encarar morte e muito menos passar o final de semana sozinha com lembranças doloridas. chamei hank pra me acompanhar, mas a tristeza continuou a mesma. acontece.
tinha escrito um texto pra acompanhar, mas a letra já diz muito do que está se passando na minha vida. não vou entrar em pormenores aqui.
o rádio relógio me acordou a tempo de ouvir “nove graus em são paulo, tirem suas blusas do armário sem medo!”. seduzida pelo barulho da chuva lá fora, levantei o braço direito sem me descobrir e abri um vão na janela. “dá pra ver o bairro inteiro dormindo”, pensei. então foi a vez do braço esquerdo buscar um cigarro na cabeceira (dor de garganta se cura com dor de garganta), desligar o despertador e voltar à fumaça. fumaça, era o que estava faltando na manhã fria. fumaça e teu braço em torno de mim naquela cama pela metade, tão grande e tão vazia. ainda deu tempo de sentir teu cheiro no travesseiro antes de reparar que havia gasto dez minutos nesse ritual de saudades. “vão me custar no mínimo trinta minutos a mais no trânsito”, previ. então levantei, me enfiei embaixo do chuveiro e mandei embora do meu corpo toda a vontade de desistir. na bagunça do quarto, enquanto buscava o que vestir — de preferência algo que me deixasse invisível, ao menos por hoje — tropecei na vontade de te beijar mais uma vez. beber, preciso beber. assim, a essa hora, eu só quero fugir.
companheiros da manhã: uma garrafa de café amargo, wilco nos fones de ouvido e alguma esperança de ver tudo acabar mais uma vez. afinal, se passou um ano e eu nem me dei conta, é porque o tempo cura mesmo qualquer ferida. maybe I won’t be so afraid, I will understand everything has its plan… either way.
percorrendo algumas anotações antigas (o caos) para preencher uma pauta (reciclagem de informações, acho sustentável etc), encontrei umas observações minhas sobre mate-me por favor e punk:attitude. alguma coisa sobre o fato de eu ter essa postura constante de overanalyze everything que todo mundo critica (com razão), uma citação ilegível de Bob Gruen e uma conclusão justa. o negócio não é se sentar no seu lugar e compreender tudo o que acontece. o negócio é ter uma experiência caótica. faz anos, mas acho que ainda preciso absorver.
a julgar pelos últimos meses, tenho feito meu melhor.
se essa história se tornou romance, foi muito mais pelo não dito. o dito se esvaiu, destoou, não fez sentido dentro nem fora de qualquer contexto. o não dito ficou. cada silêncio estratégico, olhar malicioso ou beijo desconfortável registrara uma linha. cada segundo entre a fala dele e a minha requeria um esforço inigualável para que não revelássemos nossas intenções. está tudo no não dito, toda nossa história de amor.
~~
achei perdido por aqui mais um pedaço da história. pertinente compartilhar.
Don’t see what I do not want to see,
you don’t hear what I don’t say.
Won’t be what I don’t want to be,
I continue in my way.
(mantra da semana)
Ontem, no elevador da empresa, lá pelas 13h, o garçom puxou assunto comigo.
– Já vai, Ariane? Vida mansa…
– Magina. Vou trabalhar de casa.
– Vai, é? Fazer o que, twittar o jogo? (risinho malvado)
Olha como eu tenho credibilidade no prédio.
Dearest Cecilia,
The story can resume. The one I had been planning on that evening walk.
I can become again the man who once crossed the surrey park at dusk, in my best suit, swaggering on the promise of life.
The man who, with the clarity of passion, made love to you in the library.
The story can resume. I will return.
Find you, love you, marry you and live without shame.


