Natal
As primas da minha idade todas já com seus filhinhos e filhinhas no colo. Os tios com o mesmo dom de rirem de suas próprias piadas sem graça, sempre. A avó calada, observativa, como quem já viu aquilo muitas vezes nos seus 84 anos de vida e sabe que a festa já foi bem melhor. E foi. Em dezoito anos, meu Natal se transformou lentamente de fascinação em trauma. E aí foram várias mensagens desesperadas e sinceras para pessoas que eu amo, maneira meio egoísta de lidar com a data: parabenizando os outros como maneira de fugir dali.
Não sei se disse algo errado, não sei se é neura minha, mas algumas respostas que obtive foram secas o suficiente para me manterem calada por muito mais tempo. Outras me animaram de maneira encantadora. E todas me fizeram sentir, de certa forma, amada. Sim, alguns amigos tiveram a preocupação de responder – mesmo que da pior maneira. Não há nada melhor que isso: receber uma resposta.
Quando saí de lá, depois de dois amigos secretos sem a mínima graça e muita comida (o que resta numa festa dessas senão comer?), a avó continuava sentada na mesma cadeira, com o olhar parado, pensando talvez no meu avô, que tanto gostava de ver a família toda reunida. As primas balançavam as cadeirinhas de seus bebês, que choravam loucos de sono. Tainá já é quase uma mulher, cresceu ao meu lado e, sem que eu visse o tempo passar, está agora do meu tamanho. Os tios ainda tinham piadas sem graça mesmo depos de toda comida, cerveja e vinho. Saudável, até. Mas eu não sei, nada do que vi ali era o que queria pra mim.
Não vejo a hora de poder passar meu Natal sozinha, sossegada, no meu próprio apartamento, sem toda aquela comida, aquele barulho, aquelas pessoas. Eu quero um Natal meu, pra passar de camisola, sentada na varanda tomando um bom vinho. Eu quero minha libertação, essa que só eu posso me dar. Não quero mais depender de nada nem de ninguém para ser feliz.
Ser feliz sem ter de agradar os outros.
Natal, nos últimos anos, tem sido somente isso pra mim. A mesma troca de elogios quase nunca sinceros e fofoquinhas familiares. O mesmo jogo de sorrisos e diálogos por conveniência. Ostentação e blablablás. Que Jesus, o quê! Ninguém nem pensa nisso. E se a história já se desviou de seu sentido original, por que EU, que nem pelo motivo original tenho apego, sou obrigada a seguir a tradição?
De qualquer forma, Feliz Natal a quem lê esse blog (supondo que hajam leitores!). Um Natal mais feliz que o meu, eu desejo sinceramente.
Muitos beijinhos.
ps.: Alguém avisa o Papai Noel que meu presente não chegou? Eu só pedi alguém que me amasse de verdade. Nem deve ser tão difícil assim. Talvez ele tenha mandado na casa errada. Ou – é bem possível! – talvez não exista esse amor que eu tanto sonho pra mim. Às vezes é tudo fruto da minha imensa imaginação.