Monique

Sentou ao meu lado e observou atentamente o que eu lia e escrevia sem que eu notasse sua presença. Foi só ao final da aula, quando a bateria do notebook acabou, que notei quem era. Linda, lindíssima. A pele clarinha, as ondas ruivas presas num rabo-de-cavalo. Querida, como não? Se não tínhamos mais intimidade era porque as circunstâncias (tempo, habilitações, idade, gostos, companhias) não contribuíram.
Quando levantou a cabeça, os olhos encontraram os meus. Sorriu como ninguém o faz. Aquele sorriso lindo era dela, só dela. Deu um “oi” e um beijinho alegre, perguntou-me como andavam as coisas na Cásper e calou-se de novo. Segundos depois, como que do nada, disse “O negócio é se entregar à vida acadêmica, sabe? Homens não estão com nada…”. Concordei com um sorriso. Ela continuou. “Sério. A pior coisa do mundo é homem galinha”. “Não”, retruquei, “a pior coisa do mundo é homem que não sabe o que quer”.
Paramos por um tempo, a professora falando em Latim lá na frente, ela dizendo “ou estudo muito, ou viro lésbica, assim não dá mais pra ficar”. Tive vontade de me oferecer pra testar a segunda opção, mas a sensatez falou mais alto e preferi responder a verdade que ela precisava ouvir: Mulher também dá muito trabalho. Rimos de novo. Acho que ela finalmente se sentiu à vontade de vez para desabafar. “Acredita que fulano, depois de um ano e meio de namoro, pediu um tempo porque ‘estava confuso’? Quer dizer… ‘Eu estou confuso e prefiro não me comprometer pra não te machucar’. Acredita???”. Ri alto. Ela não entendeu. “Acredito”. “Estou falando sério! Ele disse exatamente desse jeito!”, “eu sei, não ri de você. Ri porque estou passando exatamente pela mesma coisa”. E ela começou a contar toda sua história, suas mágoas, o tradicional “Eu nunca me apaixono, desta vez estou apaixonadinha e ele me faz isso!”. Tive vontade de dizer algo, mas preferi calar. Deixei-a contar sobr eo ex, sobre como ele era apaixonado por ela, como era amigo e não merecia ter sido trocado pelo queridinho em questão. Mas ela se apaixonou. O ex era amigo, esse não. Esse era uma paixão. Com o ex tinha acabado o tesão, a química. A amizade tem dessas coisas. “E ele, tão lindo, tão fofinho, ele jurou que não quer ficar com outras, são só amigas, o tempo é pra ele pensar, mesmo… Mas elas são tão lindas, poxa…!”. Quis sacudi-la, dar-lhe um tapa na cara. Ela é a menina mais linda da Letras, qualquer um concorda comigo. Mas deizei. Eu sei bem o que faz o amor. Disse apenas que era “assim mesmo, difícil, porque quando estamos apaixonadas, não importa a droga que nos façam ou se as evidências estão ali. Nós QUEREMOS acreditar que nos amam tanto quanto os amamos, e eles não fazem questão de dar o chute final”. Então voltamos a falar sobre trabalhos, Cásper, professores em comum, o que viesse. O tempo da aula acabou, não se ouvia mais nenhuma palavra em latim, arrumamos nossas coisas. Demos abraço e beijinho de comadre. “Boa sorte com sua reportagem!” ela disse, fazendo com que eu lembrasse dos 3000 caracteres pendentes cujo deadline se aproximava cada vez mais. “Obrigada! Se cuida!”. Eu não soube falar nada além disso. “Se cuida”. Por isso quase não tenho amigos. Em silêncio no carro, minutos depois, ri alto de novo. Por que é que a gente sempre pensa que algumas coisas só acontecem conosco? Quer dizer… “Eu estou confuso e não quero me comprometer agora, não quero machucar você”. Exatamente as mesmas desculpas. As mesmas neuras. As mesmas dores. Tudo igual. Acontece comigo, a gordinha nerd, e acontece com ela, a menina mais linda daquele lugar. Sem restrições ou diferenças. O amor é pra todos, a desilusão também. Que merda. Até as mesmas desculpas eles usam. Ou não, ou é tudo verdade. Se sim, PAREM AS PRENSAS. Alguém precisa desconfundir um pouco os homens desse mundo antes da vida continuar.

4 thoughts on “Monique

  • Reply Ana Elisa 24 de março de 2009 at 8:52 pm

    os homens tem é que aprender a valorizar as mulheres que eles tem, isso sim. u_u

  • Reply Uaba 24 de março de 2009 at 9:03 pm

    Mulher é tudo igual, homem também. Quem tem que se valorizar é a gente. Confusão sempre existe, confusão não é desculpa. 😀

  • Reply metamurphy 25 de março de 2009 at 12:13 am

    Pera! Muita hora nessa calma. Sou homem e já usei essa desculpa, já usei outras, a verdade é que não muda nada. A verdade é que namoros acabam e outros começam e se não fosse assim casariamos com nosso primeiro amor de 12 anos. Não culpe homens ou mulheres, culpe o fim por existir, mas se ficarmos por ai com medo do fim, não vamos aproveitar o tesão que são os começos. né?

  • Reply Priscila Souza 25 de março de 2009 at 3:20 pm

    Não é que não deu certo. Deu sim. Mas só durante um tempo.

    Nada é pra sempre e a vida é feita de ciclos. Às vezes damos sorte de começar outro com o mesmo alguém. Às vezes não.

    **miss you….

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