Horto

Minha irmã me perguntou, na frente de toda a família, o que havia de interessante pra fazer no Horto – e eu obviamente não soube responder.

Não soube o que dizer porque meu único interesse no Horto era você. Era sentar nas pedras mais altas, olhar para o céu e, dividindo um cigarro, te ouvir me contando como eu te fazia sentir. Era olhar o brilho dos teus olhos negros e acreditar nas tuas palavras, em cada “nunca me senti assim” ou “você me faz querer mais” que você dizia. Sobre como, nas suas palavras, bastava entrar no consultório para que o terapeuta soubesse se você havia me visto recentemente – que o seu rosto resplandecia e as coisas pareciam fluir mais. Eu me embrenhava no charme da tua timidez, nas confissões, nos desabafos, nas palavras que custavam a sair ou que vinham acompanhadas de lágrimas, porque era difícil pra você falar sobre o que sentia. E estar com você era isso: entrega. Era já estar rindo muito antes de acender um baseado e continuar com aquele sorriso no rosto bem depois da brisa das duas passar. Era caminhar de mãos dadas e não me incomodar com todos os olhares horrorizados, porque eu queria mais que tudo estar ali, com você ao meu lado, tua mão encaixada na minha, tua pequenez fazendo tua cabeça afundar no meu peito sempre que pausássemos pra um abraço.

Podíamos olhar por horas as capivaras, fotografá-las, criar histórias sobre as famílias que elas não tinham.

Eu achei que aquilo ali era especial porque você dizia que era. Enquanto isso, você dizia aos outros que eu via demais em nós. Você confidenciava por aí que tinha medo do que eu podia sentir. Logo eu, que só estava lá o tempo todo te ouvindo dizer o que sentia.

Fui um ensaio mal calculado. Fui cobaia de um experimento que ninguém me avisou. Esqueci que você era atriz – esse foi meu grande erro.

E o Horto?

Bom, sinceramente, você ainda pode caminhar e ver as capivaras no Horto…

(Eu? Já ouvi algumas vezes Careless Whisper e quis poder voltar a deitar e observar as copas das árvores com você – mas aprendi cedo que não se aceita as coisas pela metade, e dou adeus bem rápido a quem tem medo de sentir.)

Acho que nunca mais eu piso no Horto.

Mas sinto falta das nossas capivaras.

uma drama queen e tanto. cabeça de escritora, diploma de jornalista, vida de publicitária. trabalha fazendo Indiretas do bem e espalhando amor por aí. não escreve: transborda. por uma questão de sobrevivência.

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