falta

2 de March de 2015 Posted by Ariane Freitas

falta

vou sentir falta de olhar a Bela Cintra de cima, as cores e o ritmo da torre piscante mudando junto com nossos assuntos, os cigarros enchendo o cinzeiro, nossos lábios esvaziando as garrafas, a senhora desconhecida organizando religiosamente seja lá o que for na guia do outro lado da rua. de pegar novas cervejas sem incomodar os outros moradores da casa, de ser guiada silenciosamente para o seu quarto, de observar sua partida de the evil within e atrapalhar tudo puxando você para nossa dança particular, de ver seu rosto mudando de formas tão expressivas que eu quase conseguia sentir as coisas junto com você. do porteiro que já me deixava entrar sem nem mesmo perguntar quem eu era ou onde iria, de dividir tardes de trabalho, desabafos, parmegianas aos quatro queijos, cochilos no sofá. das mensagens de “quer vir pra cá beber e dar um cochilo?” que só troquei com você até hoje. do seu jeito sério e reflexivo de quem acha que é capaz de controlar tudo – e, só por acreditar, acaba sendo mesmo, embora talvez enxergue as coisas de uma forma meio sua, nem sempre real, nem sempre flexível como deveria ser. (você controla tudo porque tudo é criado dentro de você – e talvez nunca conheça a verdade, pois se sente seguro assim, no seu mundo de suposições.)

vou sentir falta de suar, suar, suar, suar olhando a torre pela janela, suar te amando por horas sem parar, suar vendo qualquer besteira no Netflix, suar olhando nos seus olhos e dormindo abraçada ao seu colo. suar pelo clima estranho dessa cidade, suar pela troca de calor frequente dos nossos corpos.
vou sentir falta da história que você decidiu não valer a pena por não ser capaz de ler ou controlar o que verdadeiramente se passava dentro de mim.

vou sentir falta de nós.

About Ariane Freitas

uma drama queen e tanto. cabeça de escritora, diploma de jornalista, vida de publicitária. trabalha fazendo Indiretas do bem e espalhando amor por aí. não escreve: transborda. por uma questão de sobrevivência.

One Response to falta

  1. Grã says:

    A Bela me olhava de cima, espantada com minhas cores arroxeadas e olhos piscantes.
    De nossos lábios, embotados no cinzeiro, brotava um cheiro frio, de cigarros amanhecidos.
    Jaziam assuntos velhos, em garrafas esparramadas pela Casa que, sem rolhas, permitiam que entornassem silenciosamente misturando-se às, ainda novas, queixas.
    De seu quarto, do outro lado da rua, ou do outro lado da cidade, ou do outro lado do mundo (do seu mundo), qual porteiro mal acostumado, você não queria saber quem eu era e onde iria.
    Hei de olhar a torre de outras janelas, hei de, cedo ou à tarde, acabar entrando “naquelas” de que foi melhor assim, mas agora ainda é essa a história que vejo em todo filme do Netflix.
    Sua cabeça é um nó e vou sentir saudades de nossos nós.

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