Belinha

Não podia ouvir ninguém chegar, fosse de carro ou a pé, que corria pra porta, latindo. “Quieta, Belinha! Já é tarde! shiiiiu!” Voltava, avisava a todos na casa, ia desesperada em direção ao portão. Sem boas vindas nem tem graça entrar em casa. Ao menor barulho do saco de pão, disparava em direção à cozinha. “Ô, Belinha, me deixa tomar meu café!”.

Nem quando alguém ia ao banheiro dava sossego. Corria atrás e se escondia embaixo da pia. Vira e mexe passava despercebida aos olhos de alguém e acabava lá presa, sozinha, até latir por socorro.Isso quando não esqueciam a porta aberta na hora do banho – ia pra baixo do chuveiro na hora! “Belinha, sua danada, acabei de secar você…!”. Adorava tomar banho, sentir-se limpa, bonita. Caminhava feito uma princesa pela casa. Isabella. Mais Bela que Isa, mas era o nome perfeito. Beleza imponente. “Nunca vi cachorra assim! Parece uma gata!”.

Dormia o tempo todo no braço do sofá. “Bela, desce daí!” E ela esperava a gente virar as costas e subia de novo. Eu, papai, mamãe, Tainá e Melissa éramos mais dela que ela nossa. Escalava escadas como ninguém, avançava em qualquer um que lhe parecesse ameaçar um de nós. Ciumenta que só. Pulava de um sofá para o outro. Orgulhosa.  Nem adiantava chamá-la se pegássemos a Melzinha primeiro. Virava a cara. “Belinha! Bela! Vem cá, cheirosa!”. E a sem vergonha sumia.

Num passe de mágica, surgiam calças e calcinhas furadas. Quantas calcinhas novas joguei no lixo por ter esquecido na cama no dia da compra! “Dá um beijo, Belinha!” E ela dava uma lambidinha só, rápida e carinhosa, na face de quem pedia. Belinha era a alegria da casa. Até quando fazia coisa errada, nos fazia sorrir.

Dormia na porta do quarto esperando alguém levantar. Às vezes, no meio da madrugada, empurrava a porta e subia na minha cama. Eu acordava com o que mais parecia um bolinho peludo no edredom, fazendo calor em cima das minhas pernas. “Sai daqui, Belinha!”. De vez em quando, engasgava com alguma porcaria achada no chão e deixava todo mundo assustado. Companhia quando eu estava carente. Inspiração nas minhas aventuras escritas. Belinha sim era cachorra pra amar…

Assustada. Sempre. O que tinha de espoleta, tinha de medrosa. Medo de tudo. Sombra, bonecas, espelho, televisão… Temia o tartarugo… Temia até – e principalmente! – rodos e vassouras. Era só ver um que saia latindo e chorando, rosnando pra quem se pusesse em seu caminho. Invocava até, mas era só oferecer um carinho que já se abria toda. Não fazia xixi fora do jornal, não aceitava sair sem antes colocar um lacinho, ah, Belinha! ô Belinha… De vez em quando eu ainda a espero vir correndo. De vez em quando ainda me pego chamando. Belinha! Belinha! Mas ninguém vem.

Bobeira segurar as lágrimas. Bom deixar correr. “Belinha! Belinha! Não faça isso! O que você tem? Engasgou de novo? Responde, Belinha! Belinha… ô, minha menina… Belinha?” Fiz tudo o que pude, juro. Mas o corpo foi esfriando, fez-se duro – e ela nunca mais respondeu.

escrito na madrugada de 21 para 22/02, no quarto escuro, entre o rodízio de lágrimas dos quatro que Belinha deixou aqui quando partiu.

uns e outros

 

tão diferentes, tão distantes universos

se um é retiro espiritual, o outro é fantástico mundo

um já viveu tanto, o outro tão pouco

um é tão feliz , o outro tão triste

um é tão distante , o outro tão entregue

um se preserva tanto, o outro tanto se expõe

um já tem seus grandes amigos, o outro está ainda descobrindo o que é amizade

um deseja, o outro ama

um vive , o outro sonha

um aproveita , o outro planeja

um aceita , o outro questiona

um sabe, o outro quer saber

um não quer, o outro quer

um finge não ouvir, o outro finge não estar falando

 

enquanto um adquire repertório e experiência, o outro está apenas se iniciando.
então um
está sossegado, o outro não poderia estar mais aflito

(e nem mesmo a aflição consegue diminuir um pouco o efeito arrebatador que a paixão por um causou no outro
se alguém tem de ceder, ele cede, um recebe do outro tudo que quiser)

 

 

 

e a parte em que o outro virá logo a ser só um pedacinho insignificante da história de um

dói  só no primeiro, o lado mais fraco

 

mesmo assim

este só se sente tentado a uma coisa:

dizer “eu te amo” infinito

em silêncio, com os olhos

quantas vezes puder

 

 

até o dia em que tudo (tudo o quê?)

até o dia em que isso acabar

 

 

seja lá o que isso for.

porque assim como um pode ser o inverso do outro,

nada impede que estes sejam, na verdade, não o inverso, mas a metade.

 

dizem por aí, afinal, que yin e yang se complementam.

 

e o consolo dessa vez não é de que tudo sempre pode piorar, não.
o consolo hoje é também a verdade e a razão do desespero: a verdade é que tudo vai passar

 

(alguém diz pro outro ir dormir ao invés de passar  madrugada chorando em frente ao computador enquanto o um – sem vergonha – o um… sabe-se lá onde o um se meteu?)

quereres

eu queria amar um pouco menos você
não ligar para eventuais sumiços ou conversas entrecortadas
não chorar cada vez que visse um beijo na tevê

eu queria amar um pouco menos você
ser do tipo que não liga quando não pode ver
do tipo que não associa cada música que ouve a um momento qualquer
– em que basta a sua presença pra memória ligar a amor

eu queria amar um pouco menos você
ter facilidade pra encarar que a verdade não vai ser sempre simples assim
que a verdade já não é simples
e que estamos distantes até quando você me abraça

eu queria amar um pouco menos você
apenas o suficiente pra saber que não é pra sempre
e que não somos iguais
nunca seremos, por mais parecidos que possamos ser.

eu até acho que queria amar um pouco menos você,
mas eu amo assim – muito. muito mesmo.
suficiente pra me arrepender dos erros que talvez nenhum de nós saibamos que existiram;
pra te perdoar daquilo que me machucou sem que você soubesse sequer que fez.

eu te amo o suficiente pra esperar o quanto for preciso,
pra sair do planeta a cada vez que sua boca toca na minha,
pra dar risada todas as vezes em que me deparo com uma placa de “Proibido Estacionar”
ou com alguma efeméride que guardei no coração só por ter me feito sorrir.

eu gosto de te amar assim, simples e intenso.
não valeria a pena amar menos você.

não. porque aí, um dia, quando tudo acabar

(tudo passa, tudo vai passar…)

quando tudo acabar eu terei muito do que lembrar
e pouca coisa que valha mesmo a pena esquecer.

creed, are you ready?

Promessas de fim de ano

Acho que nem eu tenho noção do quanto mudei do começo do ano pra cá. Com o excesso de agitação no mundo real, eu acabei deixando minha vida virtual se banalizar completamente. Virou uma válvula de escape que saiu do controle,e, quando vi, twitter, blog, msn, orkut, tudo era muro das lamentações. Eu extrapolei os limites e, de uma forma ou de outra, por ter sempre muito a ler e/ou a fazer, virei uma usuária fútil daqui. Sabe, do tipo desprezível. A Ariane criativa, dinâmica, estudiosa, antenada, que até apareceu várias vezes esse ano! (vide a idéia do vitroleiros.org, às fotos e algumas saidas) deu lugar maior à Ariane mimimizeira e ranzinza que fica o dia todo falando muito e fazendo pouco por si mesma. Quero e vou mudar isso. Segunda-feira é minha última prova, teoricamente (não sei se pegarei exames ou recs, enfim), e eu pretendo mudar de vida (não, eu não largarei minhas contas em lugar nenhum e nem pretendo deixar de ser eu mesma nelas – vou ser como sempre fui!): fazer layout decente pro blog, procurar emprego, estudar mais e melhor (é, vou trancar a usp e voltar só depois de terminar jornalismo!), sair mais, viver um pouco além do que a internet me leva. Sim, porque, numa conversa de bar esses dias, descobri que tudo que tenho começou aqui.

Essa é uma daquelas promessas (ou um daqueles planos, anyway) de final de ano. Mas não é daquelas que a gente faz e joga no limbo pra um dia falar “Putz! Já quis fazer isso um dia!”. Não, essa é uma das que começo desde agora a cumprir. Quero fazer o que me dá prazer, descobri relendo Cibercultura para uma prova de Teoria da Comunicação. Não vou explicar aqui as coisas que passaram pela minha cabeça, só o que preciso dizer é que, como diz minha mãe, se eu gosto tanto de uma área, se vivo dela e para ela, então por que diabos eu não vou trabalhar com ela? É, dessa vez tenho o apoio da minha mãe. E que venha o fim de ano, o Natal, perder peso, arrumar emprego, comprar uma câmera, desencalhar (carência mata, mano!), e, por hoje, aprender tudo sobre cibercultura porque amanhã tem a prova da minha vida. OI? hahaha.

É, eu vou viver um dia de cada vez, como sempre fiz. Mas não posso deixar de pensar no futuro, não.
Porque eu quero poder olhar pro passado e me sentir feliz, como me senti hoje.
E não dá pra ser feliz olhando pra um passado inútil ou vazio…
Por enquanto, o mantra ainda é #TVP…

Tudo passa…

Sorte de hoje: Se você obedecer a todas as regras, vai perder toda a diversão

eu você e todos os encontros casuais
os ais e os hão de ser
e todos os casais também
olha, acho até que quem achou que nunca ia
esse ia se espantar de ver que o ódio e o amor
e até eu vou pra ver no que vai dar
a massa a moça
e até esse pra sempre

tudo passa

História Oral e Memória

O que ele quer? Eu ficaria feliz com apenas um depoimento, mais nada. Sem introduções, análises ou conclusões.

Eu perguntava pra ela “Mãe, o que que o papai falava pra senhora quando ‘cês namoravam?”
E ela respondia: “O que que ele falava… Que ele me amava muito”.
“É, mãe?”
“E depois ele falava que se ele lavasse meus pés e eu mandasse ele tomar a água, ele tomaria…”

Coisas do século passado… ou não.

 

 

Aliás, ando sentindo uma falta estranha de passados que não vivi.

Mensagem subliminar

(só pra mim, eu espero)

 

 

(sim, vejo o mesmo filme 90 vezes e ainda pego os frames que falam comigo. ok ok, tenho sérios problemas e não vou procurar tratamento, beijos)

 

Não entendeu? Aqui.

Estive pensando…

 

 

 

…no quanto me afastei das pessoas de que gosto, ou mesmo no quanto abri mão do que gostaria várias vezes esse ano simplesmente por ter obrigações que eu não sei se queria mesmo ter.

Isso me fez tomar várias decisões que não colocarei aqui, mas que vão mudar muito na minha vida.

 

Se você for importante pra mim, verá de perto. Senão, saberá só de entrelinhas, como sempre aconteceu com os leitores desse humilde blog.

 

 

:* fui ali viver e já volto.

Ou não.

tinha uma Flor no meio do caminho

 

 

 

Eu nunca gostei de flores. Embora sempre as achasse aparentemente bonitas, elas não me impressionavam, não me chamavam a atenção. Minha mãe, que tem um lado pintora, ficava abismada toda vez que começava uma tela – ela sim adorava flores! – e eu não dava opinião, simplesmente porque não achava graça. 

 

Daí que um dia, caminhando pela vida sem prestar muita atenção em nada, eu encontrei uma Flor. 

(Não que devesse haver algo de especial nisso, não. Era mesmo pra ser só mais uma flor no meio do caminho. Mas não. Essa era especial. Me chamava atenção. Não me deixava ir, mesmo sem querer que eu ficasse.)

E havia entre nós barreiras. Não poucas. Barreiras estranhas e invisíveis – o tempo, por exemplo. Por algum motivo, aquela flor e eu vivíamos em estações diferentes. Eu no inverno, ela no verão. 
Mas sempre tive esperança de que um dia coincidissem nossas primaveras.

 
Então, sem poder tocar a Flor ou levá-la para minha casa, com medo de ferí-la, eu passava por ali todos os dias. O que era um caminho aleatório tornou-se obsessão. O que era apenas uma Florzinha tornou-se paixão.
 

E eu decidi que poderia esperar. Não me cansava dela. Daquele pedacinho branco do mundo que acendia em mim mais amor até do que paz.  

Decidi que estaria ali, mesmo que a Flor nem soubesse da minha existência. Falhei, é fato. Estive durante tanto tempo cercando a pobrezinha que ela me notou, num dia qualquer, por culpa de um pequeno Erro: quase sufoquei-a de tanto olhar, mais perto, mais perto, mais perto…

 
E quando pra mim fazia sol, para ela chovia. Quando para mim eram cinzas, pra ela era carnaval. Cansada de tentar com o Universo uma maneira, um acordo, um modo de estar com a Flor por completo, sem medo de tocá-la, cheirá-la, dedicar minha vida a regar e dar carinho a ela, simplesmente sentei a seu lado e fiquei. Sentei pra esperar. 

 

E ainda estou aqui. Acredito que, um dia, quando eu acordar de um desses inevitáveis cochilos que dou ao observá-la, linda, dormindo, será a nossa primavera. E não haverá barreiras, nem distância, nem medo ou empecilhos. Vou poder pegá-la nas mãos com carinho e, sem arrancar-lhe as pétalas, contar uma por uma, “bem-me-quer, mal-me-quer, …”

Parece que essa Flor mexeu em algo dentro de mim que há muito estava adormecido.
 

Pra falar a verdade, eu ainda não gosto tanto de flores. Mas a visão delas, seu perfume, sua delicadeza, tudo isso me lembra  a minha Flor. A Flor que nem minha é, mas que um dia tomou-me para si. É, sou mais dela que de qualquer um.

 

E só isso é o suficiente para que eu veja nas flores, hoje, uma beleza incomum.