Bukowski, esse boca-suja pervertido

Depois de passar mal o dia todo sozinha em casa, recebi a visita de mãe ao lado da minha cama. Danada resolveu puxar papo lá pelas onze da noite, quando chegou do serviço. Pontuei que não gostaria de ser incomodada a respeito do meu trabalho. Única condição. Então falaríamos de amenidades.

Veja bem: eu, minha mãe e minha irmã engatamos, sem razão aparente, um papo sobre livros. Esse final de semana devorei “Juliet, Nua e crua” e “Slam”, elas queriam saber do que se tratavam ambos. A minha irmã está lendo o extra da Stephenie Meyer, “A Breve Segunda Vida de Bree Tanner”, que eu dei de presente na semana passada (com o coração partido por gastar dinheiro com essa literatura vampiresca e ainda estimular a guria a ler esse tipo de coisa), quando ela terminou a saga de Crepúsculo. Minha mãe está estacionada em “Clarice,” também presente meu, mas de aniversário (bote aí uns três meses). E eu, nesse meio tempo, já li dúzias de coisas que elas nem sonham conhecer, porque meu caso com livros às vezes é digno de internação. Então ficamos dialogando sobre minha prateleira cheia de sobrenomes que as duas desconheciam, elas me apresentando universos novos pelos quais eu ainda não passeei, eu apresentando meu universo esquisito a elas.

Foi engraçado quando aconteceu. Eu só não sei contar direito.

A questão é que nenhuma das duas CONHECE Bukowski. A não ser de ouvir falar. Mãe até que tentou, mas ao ver duas vezes a palavra buceta na primeira poesia, saiu do quarto horrorizada “ai-meu-deus-o-que-minha-garotinha-anda-lendo”. A irmã ouviu esse comentário e desde então eu sou a filha devassa que lê putarias e fala palavrão. Não é  concebível pra família que 1) Vai muito além de onde elas estão olhando; 2) “Você vai acabar queimando no inferno junto com ele” não é algo que eu considere ameaçador e 3) Eu já falava e fazia tudo o que faço hoje bem antes de CONHECER o Hank. Na cabeça dos meus pais (e da minha irmã), eu só ouço e leio certas coisas para parecer rebelde, não porque eu gosto. CLARO, NÃO É?

Enfim, ontem, no meio da conversa, dispostas a me provar que Bukowski não é literatura e que uma dama como eu não deveria se submeter a esse tipo de obras (porque, segundo elas, eu falo palavrão, sou amarga e anti social, trabalho muito… tudo por causa dele. minha mãe adora dizer “você não era assim antes desse velho safado”), minha irmã resolveu folhear o “Fabulário geral do delírio cotidiano” na cama.   De repente, a guria fala “MÃE, OUVE ISSO AQUI. NUNCA TINHA OUVIDO NADA PARECIDO” e desata a ler em voz alta, meu pai na porta, algo do gênero “chegamos juntos ao orgasmo e esperei ainda dentro dela até que meu pau amolecesse”. Sério: Vocês não queriam ter visto as caras deles.

Eu ri enquanto ela repetia horrorizada “Nossa, Ari, nunca tinha ouvido nada parecido…”.

Pra complementar, depois de muito HORROR familiar, já no silêncio das luzes apagadas, minha irmã engatou o seguinte diálogo:

“Ari, acho que Bukowski não pode ser considerado erótico.”
“Do que você está falando?”
“Palavras de baixo calão. Eu ouvi que literatura erótica não tem isso. E ele falou ‘pau mole’. Isso é baixo calão. Devia esta escrito ‘pênis não ereto’.”

Sim, minha irmã, 14 anos, leitora de Crepúsculo, é o novo Antonio Candido. Manja tudo de literatura.

E minha mãe, lá de fora do quarto, respondeu: “Filha, esqueça o que você leu. Pare de pensar nesse boca-suja pervertido e vá dormir! Sua irmã não vai mais compartilhar essas coisas conosco”.

Sozinha, falando baixinho, a caminho do quarto dela: “Deus, eu sei que errei com a primeira, mas vou acompanhar a educação da segunda bem de perto. Nada de faculdade de jornalismo, Charles Bukowski, palavrões… Eu prometo, Deus, que eu vou cuidar bem da caçula”.

Sou o projeto que deu errado. É infantil, eu sei, mas ri sem parar.

Caio e eu

Não, eu não vou falar pela milionésima vez no Caio-da-infância, o Caio-primeiro-amor, o Caio-que-amei-durante-oito-anos-e-jamais-esquecerei. Não é desse Caio que falo hoje.

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Como se eu já não fosse criativamente piegas sozinha, resolvi me desprender de obrigações e passar a tarde com Caio Fernando Abreu. O livro, CAIO3D, eu já tinha lido e reencontrei ontem na Biblioteca, enquanto fuçava uma das prateleiras que mais me fascinam.

(Ok, a bibliografia de que realmente precisava pra estudar/trabalhar ficou por lá mesmo. Peguei só o que eu queria ler. Sei que é total FAIL, que no fim do bimestre mimimi mimimi mimimi, blablabla whiskas sachê, whatever.)

Eu quero e preciso de uma pausa pra mim. Preciso de um tempo pra pensar, preciso de um carinho, preciso da sexta-feira. Acima de tudo, preciso entrar mais um pouco em mim enquanto ela não chega. Caio se encaixa perfeitamente nessa necessidade, porque me identifico com ele, porque sinto que há muito dele em mim e (eu poderia ficar falando o dia todo), enfim, é melhor parar por aqui, afinal, ele me espera na cama, com mousse de maracujá na mão, pra continuar a me contar de novo suas histórias deliciosas.

(Por mim eu nem ia pra Cásper hoje. Nem pra USP amanhã. Por mim eu largava da vida e ia morar numa biblioteca. E eu não estou brincando nem figurativizando nada…)

imagem via unicorlogy.

Noite de domingo

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“Você é masoquista, eu não”, ele disse, sério, enquanto subiam a Avenida Consolação. E essa ideia, esse “você é masoquista” perturbou-a ainda repetidas vezes antes que finalmente aceitasse essa condição. Masoquista. O maldito tinha razão.

Tinha razão. Não gostava de nada que não a descontrolasse, remexesse por dentro, arrancasse pedaços, causasse espasmos loucos de vontade. Não gostava de nada ameno e racional. Não gostava da tranquilidade: só achava bom quando era insano, quando era confuso, quando lhe tirava o ar e causava dores estranhas.

(Por isso não estava tão feliz. Aquela relação planejada, cheia de limites, casual, a ideia de não poder se apaixonar, de saber estar com alguém que não a quereria, tudo aquilo a podava, limitava, tudo aquilo causou-lhe um desencanto profundo.)

Às vezes as pessoas pagam um preço alto por sonharem demais. Quase sempre, aliás. Ali, por exemplo. Naquela noite gostosa, feita especialmente para o amor. Ali. A vontade existia, mas não foi daquela vez. Talvez não fosse pra acontecer nunca, isso não importava. Aquela paixão que a motivava a fazer loucuras não estava ali. Não era a ele que ela pertencia. Só estava carente, só isso. Precisava de colo. E se estava fazendo as coisas do jeito errado, meu bem… Agora não queria nem saber. A ideia de aproveitar o que tinha nas mãos naquele instante prevaleceu, e foi bom – tanto quanto assustador – conciliar razão e emoção.

“Você é masoquista, eu não”, ele disse, sério, enquanto subiam a Avenida Consolação. E ela sorriu como quem sabia que aquilo era verdade. “Vou pra casa”, ela respondeu com carinho. Entreolharam-se. Um beijo, um abraço forte o suficiente para machucar. “Tem certeza?”, perguntou, respeitando a vontade dela, mas mostrando que não concordava com a decisão. “Tenho. Vou para casa”. Estava criando mais uma ferida quando dizia não a ele – mas e daí? Era masoquista mesmo, a dor é que lhe dava prazer.

imagem via vi.sualize.us

Encontro

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Ela volta do jantar solitário, cabeça nas nuvens, pasta sanfonada na mão, coquezinho-secretária, óculos embaçados pelo rímel recém-passado. Malditos cílios gigantes que sempre esbarram nas lentes… Não é um de seus melhores dias. Confusão mental, a sempre triste confusão mental.

Caminha olhando para cima, sempre. Não por arrogância ou esperança, mas porque, inexplicavelmente, há algum tempo já não há o que lhe fascine mais que o céu. Especialmente o céu logo acima da torre da Gazeta, sua torre, pedacinho da sua vida. De repente, uma voz a tira do transe.

– Olá, você vai atravessar a avenida?
A velhinha sorri afetuosamente.

– Vou sim.
A resposta vem ainda com algum receio. Não gosta de contato com estranhos. Tem dificuldade pra conversar até com conhecidos…

– Me ajuda a atravessar? Fico tão receosa…
A doçura da senhora a conquista. Faz que sim com a cabeça e volta os olhos para o farol.

– Você trabalha por aqui?
– Estudo na Gazeta
– Cursinho?
– Não, Jornalismo…
– Jornalismo… É uma bela profissão para as mulheres. Em que ano está?
– Segundo.
– E como é o campo?
A pergunta do campo. Do mercado de trabalho. Sempre a pergunta do mercado de trabalho. Responde qualquer coisa, deseja não ter parado ali. Odeia falar sobre área de trabalho, campo, especialização… Todos sempre lhe torcem o nariz ao ouvir suas opiniões e opções.
O sinal abre. Coloca a mão nas costas da velhinha e atravessam, enquanto, cachinhos brancos ao vento, vestido floral, a idosa continua:

– A filha do meu irmão fez jornalismo. Trabalha naquela revista… como é… Valor, conhece?
– Economia?
– Isso, isso! Trabalhava na Gazeta Mercantil, mas recebeu uma proposta mais lucrativa, sabe como é, dinheiro a mais é sempre bom… Ela adora economia. Você… Tem alguma área de interesse em especial?
– Tecnologia.

Chegaram ao outro lado da Avenida. Paradas em frente ao Top Center, as duas se entreolham.

– Você tem mesmo cara de quem gosta de tecnologia, como não pensei nisso? Sério…
– Obrigada…

A dona da cabecinha branca olha para os lados como quem não sabe para onde vai. A idade tem dessas coisas. Por um instante, fica com as mãos no queixo. Solta de repente e puxa a garota, que recebe um afetuoso beijo no rosto.

– Sucesso, menina! Sucesso! Você merece muuuuito sucesso! Obrigada, obrigada mesmo!

Ainda assustada com a estranha alegria advinda apenas de alguns segundos de atenção, sorri. Agradece. A confusão já não está mais dominando sua mente. Só consegue se sentir contagiada pela felicidade e pelo carinho da terna desconhecida.

– Mulheres! Mulheres! Sucesso, hein?, ainda gritava a senhora, parada entre a banca de jornal e o ponto e ônibus.

A garota continua seu caminho, passando pelo escadão, até chegar à Faculdade Cásper Líbero. Ah, a Cásper… Sorri para o segurança, cumprimenta o bedel com quem dividiu a viagem elevador e, como se fosse outra pessoa, passa o fim de sua segunda-feira esperando o melhor – não dos outros, mas de si mesma.

Senta em frente ao seu computador para fazer um trabalho, para, de sopetão, por um instante e, de repente, passa-lhe uma ideia louca pela cabeça. Ah, tolinha. Esqueceu de perguntar o nome daquela que por muito tempo ainda irá figurar em seu pensamento lembrando-a de sorrir pra vida…

Quem a vê assim já não sabe mais dizer quem ajudou quem.
Mas qualquer um apostaria que quem mais ganhou nisso tudo foi ela, que, perto de seus vinte anos de idade, andava sofrendo sem porquê.

Foto por Raphael Strada.

Let it go

lua em 2.03.09

A lua estava chamando a atenção ontem. Enorme, linda. Com uma enxaqueca enlouquecedora, o meu passeio de moto noturno não foi a coisa mais agradável do mundo. Mas a lua estava lá. E estava linda. Em meio a contrações de dor e parcela leve da atenção no trânsito (que eu também não queria morrer), eu chorei. Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se não chorássemos. Chorei porque vi a lua, e a lua me lembrou de uma conversa que tive há não muito tempo com alguém que, espero, não terei conversas íntimas nunca mais.

A noite mal dormida graças às dores insuportáveis trouxe de presente uma manhã melancólica e tão dolorosa quanto a madrugada. Na caixa de entrada,  só o Personare, dizendo, infelizmente, aquilo que eu já sabia desde a cena na moto:  “transbordamento de emoções e problemas que você tem tentado evitar nos últimos dias, Ariane. (…) sugerindo que você até deseja levar as coisas numa boa, com mais relaxamento e tranqüilidade, mas há problemas e pendências a resolver que não podem ser evitadas! (…) não faça de conta que não existem coisas que lhe incomodam e que dê atenção a estes pontos. (…) A reflexão para o período é: do que eu preciso me libertar?” . Eu realmente estava fugindo, vide posts anteriores nesse mesmo blog. Já sabia também do que precisava me libertar. Só não sabia como.

No início a culpa era minha. Eu ia atrás da dor, todos os dias, em silêncio, sem que ninguém soubesse. Ele não sabia que eu estava ali, mas eu estava. Fuçava tudo, achando que descobrir as coisas me faria sentir uma raiva inexplicável e levaria todo amor embora. Bobagem, amor é perdão, sou toda perdão, sempre fui. Descobrir as coisas me deixava mal comigo mesma, com ninguém mais. Mas o fundamental é não perdermos o respeito por nós próprios, então eu disse adeus (confesso: submissinha como nunca o fui com ninguém, esperando que do outro lado viesse um “Não, não vá, sei o que quero, quero você” – bobagem de novo, não se deve esperar que alguém te diga algo só porque você o diria). Enfim, disse que ia embora, mas isso muitas vezes o fiz: despedia-me, mas voltava antes de virar a esquina. Dessa vez fui de verdade. Achei que finalmente fosse conseguir vencer esse sentimento estranho e o “Adeus” foi com toda a convicção que ainda restava aqui dentro.

Era a vez dele ser culpado. É dessa massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade. Sempre se fez de bobo, nisso não havia novidade nenhuma. Mas achei que o bom senso se manifestaria dessa vez. Esqueci a miséria egoísta que todo ser humano é. Na verdade ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, bem mais dura que a outra, que por qualquer coisa sangra. Ter me recolhido aos estudos me fez muito bem. Enquanto lia, fingi não notar que tudo parecia um aviso, um lembrete. Mas está tudo lá, está tudo aqui, e o pior cego é aquele que não quer ver. Eu não queria, talvez fosse uma esperança, talvez achasse realmente que isso fosse dar certo um dia. Mas agora vejo, não que isso me tenha feito bem, que não vai ser diferente do que foi até hoje. Agora sou capaz de notar o quanto tenho sido boba, o quanto muita gente o é. O que começa errado, termina errado, e errado será se tiver novas chances de acontecer, a experiência da vida e das vidas tem cabalmente demonstrado que ao tempo não há quem o governe.  O tempo vai curar, eu espero, essa ferida que tem corrido cada vez mais previsível. O tempo vai me manter forte para que eu não falhe, de novo, comigo mesma.

Sinto falta de tanta gente, de tanta coisa, que engraçada é a internet, que engraçada é a vida, que panaca sou eu. A consciência moral, que tantos insensatos têm ofendido e muitos mais renegado, é coisa que existe e existiu sempre, não foi uma invenção dos filósofos do Quaternário, quando a alma mal passava ainda de um projecto confuso. Está tudo ali, na sua mão, e você acaba por não segurar. Está tudo disperso, tudo solto, tudo confuso, e você chora dizendo que queria ter. Nunca achei que essa coisa de Close your eyes, clean your heart, let it go fosse fácil, juro. Mas não sonhei – nem de longe – com toda essa dificuldade que tenho enfrentado. Não é que eu queira ter alguém, não, que ultimamente o que quero é que me tenham. Cansei de ser só minha, cuidar sempre dos outros e acabar esquecida. Sinto que só vai parar de doer quando ele deixar de existir pra mim. Só não vejo meios disso acontecer sem que eu aja de maneira infantil. Porque é assim que ele tem agido. Sendo infantil.

É por isso que horóscopos, em especial o Personare, me divertem. Eles dizem o óbvio, ok. Todo mundo tem algo de que precisa se libertar. Às vezes, só precisamos ouvir isso de alguém, ué. E ele diz. É só não viver em função disso. É só saber o que vale a pena ouvir. Hoje ele confirmou o que tenho pensado há tanto tempo… “Seja fiel aos seus ideais, não se contente com pouco. Avalie criticamente o ambiente e corte todas as pessoas e situações que não servem mais em sua vida, sobretudo pessoas que você não avalia como construtivas, afinal todas as relações se pautam numa boa troca. Conselho: Mantenha seu nível de exigência alto, não se contente com pouco.” Vêem? O mesmo que eu disse ontem no Twitter, ao citar Saramago. É de doer o fígado. (Mentira, as dores são por culpa da enxaqueca mesmo). É de partir o coração que, com tanta reflexão, tanta dor e sofrimento (não só psicológicos, mas físicos!) eu ainda não tenha conseguido me resolver. Eu quero meu equilíbrio de volta. Enquanto isso não acontece, quero ir logo ao pronto-socorro tomar uma injeção na veia, que a Neosaldina já não está resolvendo mais.

Observação:
O conteúdo grafado em itálico corresponde a trechos de Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.

O conteúdo entre aspas foi retirado do site Personare.

A imagem da lua é realmente dessa noite é foi tirada por Dave Young.

Madrugada de domingo

Terminei o livro com um estranho pesar que não saberia explicar aqui: mal o consigo compreender. Saí do quarto, pus-me de frente ao grande espelho da copa. Não gostei do que vi, nunca gosto. Senti vontade de me fechar ali para sempre – bobagem minha, pessoas com problemas realmente muito mais sérios que os meus não o fazem, por que eu, aparentemente saudável, tenho agora esse medo de encarar a vida? Voltei para o meu quarto, dirigi-me à estante dos adorados, aqueles que sempre me fazem bem. Passei os olhos sobre os títulos, nenhum me chamou dessa vez. Fiquei ali ainda alguns minutos a pensar, olhar e dialogar com eles. Talvez Cecília ou Pessoa, não, não, não estou hoje para poesia, podia tentar Flaubert, Goethe, Remarque, estão acenando de leve, são tão simpáticos… Mas não, não, não quero, simplesmente me deprimiria ainda mais, não, chega de literatura por hoje, amanha pego algo às escuras, saberei do que se trata apenas quando estiver já na faculdade. Voltei à beira da cama, sentei-me como quem senta no sofá dum desconhecido, recatada, encolhida. Olhei em direção ao meu espelho. Veja só, como mudei, como estou sempre a mudar, cada dia mais diferente e, no entanto, sempre a mesma. Ainda não sabia, mas esse pensamento me viria cutucar de novo na manhã seguinte. A mãe bateu à porta, deitou-se em minha cama como uma adolescente que vai escrever em seu diário, pediu-me um beijo. Eu te amo demais, filha. Beijei-a na testa, dei-lhe um abraço longo e silencioso. Pegou o livro que repousava ao meu lado. Em que parte estás, Já terminei, Não acredito, vives de literatura, és pior que eu, não fazes nada além disso, ler, ler mais um, ler de novo. Suspiramos as duas. Rimos as duas, ela falava de mim como se fosse diferente, não o era, a não ser pelo fato de trabalhar – mas como seu trabalho envolvia também ler e ler e ler mais um pouco, estávamos agora na mesma. Agora me fale, o que acha da cena das galinhas, acho que é na volta da moça dos óculos escuros, esse li há tempos, não me recordo bem como é, sei que há coelhos também. Pensei por um instante. Sim, sei do que falas, há peles de coelho espalhadas pela casa, pedaços de carne crua mastigados sobre a mesa, só a mulher do médico pode ver, Claro, horrível, lembrei-me dela porque no filme não aparece, Imagino, seria difícil adaptar cena assim, inclusive, falando no filme, dessa vez senti vontade de assisti-lo, sei que nunca gosto de adaptações, se foi por isso mesmo que não fui contigo ano passado, mas agora estou curiosa para saber como o fizeram, Desse gostei, acho que devias ver. Paramos as duas. Vou dormir, estou cansada, amo-te muito, Vá sim, vou também, até amanhã à noite. E ela foi. Fiquei um tempo ainda sentada, olhando em direção ao vazio, a pensar no que me tem angustiado. Melzinha acomodou-se no cantinho a ela reservado ao lado de minha cama, afofou seu cobertor e fechou os olhinhos negros e tristes. Tive pena, apaguei as luzes, achei que realmente era hora de dormir. Boa noite, Melzinha, baixei a mão, recebi uma lambidinha carinhosa, virei para o lado e dormi o sono dos descontentes, a espera do que havia de vir.

 

Pela manhã, passei pela prateleira novamente, sorteei um livro ao acaso, coloquei na mochila. Ao chegar na faculdade, depois do trajeto pelos anos 90, abri-a para ver de qual se tratava. Nada de Novo No Front. Remarque vencera. Mais um sinal de que ando reclamando demais de uma vida que tem sido até que bem fácil.

 

Não me matem por ter escrito à moda de Saramago. Estava piraaando quando rascunhei esse texto. Não quis mudar o original. Não achei bonito, fato. Mas piração é piração, prefiro respeitar. Prometo não fazer de novo. (Não prometo nada, o texto é meu, escrevo como bem entender! hahaha)

Eles têm sempre a razão

de Vinícius e Tom:

haja o que houver
há sempre um homem para uma mulher
e há de sempre haver
pra esquecer um falso amor
e uma vontade de morrer
seja como for
há de vencer o grande amor
que há de ser um coraçao
como perdão pra quem chorou

E quem sou pra discordar?

Belinha

Não podia ouvir ninguém chegar, fosse de carro ou a pé, que corria pra porta, latindo. “Quieta, Belinha! Já é tarde! shiiiiu!” Voltava, avisava a todos na casa, ia desesperada em direção ao portão. Sem boas vindas nem tem graça entrar em casa. Ao menor barulho do saco de pão, disparava em direção à cozinha. “Ô, Belinha, me deixa tomar meu café!”.

Nem quando alguém ia ao banheiro dava sossego. Corria atrás e se escondia embaixo da pia. Vira e mexe passava despercebida aos olhos de alguém e acabava lá presa, sozinha, até latir por socorro.Isso quando não esqueciam a porta aberta na hora do banho – ia pra baixo do chuveiro na hora! “Belinha, sua danada, acabei de secar você…!”. Adorava tomar banho, sentir-se limpa, bonita. Caminhava feito uma princesa pela casa. Isabella. Mais Bela que Isa, mas era o nome perfeito. Beleza imponente. “Nunca vi cachorra assim! Parece uma gata!”.

Dormia o tempo todo no braço do sofá. “Bela, desce daí!” E ela esperava a gente virar as costas e subia de novo. Eu, papai, mamãe, Tainá e Melissa éramos mais dela que ela nossa. Escalava escadas como ninguém, avançava em qualquer um que lhe parecesse ameaçar um de nós. Ciumenta que só. Pulava de um sofá para o outro. Orgulhosa.  Nem adiantava chamá-la se pegássemos a Melzinha primeiro. Virava a cara. “Belinha! Bela! Vem cá, cheirosa!”. E a sem vergonha sumia.

Num passe de mágica, surgiam calças e calcinhas furadas. Quantas calcinhas novas joguei no lixo por ter esquecido na cama no dia da compra! “Dá um beijo, Belinha!” E ela dava uma lambidinha só, rápida e carinhosa, na face de quem pedia. Belinha era a alegria da casa. Até quando fazia coisa errada, nos fazia sorrir.

Dormia na porta do quarto esperando alguém levantar. Às vezes, no meio da madrugada, empurrava a porta e subia na minha cama. Eu acordava com o que mais parecia um bolinho peludo no edredom, fazendo calor em cima das minhas pernas. “Sai daqui, Belinha!”. De vez em quando, engasgava com alguma porcaria achada no chão e deixava todo mundo assustado. Companhia quando eu estava carente. Inspiração nas minhas aventuras escritas. Belinha sim era cachorra pra amar…

Assustada. Sempre. O que tinha de espoleta, tinha de medrosa. Medo de tudo. Sombra, bonecas, espelho, televisão… Temia o tartarugo… Temia até – e principalmente! – rodos e vassouras. Era só ver um que saia latindo e chorando, rosnando pra quem se pusesse em seu caminho. Invocava até, mas era só oferecer um carinho que já se abria toda. Não fazia xixi fora do jornal, não aceitava sair sem antes colocar um lacinho, ah, Belinha! ô Belinha… De vez em quando eu ainda a espero vir correndo. De vez em quando ainda me pego chamando. Belinha! Belinha! Mas ninguém vem.

Bobeira segurar as lágrimas. Bom deixar correr. “Belinha! Belinha! Não faça isso! O que você tem? Engasgou de novo? Responde, Belinha! Belinha… ô, minha menina… Belinha?” Fiz tudo o que pude, juro. Mas o corpo foi esfriando, fez-se duro – e ela nunca mais respondeu.

escrito na madrugada de 21 para 22/02, no quarto escuro, entre o rodízio de lágrimas dos quatro que Belinha deixou aqui quando partiu.

post-diarinho

Passei o dia customizando coisinhas. Sempre bom. A verdade é que as férias estão acabando, Cásper Líbero e USP me esperam e eu, embora nada empolgada, estou aqui, aos trancos e barrancos, encapando cadernos, jogando fora papéis velhos e dando espaço aos novos, organizando meu horário e, sobretudo, gritando “CORRÃO!!!!” pra todo mundo que vem me pedir conselho sobre fazer duas faculdades. Olha, não é pouca gente que vem falar comigo sobre isso.

 

Enfim, eu alerto as pessoas pra que elas não cometam os mesmos erros que eu. Se bem que, no fim, acho até meio chato dizer ‘não faça isso’. É hipócrita, sei lá. Eu só digo ‘eu, se pudesse, voltaria atrás’. Cada um tem um jeito de levar uma experiência. pra mim foi péssimo, pelo menos esse primeiro ano. Mas eu vou confessar: ainda não sei se tranco a USP ou não. É, não quero ter que aguentar mãe em casa todos os dias. Prefiro estudar até pirar. Sério. Sério mesmo. Não estou brincando.

 

E por falar em estudar, vou ali ler mais um pouco de Vinícius enquanto eu ouço meu querido Cazuzinha. Dessa vez tô guardando minhas anotações, quando acabar de reler o livro, trago-as pra cá. :}

 

Pra vocês, aqueeeeeeele beijo que eu nunca mando, ao som de quase um segundo – que me tirou lágrimas minutos atrás.
Despeço-me por hoje. Melhor, por agora. Por agora, porque sei que sempre volto antes do combinado.

Paixão Lámen

Instantânea. A chamada paixão de metrô.

Aquela que começa num olhar cruzado e termina na estação de quem desembarcar primeiro.
 

(Geralmente a gente não encontra essa pessoa nunca mais. Ver uma foto dela no álbum de um amigo é tipo MUITO pra qualquer cabeça. Pode ser um sinal, pode ser uma coincidência, e pode ser mais uma das paranóias da minha vida-novela.)

Tô na chuva, meu bem. Quero mais é me molhar, mesmo. Cansei de ficar esperando na calçada, contando com a lona de alguma loja, desprevenida. Não foi no metrô,  óbvio. Só usei da metáfora. Foi na Campus Party. E não foram nem segundos. Foi só um olhar cruzado, logo no início do dia.

(Ok. Quase na hora de ir embora, houve abordagem, confesso. Ele tentou – e eu não acreditei! – mas eu não pude conversar naquela hora. “Oi, está acampada aqui?” “Oi? Não… E você?” “Não, tô a trabalho… Quero te conhecer, posso?” “Agora?” “Agora!” “Jantar… Inadiável. Mais tarde, pode ser?” “Promete?” “Prometo!”. Na verdade, eu fiquei tão sem reação que, ao dizer que conversaria mais tarde, não me toquei de que aquilo mais parecia desculpa de quem quer dizer “não” do que qualquer outra coisa. Não nos encontramos mais depois disso. É claro que foram três dias em que meus olhos involuntariamente passearam o Centro de Exposições várias vezes procurando cruzar com os dele de novo. Nada.) 

Pausa de quinze dias. Nem lembrava mais de nada. Daí ele aparece numa foto aleatória, num álbum qualquer do Flickr e eu fico tipo “WTF???”. Em cinco minutos eu já achei blog, twitter, videolog, msn, skype, portfólio, se pá eu já tenho até o resultado dos últimos exames que o cara fez. (Exageraaaada!) Mas não vou arriscar nada, eu sou devagar.

Foi instantâneo – é paixão miojo, sabe? Só é gostoso na hora – esfriou, perdeu o sabor.

E gente, eu tenho paixões de metrô, calçada e elevador todos os dias. Eu vivo disso, das palpitações e do desesperozinho.
Às vezes de um pseudo contato cinematográfico, às vezes de ser invisível também.

 

Eu vivo de me apaixonar, o tempo todo. É por isso que eu sofro tanto quando me apego a alguém. Quando eu me apego, minhas paixões se tornam menos freqüentes. Eu foco naquele de quem gosto. E eu preciso de reciprocidade, senão não dá. Da última vez, não deu. Fim.

 

Rafael me fez lembrar o significado das palavras início e fim. Daí eu finalmente aceitei o fim e pronto.
Não posso ficar mimimizando as coisas pra sempre.

 

(E eu não postei sobre o cara na época da #cparty com medo dele achar meu blog. Mas agora eu vou tacar um foda-se, que eu nunca tive muito controle mesmo sobre o que eu posto aqui, tanto quanto não tenho sobre quem lê. ;D)