Eu Te Amo, Porra

Ah, eu não sinto mais vergonha, não.
Se a falta vai dizer por mim.
Você se engana tão melhor assim;
Guardando tanto amor que eu já não sei separar.
Eu não sei.

O som que faz quando um de nós se vai
é quase vai-e-vem.
Por muito tempo até que deslizei;
Não deu pra segurar, mas eu tentei.
Devagar.
Eu tentei.

E eu não quero um outro alguém –
muito menos se for
p’ra esconder o nosso bem
em um falso sorriso.
Pense muito bem
nesse abrigo indeciso.
Outra foto no mural
e eu fui cuidar de mim…

Fui procurar ajuda para um coração
trincado pela culpa,
vazando sem perdão.
Procurar ajuda para um coração
trincado pela culpa,
coagulando sem perdão.
Eu errei fazendo a coisa certa.
E, perdendo toda a essência,
acho até que não preciso de você…
quando preciso de você.

Poléxia

Divagações

sempreoeleeoeueoeleeoeueoeleeoeueoeleeoeununcanós?

cadernos rabiscados, poesias dedicadas à lata do lixo, apontador, cascas, cascas, rabiscos, pra quê lápis se dispenso a borracha?

abraços, beijinhos, carinhos, escrever e pensar a ternura é muito mais fácil do que de fato vivê-la, realmente.

realmente
real mente
o real?
mente

 

[a vida vaivai vai v a i … e eu fico.]

 

tudo vai passar
vai passar
passar

tudo.

 

 

intuições, parâmetros, desencadeamentos, sentenças

 

já pararam pra pensar?
nem sempre o final é feliz

 
Entoe o mantra
TVP TVP TVP TVP TVP TVP TVP TVP TVP TVP TVP TVP […]

ficadicaeterna:*

E a Primavera chegou…

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Alberto Caeiro

Pois é. Ela chegou e eu ainda estou viva. Já a havia notado nas cores das folhas, do céu, na maneira como tudo me pareceu tão mais fotográfico que o normal nos últimos dias, embora eu não tivesse tido tempo de parar para refletir o porquê de tudo isso ou de dizer o quanto me chamou a atenção. Quer dizer, porque foi a primeira. A primeira Primavera que enxerguei com esses olhos – não sei se mais maduros, mas certamente mais abertos à vida.

Sempre vi e ouvi alusões à Primavera. À sua “magia”, ao clima de amor que paira sobre ela. Mas sentir e ouvir falar são coisas tão diferentes… E me pergunto só uma coisa: como (sobre)vivi tanto tempo sem enxergar todas essas cores, toda essa beleza?

 

(Não estou apaixonada – não que eu saiba. Não tenho motivos para ficar poetizando a vida – pelo contrário, ela tem sido bem cruel comigo. Talvez seja exatamente esse o segredo: o fato de eu estar meio que do lado de fora de mim. Talvez eu esteja um pouco menos egoísta. Ou mais, não sei.)

 

Mas eu vou por aí encontrando meus prazeres Amélie Poulain, do gênero escrever sentada embaixo de uma árvore num dia ensolarado de Primavera, carinho nos cabelos – fazer e receber!, fotografar tudo isso que eu vejo e acho lindo – e ter o meu olhar guardado, sentir nojinho dos casais apaixonados na rua, cantar com os amigos, passar uma noite inteira contando e ouvindo segredos e desabafos, (…). 

 

Sim, eu sou piegas demais.

Há certas coisas que só devem ser sentidas – nunca ditas.

Entoando o mantraaaaa: Essa primavera meu amor vai voltar pra mim…

La fabuleuse Mauvaise Version d’Amélie Poulain

Ou: A Fabulosa Versão Errada de Amelie Poulain

Mais uma vez, qualquer semelhança é mera consciência conseqüencia coincidência.

Nunca teve delicadeza nos movimentos ou palavras, mas sempre foi uma pessoa de delicadeza inexplicável por trás da grande carcaça de pedra que costumava utilizar como proteção – e que poucos conseguiam atravessar ou enxergar além de. Dezoito anos e colecionava sonhos, uma boa porção realizada, outra não menos significativa guardada e vivida intensamente todos os dias, mesmo que só em seu mundo particular.

Os sonhos que realizara foram, de certa forma, frustrantes. Idealizar demais, no fundo, é isso: um constante e eterno meio de frustração. Mas ela sabia que nada era perfeito como a fazia acreditar seu coração. E nele é que vivia as melhores coisas de sua vida: sentia abraços nunca dados, olhares trocados com alguém que nunca a olhou, mãos macias que nunca tocaram as suas, beijos românticos e mordidas em lábios que nunca tocou. (Nunca fora beijada de verdade: pelo menos nunca sentiu ter sido. Em suas poucas experiências os resultados foram decepcionantes. Não houve química, tesão, carinho, vontade. Só medo, pressão ou culpa. Incontidos. Irremediáveis).

A vida toda lutou para ver sorrisos nos rostos dos outros. Gostava de ouvir desabafos, opinar. Não tinha medo de ser cruel dizendo a verdade porque sabia que seria mais cruel escondê-la. Abria mão de desejos no decorrer de sua vida apenas para que outros pudessem usufruir deles. Aqueles que amou, mesmo que a fizessem chorar, ela sempre fez toda a questão de ver sorrindo.

Nunca serviu muito para o mundo real. Sempre foi um poço de dúvidas. Incompreensível alguém que pouco viveu entre outros humanos carregar tantos traumas.

Mas era feliz sozinha, embora tivesse certos espasmos de carência. Esperava a pessoa certa enquanto criava relações perfeitas e imaginárias com as pessoas erradas. Em seu mundo, todo dia era dia de um novo final – feliz.

Amélie Poulain Mode de Vie

Já que eu vivo de sonhos, me deixa – só hoje – viver repetidas vezes um final feliz?

O amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro mas eu vou te libertar
O que é que eu quero se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar

  • Raul Seixas