o amor (não) é filme

O importante não é saber o que acontece, mas quando e como acontece.

Já acendeu a luz do cinema, e agora vai começar minha vida (…) Tem uma hora que o coração quer é sossegar com alguém! (…) Ninguém ama por tabela. (…) Eu fui, e vou, toda vez que o amor me chame, vocês entendem? (…) Eu quero queimar minha vida de uma vez só, num fogo muito forte…

Não. Acabou, o amor não é filme.

Belinha

Não podia ouvir ninguém chegar, fosse de carro ou a pé, que corria pra porta, latindo. “Quieta, Belinha! Já é tarde! shiiiiu!” Voltava, avisava a todos na casa, ia desesperada em direção ao portão. Sem boas vindas nem tem graça entrar em casa. Ao menor barulho do saco de pão, disparava em direção à cozinha. “Ô, Belinha, me deixa tomar meu café!”.

Nem quando alguém ia ao banheiro dava sossego. Corria atrás e se escondia embaixo da pia. Vira e mexe passava despercebida aos olhos de alguém e acabava lá presa, sozinha, até latir por socorro.Isso quando não esqueciam a porta aberta na hora do banho – ia pra baixo do chuveiro na hora! “Belinha, sua danada, acabei de secar você…!”. Adorava tomar banho, sentir-se limpa, bonita. Caminhava feito uma princesa pela casa. Isabella. Mais Bela que Isa, mas era o nome perfeito. Beleza imponente. “Nunca vi cachorra assim! Parece uma gata!”.

Dormia o tempo todo no braço do sofá. “Bela, desce daí!” E ela esperava a gente virar as costas e subia de novo. Eu, papai, mamãe, Tainá e Melissa éramos mais dela que ela nossa. Escalava escadas como ninguém, avançava em qualquer um que lhe parecesse ameaçar um de nós. Ciumenta que só. Pulava de um sofá para o outro. Orgulhosa.  Nem adiantava chamá-la se pegássemos a Melzinha primeiro. Virava a cara. “Belinha! Bela! Vem cá, cheirosa!”. E a sem vergonha sumia.

Num passe de mágica, surgiam calças e calcinhas furadas. Quantas calcinhas novas joguei no lixo por ter esquecido na cama no dia da compra! “Dá um beijo, Belinha!” E ela dava uma lambidinha só, rápida e carinhosa, na face de quem pedia. Belinha era a alegria da casa. Até quando fazia coisa errada, nos fazia sorrir.

Dormia na porta do quarto esperando alguém levantar. Às vezes, no meio da madrugada, empurrava a porta e subia na minha cama. Eu acordava com o que mais parecia um bolinho peludo no edredom, fazendo calor em cima das minhas pernas. “Sai daqui, Belinha!”. De vez em quando, engasgava com alguma porcaria achada no chão e deixava todo mundo assustado. Companhia quando eu estava carente. Inspiração nas minhas aventuras escritas. Belinha sim era cachorra pra amar…

Assustada. Sempre. O que tinha de espoleta, tinha de medrosa. Medo de tudo. Sombra, bonecas, espelho, televisão… Temia o tartarugo… Temia até – e principalmente! – rodos e vassouras. Era só ver um que saia latindo e chorando, rosnando pra quem se pusesse em seu caminho. Invocava até, mas era só oferecer um carinho que já se abria toda. Não fazia xixi fora do jornal, não aceitava sair sem antes colocar um lacinho, ah, Belinha! ô Belinha… De vez em quando eu ainda a espero vir correndo. De vez em quando ainda me pego chamando. Belinha! Belinha! Mas ninguém vem.

Bobeira segurar as lágrimas. Bom deixar correr. “Belinha! Belinha! Não faça isso! O que você tem? Engasgou de novo? Responde, Belinha! Belinha… ô, minha menina… Belinha?” Fiz tudo o que pude, juro. Mas o corpo foi esfriando, fez-se duro – e ela nunca mais respondeu.

escrito na madrugada de 21 para 22/02, no quarto escuro, entre o rodízio de lágrimas dos quatro que Belinha deixou aqui quando partiu.

lembrancinhas aleatórias

o que cada imagem me lembrou essa manhã.

hvrnxsonxjrivmbhpmrhyq8xo1_500lembrou a tory e nosso lindo 2008.

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lembrou meu amor antes de nos conhecermos.

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lembrou o tagliati, amigo de quem eu tanto me afastei sem querer.

20081206105540lembrou a sensação que tive as férias inteiras.

quase-bettielembrou o quanto eu mudei (e ela também) e o porquê de eu não gostar dela tanto quanto antes.
ikria1qkbjq0ywtghev9s4lbo1_500lembrou que ainda dá tempo de ser feliz.
então eu vou correr lá enquanto eu posso. 🙂

Diário de Bordo

O tempo aqui não passa. Dias, horas e minutos se confundem. Se sei que já é quase noite é porque o sol está sumindo no horizonte e tudo a sua volta se faz alaranjado. Hoje o barco não balançou tanto. A náusea tem diminuído, talvez pelo fato do mar estar em constante movimento. Que não importa a situação, boa ou ruim, no final a gente acaba se acostumando.

Estou com sua mensagem nas mãos ainda. Desde o embarque. Desde a despedida. Confesso, ela já perdeu um pouco da beleza: amassou um pouco aqui, rasgou um tantinho ali, guardou algumas lágrimas que escaparam de mim. No entanto, por mais que se desgaste, o valor dela só tem aumentado. É como se você estivesse aqui, ao meu lado, com suas palavras doces que me confundem o tempo todo. O seu querer não querendo que tanto agride o meu é ou não é. Você é todo meio termo, sou toda extremos – não podia ter sido diferente.

Já não vejo coisa alguma. Só água,  em todas as direções. Estamos, definitivamente, mais distantes do que nunca. Afinal, estou em alto mar, sabe Deus em que parte do oceano. É meu modo de evitar o sofrimento. Estar longe.

Sei que vai me perdoar por toda essa confusão mental. Você mesmo não tem estado nos seus dias mais decididos. Acho que foi a decisão mais acertada vir embora. Pra um lugar longe de você, longe até mesmo de mim. Longe de mim, sim. De tudo que vivi até hoje, de todos que conheci. Experiências novas me esperam.

Uma criança chorou aqui ontem. Simpatizou comigo só Deus sabe o porquê. Pediu colo, fiquei sem graça, não tive como recusar. Descobri que já não odeio mais crianças como antes. Engraçado – segurei o menininho por, no máximo, cinco minutos. Ele sorriu. Deu-me um beijo. Crianças são gratas como ser humano adulto nenhum o é.

Esta noite pensei na possibilidade de ter filhos. Confesso, pensei na possibilidade de ter filhos com você. Desejei isso. Desejei que esses enjôos não fossem apenas por conta da viagem. Sonhei com eles, com nossos filhos. Está errado, eu sei. Viajei até aqui para esquecer tudo isso, não para aumentar minhas frustrações. Só achei que deveria lhe contar: eles eram lindos. Tinham meus olhos verdes e sua pele branquinha. Victor, o mais velho, era inteligente como você. A menininha era recém-nascida. Não conseguíamos decidir o nome. Infelizmente, o serviço de quarto me acordou antes que pudéssemos ter chegado a algum acordo.

Acabei de receber meu café. Acender um cigarro. Eu sei, você não gosta que eu fume. Também não gosto que você fume – nem por isso lhe pedi para que não o fizesse. São quatro e vinte. Que ironia, quatro e vinte. Nossa hora. Minha e sua. Mais sua que minha. Alterno entre os goles de café e as tragadas no cigarro como quem faz um ritual. Também tenho bebido religiosamente. Poucas vezes no dia falo com alguém. Essa viagem é pra mim. Pra eu me encontrar comigo mesma.

Passo o dia todo olhando o mar. Pensando no que fui, no que virei a ser. A bem da verdade, tudo aqui tem se resumido ao meu querer. E eu fico aqui querendo.

Querendo fugir. Meio sem opções. Fugir da vida e não trombar com a morte não é algo assim muito fácil. Não sei dizer nem se é possível. Tentar eu sei que dá. Tentar eu sei que posso. Mas ainda me faltam opções.

Eu olho pro mar, às vezes eu converso com ele. Mas ele não me responde. Eu fumo, tomo meu café, respiro fundo. Volto a beber – qualquer coisa entre vodka e água, que eu já nem consigo mais distinguir as duas. E espero o tempo passar, como me pediram que fizesse. Quando o navio aportar, quando eu chegar em mina nova casa, quem sabe assim eu consiga finalmente mudar. Esquecer. Ou, que seja, quem sabe eu deixe de viver apenas em função de tentar esquecer, como foi até agora. Tentar esquecer sempre me leva a mesma coisa – a pensar em você. O tempo aqui não passa. Dias, horas e minutos se confundem. Se sei que já é noite é porque tudo escureceu e o céu é um imenso lençol negro sobre mim. Hoje o barco não balançou tanto. A náusea tem diminuído. Não importa a situação, boa ou ruim, no final a gente acaba se acostumando.

Acho que todo meu problema se resume no fato de eu ainda amar você.

Estreante

Vi as fotos de um casal (até bem conhecido na bobosfera blogosfera) que eu, particularmente, considero muito fofinho. O amor dos dois é  estampado em seus sorrisos, sabe? Ver todos aqueles momentos deles juntos… Uma vida, gente. Uma vida. E eu desejei um amor desses pra mim. Sem inveja deles, numa boa. Eu só desejei o que muita gente deseja a vida toda e não tem: amor mútuo. É. O que vai e volta. Aquele que é tão verdadeiro e tão natural que todo mundo vê no olhar dos dois. Eu só desejei que, algum dia, numa dessas minhas entregas totais e profundas, a pessoa do outro lado se entregasse também. 

Deitei a cabeça no travesseiro e as lembranças que tem me acompanhado com uma certa frequência voltaram a dominar meu pensamento. Festival de risadas, provocações, situações embraçosas, noites no carro, no escadão, no pub, tardes de amor, coisas nossas. Das primeiras às últimas. E eu senti falta, como era de se esperar. Quando a gente abre mão de algo que gosta muito, por mais que seja pelo nosso próprio bem, sentir falta é inevitável

(Foi assim com o teatro, com a música, foi assim com muitas coisas na minha vida. E acredito que ainda será com muitas mais. A vida é feita de escolhas, sobretudo. Porque conquistamos muita coisa, mas ninguém pode ter tudo. Não cabe no tempo, no espaço, não cabe na cabeça e nem no coração. E eu sou a prova viva de que, quando tentamos abraçar o mundo, quando se tenta ter tudo que se quer de uma vez, por maior que seja o esforço em manter as coisas bem, além de nada sair bom o suficiente, a piração é quase certa. )

Talvez por isso eu tenha chegado à conclusão que cheguei. Talvez por isso tenha entendido que agi da maneira correta, pelo menos até agora. Não posso me cobrar tanto por ter sido imatura. Foram muitas experiências novas de uma vez, não sou obrigada a nascer sabendo lidar com tudo.

A verdade segue mais ou menos por esse caminho. Quer dizer, todas essas coisas pelas quais tenho passado… Eu passaria por elas de qualquer jeito algum dia, com alguém. Não posso culpar a ele, nem a mim. Ok, vou me dar o direito de lamentar minha imaturidade porque acho que, caso já tivesse alguma experiência, talvez as coisas tivessem um final (ou mesmo um curso) diferente. Se bem que aí entra também a idéia de que, caso eu já tivesse alguma experiência, as coisas poderiam não me parecer tão maravilhosas assim…

Então não vale a pena ficar formulando hipóteses. “Mas e se eu não tivesse cobrado?”. “E se eu tivesse experiência?”. “E se eu tivesse cedido?”. E se, e se, e se… Não vale a pena. As coisas já aconteceram. Não teriam acontecido de outra forma. Tudo é o que tem que ser. Eu sempre soube disso. De repente, entro nessas paranóias irritantes. Eu cobrei. Cobrei porque tenho princípios, e meus princípios exigiram isso. Meus princípios, que eu inclusive traí várias vezes por ele não ter cedido à cobrança. Mas tinha que ser assim. De outra forma, eu não teria aprendido. Pra tudo na vida se tem uma primeira vez. Geralmente não é das melhores – é só pensar no meu primeiro beijo, no primeiro dia na faculdade, no primeiro evento que cobri… É só pensar no meu histórico que eu aceito isso facilmente. 

Sou uma péssima estreante. Péssima. Mas sempre me dedico ao máximo pra que tudo fique bom no menor intervalo de tempo possível. E acho que isso é tudo que posso fazer, seja por mim, seja pelos outros.

Agora me fala, por que será que é tão difícil aceitar essas coisas, se a gente sabe delas a vida inteira?

 

E assim eu sigo esperando. Esperando a minha estréia como a amada. 
É tudo que eu mais quero no mundo: Não alguém que me prometa nada, nem que fique dizendo que me ama, mas alguém que me ame de verdade e não precise de mais do que um sorriso pra me dizer isso.

Acho que é necessário cumplicidade, companheirismo, é necessário compartilhar.

(Eu sei que eu me iludo facilmente com palavras, como foi da última vez. Mas estou aprendendo ainda. Vou conseguir parar de pensar nele um dia, é só que é tudo muito recente.)

Lisbela

De novo o sinal. De novo o “Próxima Estação: Vila Mariana”. Eu já reparei que aquele turbilhão de pensamentos que começa a me incomodar quando estou com ele resolve se organizar quando eu chego na estação Santa Cruz.

É sempre a mesma coisa. Sempre a mesma vontade de entender o que não dá pra descrever. E o pior é que me divirto com isso.

Às vezes eu acho engraçado, sabe? Eu não acho normal ficar fazendo perguntas pra ele na hora em que estamos… cheios de carinho. Mas, ao mesmo tempo, eu não consigo segurar algumas. Sinto-me uma menina boba, ingênua. Às vezes sinto que estou fazendo papel de idiota. Mas não consigo não fazer. Não consigo deixar, não consigo não parar pra pensar no que tá rolando. É difícil.

Às vezes eu me sinto uma criança. É. Eu, que na maior parte do tempo fico filosofando e criando teorias, de repente só me vejo capaz de fazer perguntas. E perguntas tolas, perguntas inocentes, infantis. Coisa que ninguém, jamais, perguntaria literalmente a alguém, sabe? E eu pergunto! Eu solto as minhas dúvidas como se as pessoas fossem obrigadas a saber respondê-las. É um impasse: ou fico calada e parece que estou sendo, sei lá, debochada, desdenhosa, ou pergunto e fico parecendo uma criança. Ultimamente tenho preferido parecer a criança. Tenho fugido de me esconder. Sempre fui assim, aliás. Não sei porque nos últimos tempos tive tanto medo de me mostrar. Talvez fosse medo de perdê-lo. Mas eu não vou perder. Eu sinto isso.

Sinto que na verdade nem o tenho pra mim. Na verdade eu não tenho o homem em si, tenho os momentos que passo com ele. É isso. Isso é tudo, tudo que me pertence. E isso nunca ninguém vai tirar de mim. Nunca. Ele vai, mas os momentos continuarão sendo meus.

“No dia em que alguém me disser o que temos, dou um troféu a ele”
“Isso te tortura, né?’
“Muito”
(olhares, mimimis e carinhos)
“Eu só me pergunto: É bom ou não? Se é bom, aí eu não ligo”
“Eu não. Se é bom é que eu me preocupo. Eu sou egoísta. Se acho bom, quero prolongar o quanto puder… E nunca, nunca o que é bom dura muito pra mim…”
“Aaaaaaaaaaaah, como ela é otimista… otimista, otimista.”
“Eu nunca disse que era otimista.”

Acho que estou aprendendo a lidar com essa situação. Com essa entrega incompleta. Como se houvesse um elástico, não sei. É, um elástico preso num ponto fixo, no centro da minha vida. E quando eu vou muito longe, ele me puxa de volta ao meu lugar.

A minha felicidade não é ele, não pode ser ele. É sim feita dos  momentos que tenho com ele – porque isso eu posso ter com outras pessoas, eventualmente. Bom, eu sei que nada dura pra sempre com ninguém. Queria parar de pensar no amanhã, sabe? Pelo menos por um segundo… Conseguir pensar só no agora, curtir só o que tá acontecendo. Queria só ser feliz, mas eu não sei. Eu não sei ser assim.  Desde pequena, o futuro sempre me fascinou muito. Eu só espero não perder meu presente pensando no que vai acontecer depois . (por ficar olhando demais pra frente.)  Ahhhh…

Eu devia ter mais dificuldade pra dizer “Eu te amo”. É. Por que dizer “eu te amo”? Acho que isso é uma coisa que eu posso guardar pra mim. A menos que eu goste de ficar com cara de boba, quando digo “eu te amo” e ele só sorri e destrava a porta do carro para que eu vá embora logo. Sempre há horários, compromissos, sempre há alguma coisa entre nós. E quer saber a verdade? É melhor assim. Essa é a primeira pessoa de quem eu não enjoei após um dia junto. Vai ver é isso. Vai ver é isso que me fascina nele: o fato dele saber “não estar nem aí” nas horas certas. Porque quando as pessoas realmente estão completamente na minha, a única coisa que sei fazer é olhar pra elas e dizer “Tchau, tchau, não é isso que eu quero”. Pode ser. Pode não ser. Quem liga?

Cara, devia ser proibido ficar viajando depois de um tempão maravilhoso com alguém que amamos, sabe? Devia ser proibido pensar! Sei lá, é engraçado. De repente eu me vejo sem conseguir completar um raciocínio, eu penso numa coisa – e ai já vem outra, e outra, e outra… e eu não consigo parar, e ao mesmo tempo eu não posso parar.É muito estranho. Mas eu não trocaria estar com ele por nada no mundo.

Seria piração se eu dissesse que tudo que eu queria agora era deitar a cabeça no colchão – assim, no colchão mesmo, sem travesseiro – ficar totalmente estirada e dormir? Dormir e sonhar com tudo que aconteceu, porque eu preciso que isso se refaça na minha cabeça – eu ainda não consigo acreditar. Eu não sei, eu me perdi, sabe? Num dos momentos com ele. Em alguma hora ali, eu me perdi. E eu não consigo me recompôr. Não consigo. Tudo o que eu queria era que isso passasse logo. E que não passasse nunca.

Nossa Língua Portuguesa, que eu tanto prezo, vai me perdoar dessa vez. Isso é a transcrição fiel de uma piração que tive no metrô hoje, no caminho de volta pra casa. Não estou em condições de decidir se deve permanecer aqui ou não. O fato de eu ter gravado isso em público deixa claro que não estou em estado normal. Só me dei conta agora. Então eu vou. E depois eu volto. Ou não. Sempre tem essa opção.

Barcelona

 

Engraçado. Dia desses alguém me passou o link pro download da trilha sonora completa de Vicky Cristina Barcelona. Eu nunca tinha procurado, mas não hesitei em clicar quando recebi. O filme, que eu achei realmente muito bom, tem uma trilha bem marcante, reparamos já no cinema, mesmo que ainda inebriados pela imagem de Javier Barden, Scarlet Johansson e Penélope Cruz na mesma tela. Foi encanto imediato, total. Só que baixei, descompactei e esqueci de ouvir. É, culpem essa maldita correria pós-uma-prova-pré-outra.

Daí que hoje, passeando pela minha pasta de músicas – que anda, por sinal, catastróficamente depressiva – eu trombei, de repente, com a pasta Vicky Cristina Barcelona Soundtrack“, dizendo “Oi, amiga, lembra de mim aqui?”. Confesso que não lembrava. Mas coloquei pra reproduzir. (Pausa pra respiração.)

Êxtase total. Primeiro de Dezembro, o início do fim. A noite em que vimos o filme, as minha sensações de agora, as minhas sensações anteriores, tudo se misturou dentro de mim. De repente, eu estava lá no escadão da Gazeta, Brunos ao meu lado, Tory atrás de mim, Clarinha e Francisco num canto, cabeça do Hugo no meu colo, levando cafuné. Violões ao fundo. “Barcelona”, de Giulia y Los Tellarini.

A minha angústia, mesmo com todos os amigos a minha volta, esperando a ligação dele. O olhar cansado do Bruno Mancini, que, sentado ao meu lado, dizia querer estudar mais. “Quero aprender mais.”. Contando sobre os planos de mudar de curso enquanto eu, entre uma olhada e outra no celular – que eu fingia me atrair pela hora, mas, na verdade, atraía pela ansiedade. Bruno Guerrero anunciando, especialmente pra mim, que o Ricardo Cruz se juntaria a nós. Aquele misto de empolgação e retração invadindo meu corpo enquanto eu implorava a Deus por um sinal de vida daquele que eu tanto queria ver, antes que a tentação chegasse. “Your Shining Eyes”, Biel Ballester Trio, Graci Pedro, Leo Hipaucha.

Meu celular que, definitivamente, não tocava. Todos cansados, com sono, estressados com os resultados da faculdade, que, aos poucos, estavam aparecendo: alguns com muitos exames a fazer (coloquem meu nome nessa lista), outros com nenhum. Aquela melancolia de fim de ano, o que foi ruim, o que foi bom, como todos viemos parar aqui. “Vamos para o padabar?”. Telefone tocou. Não o meu, o da Tory. Capiau vindo nos acompanhar em nossa melancolia. “El Noi De La Mare”, Muriel Anderson & Jean-Feliz Lalanne

Todos em pé, prontos para partir em direção à padaria, logo ali na Brigadeiro. Então meu telefone finalmente toca. “Estou aqui na Joaquim Eugênio de Lima. Paro o carro em frente ao Top Center, pode ser?”. Pode. Claro. Poderia qualquer coisa, já que eu não aguentava mais as saudades. Olhei na direção da banca, o carro não estava lá. Levantei-me, despedi-me de todos. “Vamos conosco ao bar!”. Não podia. Não queria. Só queria um tempinho sozinha com ele. Os amigos compreenderam. “When I Was a Boy”, Biel Ballester Trio, Graci Pedro, Leo Hipaucha.

O carro parou em frente à banca, conforme o combinado. Entrei, nos beijamos, eu e meus olhinhos brilhantes, ele e seu sorriso doce. Parecia cansado. “Posso te roubar hoje?”. “Pode”. Fomos embora, sem ir a lugar algum. “Granada”, Emilio de Benito.

Deu uma volta no quarteirão. Parou o carro, olhou para mim e me beijou. Eu estava apaixonada. Trágico ou não, eu estava entregue, qualquer um que olhasse para mim perceberia isso. Trocamos poucas palavras e muitos carinhos. Era difícil nos vermos, eu tinha de ir embora logo. A sensação era a de que não podíamos perder um segundo sequer. Desabafos entre as sessões de beijinhos. Olhares abobados de menina apaixonada. Ah, aqueles olhos, aqueles cabelos, aquele abraço. “Senti tanto sua falta…”.O tempo passava rápido ali. Mais rápido que tudo.  “Entre Olas”, Juan Serrano.

A rádio avisou que passava das onze. Deu partida no carro. Dirigiu rumo à estação mais distante, comigo ao lado, ainda aos suspiros. A cada parada, um beijinho ou um carinho nas mãos. Olhares de lado. Cafunés. Sem que ele soubesse, eu pensava em como sempre quis aquilo. Como sempre quis aqueles carinhos. Como nunca tinha me dado bem daquele jeito com ninguém. Sem que ele soubesse, eu me apaixonava cada vez mais. Mostrou-me coisas que talvez nunca façam sentido algum senão pra mim – o caminho de sua casa, os enfeites da Avenida, as pessoas na rua, tudo parecia especial. E eu só queria estar lá mais vezes com ele. Muito mais. Acho que esse foi um dos momentos em que mais me perdi dentro de mim. Em que mais me entreguei ao sentimento. O trajeto entre os carinhos e a despedida. Mas acabou. “Entre Dos Aguas”, Paco de Lucia.

Acabou. Já estávamos há tempo demais parados na vaga de descarga, na porta do metrô. Passou da hora de ir embora. Eu hesitava: quando pensava poder sair do carro, um suspiro de qualquer um dos lados me colocava de volta pra dentro, beijando aqueles lábios enquanto o mundo lá fora desmoronava. É, chovia lá fora. E não nos importava nada. Uma buzinada. Soltei-o, abri a porta e fui embora. “Te amo”, teria dito, mas preferi calar. “La Ley Del Retiro”, Giulia y Los Tellarini.

Andar nunca foi tão engraçado. Sentia-me flutuando. Minha boca ainda tinha o gosto dele e eu queria mais. Não pensava em nada além dele. Queria saber o que tínhamos, mas também não queria saber de nada. Entrei no trem, sentei-me, segui viagem pensando nos és e nos nãos da minha vida até então. Nas frustrações que havia tido, nas que ainda podia ter. “Onde você estava, que não te encontrei antes?”, mandei por sms. “Eu estava aqui o tempo todo, só você não viu…”. Retrucar com Pitty é covardia. Derreteu-me. Chovia, eu tinha de correr pra casa. Tinha de ser natural. Estava sendo. Mas aquele cheiro ainda estava em mim… “Gorrion”, Juan Serrano.

Minha parada. Desci a rampa, na chuva, correndo. Meia noite e dez. Àquela hora meu pai já deveria estar surtando no carro. Minha irmã tinha vindo com ele. Estava no banco da frente. Entrei atrás, acomodei-me. Sem que tivesse controle, saiu de mim um suspiro e um sorriso no canto dos lábios. Tainá virou para trás na hora. “Está apaixonada, Ni?”. “Não, não estou não, impressão sua. Impressão sua… Vamos logo”. “Big Brother”, The Stephane Wrembel Trio.

Os cinco minutos a caminho de casa foram tensos. Não queria que ninguém soubesse da minha paixão. Ninguém. Fiquei calada. Já em casa, corri para o quarto. Um bom banho quente, um café, e eu já estava pronta para deitar. Não para dormir. Muito para mim, se querem saber. Não sei lidar com sentimentos. Passei a noite virando de um lado para o outro na cama, como se faltasse algo lá. E faltava. Estava mais claro do que nunca. O grande problema é que parecia faltar só pra mim. Eu e minha cabeça criativa: já fantasiava não-correspondências, abandono, imaginava não ser tão querida quanto queria. Mandei mensagem. Escrevi. Desejei um cigarro, desejei a morte, chorei. Eu sou assim, cheia de altos e baixos, quentes e frios, secos e molhados de uma hora para a outra. Quando vi, passava das três da manhã. Pesaram-me minhas responsabilidades, minhas alegrias, minhas tristezas. Odiei-me por ter entregue tão rápido meu coração nas mãos dele. Odiei-o por ter parecido não querer nada além do meu corpo. Odiei as faculdades, por não estar ainda de férias. Odiei o espelho e o relógio, que me diziam que era tarde. E então, de repente, eu já não estava mais ali. Então já era outro dia. “Asturias”, Juan Quesada.

Engraçado como os dias, mesmo os mais grandiosos, são pequenos: cabem num CD.

Telefone

Eu nunca gostei de telefone. Sempre aquela chatice, aquele blablabla de “Gostaria de estar falando com o dono da casa”, ou “Sou de ong X e queria que você contribuísse com …”. Hoje foi o dia da Revista Veja. 40% de desconto para estudantes. Ligou pelo menos três vezes (não estou exagerando) me oferecendo assinatura. Não quero. Ainda mais depois do cara da primeira ligação ter despejado meu nome completo, endereço, RG e CPF, do nada, no meu ouvido. Tive foi medo.

Telefone móvel eu tenho desde os doze anos e só me servia pra exibir por aí. Eu digo servia porque, nos últimos tempos, eu tenho utilizado-o até que consideravelmente. E nem é só pra atender ligações bizarras, como a de hoje – em que, no meio do casamento do meu tio, uma mulher do Ibope resolveu que queria fazer uma pesquisa sobre baladas universitárias comigo. É claro que não: agora eu tenho pra quem ligar e mandar mensagens. (Talvez eu sempre tenha tido, não sei).

Eu só sei que hoje eu vivo em função do barulhinho desse aparelho maldito chamado celular. Não me importa se é na hora em que eu esqueço ele no sonoro e ele me avisa que é hora de morfar, com aquele beep dos Power Rangers, ou se escuto o barulho dele vibrando sobre a mesa ou dentro da bolsa. O que me importa é que ele me avise que tem mensagem. A mensagem – ai dela! – tem que vir de alguém especial para que eu fique contente.

E, pelo menos por enquanto, ela não veio. Daí eu fico aqui, deitada, olhando para o celular. Meu sorriso depende disso. Deveria ser ruim… Mas não é. Não tem nada melhor que o aperto no peito e o friozinho na barriga quando … vrrrrruuuuum! Vibrou!

Ok, vibrou mesmo. Mas dessa vez era só um sinal de Bateria Fraca. FAIL.

Sobre Heloísas, Bentinhos e Tweets desesperados

“A imaginação foi a companheira de toda a existência, viva, rápida, inquieta, alguma vez tímida e amiga de empacar, as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas, correndo.”

Dom Casmurro, Capítulo XL

Daí que, assistindo Capitu, passou pela minha cabeça de novo algo que sempre passa quando leio Machado de Assis. É, eu não sou tão Heloísa quanto espalho por aí. Quer dizer, já matei um ou outro por ciúme e tenho em minha lista mais umas duas ou três que não escaparão, mas, ah, isso é tão normal. Posso até ser, na verdade, não sei. Mas o fato é que, ciumento por ciumento, eu estou muito mais para Bentinho.

Queria ser Capitu. Com os olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Sim, aqueles olhos de ressaca. Aquele poder de mexer com um homem, de enlouquecê-lo, de fazê-lo servo. Mas eu sou Bentinho. O que consigo mesmo é me entregar, de repente. De repente, porque a situação sempre está ali por um bom tempo antes que eu a note de verdade. E aí, depois da entrega, resta criar em minha cabeça situações que podem ou não existir. Fantasiar o tempo inteiro que não sou boa o suficiente (e o que é ser boa o suficiente?), que alguém melhor vai levar o que é meu embora. E me corroer, sangrar, morrer por dentro. Sem fazer mal a ninguém, a não ser a mim mesma.

Mas nem todo mundo é assim. Minha irmã, hoje mesmo, mostrou que é muito diferente de mim. E foi dela que tirei a maior lição do dia. “Ele já disse ‘eu te amo‘ alguma vez?”, perguntou-me enquanto almoçávamos. “Sim. Quer dizer, isso foi antes de ficarmos, mas…” – nem me deixou terminar. “Se ele disse ‘eu te amo‘, acredite. Você só precisa acreditar. Não ficar inventando milhares de possibilidades ridículas dentro da sua cabeça e enchendo o saco dele” (Ela ainda complementou com um “e nem adianta me olhar com essa cara de cachorro morto, é isso e ponto!”). Tudo bem, foi um tremendo desabafo (ela tem um namorado tão Bentinho quanto eu), mas não deixa de ter razão. O grande problema é que eu não tenho controle sobre isso (a ponto de minha irmã de 12 13 anos estar me dando conselhos maduros enquanto eu, aos dezoito, às vezes choro pelos cantos por me sentir mal amada).

Não consigo não imaginar coisas, nem deixar de acreditar cegamente em cada uma delas. Não consigo parar de encontrar evidências e torná-las cada vez mais reais. É, sou convincente. Não venço meus argumentos, nunca. E aí, o que eu faço? Eu corro pro Twitter. Pro lugar mais errado possível. E eu despejo tudo lá. Minhas mágoas. Minhas obssessões. Se estou vidrada, se estou bêbada, se estou infeliz, se estou amargurada, se não sinto nada… Não importa. Eu sou realmente uma personagem. Meu livro está escrito em parágrafos de até 140 caracteres, pra qualquer um que peça permissão para me seguir. Pois é, pois é, pois é. Perdi a noção do perigo, deturpei o uso de uma ferramenta interessante e, ainda assim, sou eu, no final, a vítima da tragédia. Sei que não sou a única a fazer esse tipo de coisas, mas dói por dentro, vez por outra, quando ouço algum comentário ou crítica fervorosa a usuários compulsivos como eu. (Mentira, não me dói nada. Se não gosta de ler meus posts, não me siga – simples assim!).

“Ora, há só um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal.”

Capítulo LXVIII

No fundo, acho que seria menos feio ser Heloísa. Extravasar, gritar, esfaquear, correr atrás, enlouquecer. É, certamente. Mas eu só sei ser assim, quietinha. Cada descoberta (ou criação?) é uma nova punhalada que dou em mim mesma. Cada vez que encontro uma pista, meto-me mais pra dentro de mim. E eu não consigo (ou não quero, quem sabe?) mudar. Eu só sei ser assim, não sei dissimular nem esconder o que penso. Não tenho porque viver de meias verdades, ou dizer somente o que os outros querem ouvir.

Eu sou insuperavelmente piegas, possessiva, ciumenta, carinhosa e entregue. Mas não sou nada ingênua. Não sempre. A única coisa que me dá medo, de verdade, é essa minha mania Bentinho de me prender à minha versão da história. Sim, porque eu sinto que isso vai acabar me fazendo morrer sozinha. Não que eu tenha medo da solidão, não é isso. É só que eu acho-a desnecessária. (E que eu sonho ter alguém que, numa noite de frio, saia de debaixo do edredom, levante-se e calce em mim mais um par de meias, pra depois voltar pro quentinho da nossa cama e dormir abraçado comigo, trocando cheirinhos e um calor sem fim).

Mas o fim… Quem sabe do fim? Eu vou continuar escrevendo minha vida até o dia em que sentir que devo parar – ou até que a vida pare por mim. Bentinho ou  Heloísa, uma coisa é certa: eu me permito sentir, sem medo. E isso nem todo mundo consegue.

“Tudo acaba, leitor; é um velho truísmo, a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura muito tempo. Esta segunda parte não acha crentes fáceis, ao contrário, a idéia de que um castelo de vento dura mais que o mesmo vento de que é feito, dificilmente se despegará da cabeça, e é bom que seja assim, para que se não perca o costume daquelas construções quase eternas.”

Capítulo CXVIII

quereres

eu queria amar um pouco menos você
não ligar para eventuais sumiços ou conversas entrecortadas
não chorar cada vez que visse um beijo na tevê

eu queria amar um pouco menos você
ser do tipo que não liga quando não pode ver
do tipo que não associa cada música que ouve a um momento qualquer
– em que basta a sua presença pra memória ligar a amor

eu queria amar um pouco menos você
ter facilidade pra encarar que a verdade não vai ser sempre simples assim
que a verdade já não é simples
e que estamos distantes até quando você me abraça

eu queria amar um pouco menos você
apenas o suficiente pra saber que não é pra sempre
e que não somos iguais
nunca seremos, por mais parecidos que possamos ser.

eu até acho que queria amar um pouco menos você,
mas eu amo assim – muito. muito mesmo.
suficiente pra me arrepender dos erros que talvez nenhum de nós saibamos que existiram;
pra te perdoar daquilo que me machucou sem que você soubesse sequer que fez.

eu te amo o suficiente pra esperar o quanto for preciso,
pra sair do planeta a cada vez que sua boca toca na minha,
pra dar risada todas as vezes em que me deparo com uma placa de “Proibido Estacionar”
ou com alguma efeméride que guardei no coração só por ter me feito sorrir.

eu gosto de te amar assim, simples e intenso.
não valeria a pena amar menos você.

não. porque aí, um dia, quando tudo acabar

(tudo passa, tudo vai passar…)

quando tudo acabar eu terei muito do que lembrar
e pouca coisa que valha mesmo a pena esquecer.

creed, are you ready?