cada dia mais
ou o dia em que me apaixonei por você

um dia nos encontramos e você não vestia o terno preto e uma gravata com nó impecável. era um homem normal, uma pessoa como eu, sentada no banco ao meu lado, pedindo um pint atrás do outro e esperando que o melhor acontecesse para os dois enquanto dividíamos um com o outro nossas histórias – por vezes ridículas – de amor e a fumaça forte dos teus cigarros pretos de cereja, que, um a um, esvaziavam o maço naquela noite quente. um dia nos encontramos, você não vestia o terno preto, eu não era a bela garota das fotografias, mas a sensação imensa de amizade continuava ali e, sem querer, envoltos num carinho estranho, o que era pra ser uma despedida comum virou um beijo-convite no canto dos lábios, dizendo a verdade no ouvido dos dois. cada dia mais.
o tempo passou diferente depois disso. depois do pseudo-beijo e de todas as sensações gostosas do seu abraço. o tempo foi nosso aliado e nosso inimigo enquanto você me prometia a cura, carinho e proteção, e eu tentava lhe dar em meu coração, ingenuamente, o espaço que já tinha sido tomado por outro. os encontros deveriam ser mais frequentes, eu não esperava mais o homem de terno nem você a menina das fotografias, gostávamos um do outro exatamente pelo que éramos ali, frente a frente, nus, sem qualquer máscara, não fosse o mistério em que nos apoiávamos para conquistar um ao outro, cada dia mais. a timidez deu lugar à intimidade, seu cigarro não me incomodava mais embora eu insistisse para que você parasse de fumar. você reduziu a quantidade dos pints, eu aumentei as doses de vodca e entre promessas de carinho, desabafos, porções de batata-frita e o sonho de uma vida melhor, nos beijamos com vontade, debaixo de uma lua cheia de fim de verão.
eu nunca saberei dizer se acertei ou errei ao te beijar pela primeira vez – foi mais instinto que vontade, foi muito menos planejamento e muito mais ação – nem pela segunda, e a terceira… eu o queria cada dia mais, eu sou assim, eu quero sempre mais, e eu não aceito durante muito tempo não ter o que quero. só que você continuou sendo um mistério para mim, como se o terno preto e o nó de gravata impecável estivessem ali, invisíveis, como se você fosse alguém que eu devesse temer, e eu continuei sendo um mistério pra você, como se a bela garota das fotografias existisse mesmo e não fosse capaz de gostar unicamente de você, como se ela não estivesse disposta a abrir mão do mundinho dela para ficar com um homem que lhe prometeu apenas amor. como se amor fosse pouca coisa, quando era tudo que ela procurava. cada dia mais.
eu nunca vou saber dizer se acertei ou errei ao te beijar, ao te contar meus segredos e vulnerabilidades, ao me deixar apaixonar por você. porque depois que tudo aconteceu eu mudei, você mudou, e nós não conseguimos mais ser os mesmos. suas viagens, seu trabalho, minha insegurança, minha vulnerabilidade, sua maneira errada de fazer as interpretações certas. tudo seria o suficiente para me fazer surtar de novo e de novo. eu me decidi por você. escolhi sua companhia, escolhi ficar ao seu lado, queria lhe contar isso, queria lhe fazer feliz. e você simplesmente sumiu e me deixou aqui, sem respostas, sem ninguém, e, mais uma vez, sem esperança de que um dia alguma coisa vá se resolver em minha vida.
e eu, mais por medo que por orgulho, não fui capaz de te ligar, de descobrir o que se passava, e simplesmente lhe vi partir. eu não sei explicar o porquê, mas eu não sofri. senti medo. senti um vazio estranho, um vazio horroroso. mas eu não sofri. só desejei que tivesse sido a melhor opção para os dois. cada dia mais.
imagem via we ♥ it.
2 Responses to "cada dia mais" | Add yours »
Acho que esse é um dos textos mais legais que já li o Fantástico Mundo de Ariane!
Parabéns
2 ultimos paragrafos = minhas 2 ultimas semanas
tu escreve mto bem, gosto ;D