agosto

Eu queria te contar tantas coisas. O medo que sinto toda vez que reclino a cabeça no seu peito e sei que o seu coração perde o compasso por outra pessoa. A dor que me consome toda vez que imagino você solto por aí procurando a felicidade entre tantas mulheres quando o que mais queria era poder ser pra você o que você é pra mim, mais nada. Mais ninguém envolvido. Queria tanto te dizer que vai passar, que ainda há tempo, que meu sonho era nunca mais sair do teu abraço, abrir mão do teu beijo, deixar passar os momentos tão raros em que você se encaixa perfeitamente dentro de mim e olhar a sua carinha é a sensação mais maravilhosa de toda uma vida.
Eu não me caibo quando estou com você. O que sinto transborda e me faz menor de novo. As palavras não saem e fica complicado deixar claro que assim que você sair dali vai ser como se a felicidade não existisse de novo. Morro um pouco cada vez que você diz que me ama. Vivo tudo pra dizer que te amo. Na sua presença, emudeço e perco a linha, e as coisas perdem o sentido, e até que você vá pra longe eu só consigo sentir e sentir e sentir como se tudo tivesse sido criado pra que nós estivéssemos juntos de novo. Por quanto tempo fosse possível. Por todo o tempo do mundo.
Só que queria te contar tantas coisas…

falta

vou sentir falta de olhar a Bela Cintra de cima, as cores e o ritmo da torre piscante mudando junto com nossos assuntos, os cigarros enchendo o cinzeiro, nossos lábios esvaziando as garrafas, a senhora desconhecida organizando religiosamente seja lá o que for na guia do outro lado da rua. de pegar novas cervejas sem incomodar os outros moradores da casa, de ser guiada silenciosamente para o seu quarto, de observar sua partida de the evil within e atrapalhar tudo puxando você para nossa dança particular, de ver seu rosto mudando de formas tão expressivas que eu quase conseguia sentir as coisas junto com você. do porteiro que já me deixava entrar sem nem mesmo perguntar quem eu era ou onde iria, de dividir tardes de trabalho, desabafos, parmegianas aos quatro queijos, cochilos no sofá. das mensagens de “quer vir pra cá beber e dar um cochilo?” que só troquei com você até hoje. do seu jeito sério e reflexivo de quem acha que é capaz de controlar tudo – e, só por acreditar, acaba sendo mesmo, embora talvez enxergue as coisas de uma forma meio sua, nem sempre real, nem sempre flexível como deveria ser. (você controla tudo porque tudo é criado dentro de você – e talvez nunca conheça a verdade, pois se sente seguro assim, no seu mundo de suposições.)

vou sentir falta de suar, suar, suar, suar olhando a torre pela janela, suar te amando por horas sem parar, suar vendo qualquer besteira no Netflix, suar olhando nos seus olhos e dormindo abraçada ao seu colo. suar pelo clima estranho dessa cidade, suar pela troca de calor frequente dos nossos corpos.
vou sentir falta da história que você decidiu não valer a pena por não ser capaz de ler ou controlar o que verdadeiramente se passava dentro de mim.

vou sentir falta de nós.

uma colaboração cheia de amor

a ryane é quase que minha alma gêmea. nossos corações se parecem muito e a gente sofre junta até quando não sabe bem o que se passa com a outra. por isso, quando ela me chamou pra ilustrar textos dela, não deu pra dizer não.

e ficou lindo.

é uma sequência de cinco frames/poesias de uma parceria que não acaba nunca. abaixo, pra vocês.
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para acompanhar o trabalho da ryane, é só entrar em http://facebook.com/ondejazzseucoracao

partidas, #15

Talvez tenha sido a doçura das suas palavras. Minhas cicatrizes ardiam menos cada vez que você via valor em mim ou dizia qualquer coisa carinhosa que me fazia querer ser mais, desenhar mais, merecer mais. Quis tanto, tanto te ver. As madrugadas faziam mais sentido quando você aparecia. Você foi o sol no início do meu verão – aquela luz quente e deliciosa que torna os dias mais longos. Mas aí o destino veio e atrapalhou. Você disse ter problemas, mas na verdade já tinha encontrado a solução. E então chegou o inverno na minha vida.

O meu deslize foi entregar o meu coração antes mesmo de nos conhecermos de verdade – e vê-lo partindo com outra, com razão, com ternura, com fotografias instantâneas, declarações de amor e, sobretudo, com todos os sonhos que construí em segredo e nunca tive oportunidade de compartilhar.

Você acha que é peça sem encaixe, mas na verdade é a figurinha premiada. É raro e muita gente acaba desistindo de encontrar. Só que a vida não é álbum que se completa assim tão simples. Às vezes a mesma peça se encaixa em vários jogos. A vida faz de nós, seres inconstantes, um pouco mais infelizes que o normal. Não existe paz quando se sabe que a qualquer momento tudo vai mudar. Mas não precisa ser assim. Podemos lidar com essas mudanças sem nos culparmos por elas.

Isso não nos torna menos brilhantes ou raros. Ponto.

Se eu contasse, você não acreditaria – eu bem que tentei. Mas não me importa mais o fato de que você não vai saber nunca. Assim como eu não sei por que me dói tanto essa partida – já estou tão acostumada a ser ferida aberta. E quer saber? O meu desejo é verdadeiro. Quero que os sorrisos de vocês se multipliquem. Que as nuvens estejam além dos retratos. Que haja ainda mais amor.

Quanto a mim, já aprendi que vim ao mundo pra assistir o amor acontecer – e lavar com lágrimas as feridas que ele me causa.

partidas, #14

Eu soube quando trocamos as primeiras palavras que não era real. Toda a sua empolgação, sua efusividade. Eu já tinha visto esse filme algumas vezes. Mas a carência tem me guiado a ruínas maiores nos últimos dias, e eu estava lá, às seis horas em ponto daquela tarde chuvosa, sentada sozinha no bar recém-aberto.

Você entrou tímido, diferente daquele rapaz de muitas palavras que conheci. Sentou-se à minha frente, encolhido atrás da mesa. Escondeu-se atrás dos chopes que tomava tranquilo, enquanto eu engolia rapidamente um atrás do outro, até que o assunto se esvaísse. Não porque não quiséssemos conversar, mas porque queríamos mais. Eu queria, pelo menos. E me divertia vê-lo tremendo, suando, perdendo as palavras. É sempre engraçado quando a timidez de alguém é maior que a minha.

“Tem muita gente aqui”, você disse, “eu me sinto observado. Não consigo”. Então pagamos a conta e fomos para a rua. Apesar de ser uma tarde de verão, o dia estava frio e coroado por uma garoinha fina e gelada, o que nos levou a entrar em outro bar – mais cheio – e sentar lado a lado, bem apertadinhos, olhando para a pintura de um Morissey meio disforme.

Nessa hora eu já não esperava que mais nada acontecesse. Minhas mãos percorriam sua tatuagem e eu tentava pensar nas coisas que faria ao chegar em casa sozinha. Eu olhava para você e enxergava pinturas, flores, cenas que não estavam ali, mas dentro de mim. Eu sentia o seu cheiro e sabia que estava encantada, sabia que nunca mais nos veríamos depois disso e que dessa vez, por mais simples que fosse, iria doer. Doeria a falta das indicações de bons discos no meio da tarde, das divagações suas sobre caminhar sozinho nas noites escuras, da empolgação que você tinha até com as coisas mais simples.

Então você me beijou.

Depois de tanto eu perguntar o que lhe afligia e tentar romper o silêncio desconfortável da sua angústia, você me beijou. E foi doce, lento, foi muito bom. Possivelmente um dos melhores beijos que recebi esse ano.

Foi também a sua confissão: eu tive a certeza naquela hora – não era a minha imaginação pregando peças, não era a insegurança me boicotando – você tinha voltado atrás. Tudo o que você disse sobre estarmos juntos realmente não fazia mais sentido. Você repetia frases feitas sobre estar muito ferido desde o último relacionamento, sobre ter medo de se ferir de novo, sobre estar confuso demais. “O problema não é você, sou eu”, você disse.

“O problema sou eu sim”, respondi, “e não há problema algum. Todos nós temos feridas e todos nós temos medo de nos machucar de novo. Mas, quando nos interessamos de verdade por alguém, a vontade de correr o risco é maior que o medo. Quando não estamos interessados, o medo surge como muleta. É nossa forma de fugir sem ferir ninguém”.

E até tentamos fingir que ficaria tudo bem, que nossa companhia bastava para que as coisas se acertassem, mas eu só voltei a sorrir assim que decidi que era hora de você partir.

partidas, #1

cansei de negar a ideia de que amor é um jogo e aceitei me entregar, uma partida atrás da outra. respirando a poeira dessa cidade que todos chamam de cinza, vejo cores por todos os cantos – muitos encantos que ninguém diz. tento traçar rotas de fuga e me espanto, há trânsito de ponto a ponto. e ainda assim sou feliz.

evito as reprimendas após um beijo roubado no portão, divido um café e cigarros, esquento a cama, ouço samba de raiz ao vivo, caminho de mãos dadas sob as árvores, sonho correr os dedos pelo seu rosto e me reclinar pra sentir a sua barba. cada um me proporciona algo único. ainda assim, durmo e acordo só todos os dias.

as flores estão lá, o sol está lá, escolho um vestido atrás do outro, afino a cintura, escondo com corretivo e pó as olheiras. decido a cor do batom de acordo com meu humor. entro e saio de táxis gastando o dinheiro que não tenho para evitar uma morte que provavelmente não aconteceria. e aceito o convite para os jogos sem medo.

eu quero tudo e não quero nada. quero conhecer os sabores dessa vida. e, enquanto puder, quero registrar cada partida. porque o amor é isso: uma jogada atrás da outra, vitórias e derrotas, idas e vindas. é sempre uma nova partida de um jogo que se propõe diferente mas nasceu dos mesmos desejos. também acaba sempre em partidas – doces, amargas, leves, pesadas. sempre alguém vai embora deixando um pedaço de história pra marcar minha vida.

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“partidas” é uma série de tirinhas que retratam as idas e vindas – platônicas ou não – da minha vida. uma maneira de eternizar e valorizar as cicatrizes que coleciono com tanto afinco.

registro

É chato quando a gente sente coisas muito boas mas não tem como registrar numa foto. Quando uma música, uma poesia ou um texto talvez façam o trabalho por nós – mas não se encaixam nas circunstâncias. É chato porque em alguns momentos parece que nosso corpo pede “avisa, avisa que está sentindo isso! que é bom! que você não quer parar!” – mas a gente se perde tentando encontrar a palavra ou o gesto certo, e o momento passa.

Passa mas não permite que você o esqueça. Você pode facilmente se livrar de objetos, musicas, poemas, textos, fotografias. De lugares. Mas não é tão simples se livrar da sensação. Das memórias.

O que é bom fica ali, pra sempre – começa doce, em algum momento vira dor e, quando você menos espera, é só uma pintura opaca nas paredes da memória. Uma música baixinha, ecoando em vão. Cenas de um filme que provavelmente não terminou bem.

Nós

Não devia me importar com isso, mas as vezes fico pensando no que você diz de mim para os outros. Até hoje você não me contou os meus defeitos, não me disse o que te fez desistir de mim, mas sei que espalha isso por aí. Talvez para os meus amigos, aqueles que eu te apresentei. Ou os poucos que já tínhamos em comum.

Sei que a cada mulher nova que conhece, apresenta a tal vilã anterior. Eu sei porque eu lembro como foi quando nos conhecemos. Lembro o quanto você falou dela. E de algumas outras. Naquela época nós éramos tão francos um com o outro que eu nem imaginava que talvez você nunca tivesse reclamado nada disso com elas. Que tudo o que você dizia a respeito da ex ela talvez nunca saiba que você sentiu.

Hoje sei como você é. Sei que coragem não é o seu forte, sei que não enfrenta nem as próprias decisões – e que, entre fazer uma coisa funcionar e desistir, você opta pelo segundo, porque é mais simples do que olhar nos olhos de alguém e dizer a verdade.
Às vezes eu me pego pensando no que você diz de mim para as pessoas e me sinto culpada de só ter elogios a seu respeito. Porque era tudo mentira, toda a sua gentileza. Era apenas medo de enfrentar a realidade.

E eu não posso amar uma mentira, por isso foi tão fácil abrir não daquilo que por quase um mês me consumiu. Quando finalmente enxerguei que foi tudo encenação, por mais que tenha doído, isso me salvou. Me salvou de continuar querendo ser perdoada por um crime que não cometi sozinha. As coisas não se desfizeram por minha causa. Elas simplesmente não eram reais. E embora tenha perdido o chão ao notar isso, percebo que fui salva.

Eu sinto falta de momentos que vivemos e sei que não terei com mais ninguém, porque eu te amei de verdade. Porque ninguém é igual e novas emoções são vividas de outras formas. Mas eu não sinto falta da angústia de nunca saber se você estava feliz ou não, de te enxergar insatisfeito e só ouvir mentiras ao tentar acertar as coisas, de implorar para que você me dissesse o que estava havendo e só ouvir “Eu te amo, está tudo bem” em troca, até o dia em que você resolveu gentilmente me apagar da sua vida sem conversar e me mandar um “infelizmente não consigo mais dizer que te amo” por SMS. Eu não sinto falta de ter sido tratada como um peso. E eu tenho medo do que você conta de mim por aí. Porque é tudo que eu queria saber e você sempre se negou a me dizer.

Eu quero ser uma pessoa melhor. Não por você, por mim. E mesmo sem querer me ajudar, você me fez dar um grande passo quando me deixou para trás.

Espero que você seja mais gentil com a próxima pessoa que passar na sua vida. Que saiba usar “eu te amo” com parcimônia e que realmente se importe com ela. Que olhe nos olhos e diga a verdade. E espero tudo isso não por você, você nem merece essa compaixão. Mas por ela.

La Seine

Há um ano eu sentei na beira do Sena apenas pra ficar observando o rio. Só para passar o tempo depois de uma visita à Pont des Arts. Naquele dia, depois de ver casais prendendo cadeados na ponte e jurando amor eterno, quando finalmente achei que fosse me sentir menos sozinha, um casal sentou-se no banco à minha frente e começou a trocar carinhos.

Eu achei aquilo lindo. Quase senti o amor dos dois. Queria capturar numa foto e levar pra casa, mas jamais aconteceria. E a sensação foi também de que nunca viveria algo parecido: recíproco.

Pouco depois que voltei pra São Paulo, acabei conhecendo alguém. E, a princípio, as coisas aconteceram de forma recíproca. Foi talvez a fase mais feliz da minha vida (talvez porque eu não sei o que virá depois, mas certamente é a melhor dentre o que já passou). Eu me sentia feliz, amada. Tinha um propósito para sair do casulo. Como qualquer coisa na vida, acabou. Antes do que eu gostaria, diferente de como eu esperava.

Mas sempre penso naquele casal, em como achei que nunca teria aquilo e tive tão rapidamente, em como foi realmente bom. E aí lembro também que nada é irremediável: existem vários corações por aí esperando uma chance de viver momentos assim, que valham a pena. E, quando acabar, se acabar, assim que a ferida cicatrizar, ficam as memórias boas pra gente visitar e sorrir de novo. Nada dura pra sempre: nem aquela dor que parece não ter remédio algum. 🙂

É isso que me faz levantar todos os dias e olhar pra frente.