falta

vou sentir falta de olhar a Bela Cintra de cima, as cores e o ritmo da torre piscante mudando junto com nossos assuntos, os cigarros enchendo o cinzeiro, nossos lábios esvaziando as garrafas, a senhora desconhecida organizando religiosamente seja lá o que for na guia do outro lado da rua. de pegar novas cervejas sem incomodar os outros moradores da casa, de ser guiada silenciosamente para o seu quarto, de observar sua partida de the evil within e atrapalhar tudo puxando você para nossa dança particular, de ver seu rosto mudando de formas tão expressivas que eu quase conseguia sentir as coisas junto com você. do porteiro que já me deixava entrar sem nem mesmo perguntar quem eu era ou onde iria, de dividir tardes de trabalho, desabafos, parmegianas aos quatro queijos, cochilos no sofá. das mensagens de “quer vir pra cá beber e dar um cochilo?” que só troquei com você até hoje. do seu jeito sério e reflexivo de quem acha que é capaz de controlar tudo – e, só por acreditar, acaba sendo mesmo, embora talvez enxergue as coisas de uma forma meio sua, nem sempre real, nem sempre flexível como deveria ser. (você controla tudo porque tudo é criado dentro de você – e talvez nunca conheça a verdade, pois se sente seguro assim, no seu mundo de suposições.)

vou sentir falta de suar, suar, suar, suar olhando a torre pela janela, suar te amando por horas sem parar, suar vendo qualquer besteira no Netflix, suar olhando nos seus olhos e dormindo abraçada ao seu colo. suar pelo clima estranho dessa cidade, suar pela troca de calor frequente dos nossos corpos.
vou sentir falta da história que você decidiu não valer a pena por não ser capaz de ler ou controlar o que verdadeiramente se passava dentro de mim.

vou sentir falta de nós.