quase a sexta santa

Quando ele desceu do táxi e o motorista pisou fundo rumo à Radial, meus olhos visitaram a lombada de um livro e mais um desejo nasceu. Sou boa nessa coisa de querer, pensei, mas não muito em se tratando de colocar as coisas em prática. Tenho desejos e mais desejos acumulados, alguns que vivo e descubro não terem graça alguma, outros que não chego a realizar porque paro no meio do caminho. Nada pessoal: apenas acho que não sou boa o suficiente. Mas o que será que torna as pessoas suficientemente boas?

Sentindo o vento nos cabelos, penso em acender um cigarro e hesito ao lembrar que não estou no meu carro. Eles vão continuar amassados na carteira e terei que lidar com a dor de cabeça da abstinência.

Em outros tempos, o desejo não era problema para mim. Sabia controlar as vontades, canalizar tudo na escrita, na música. Depois veio o desenho. Hoje nenhuma palavra sai: somos eu, a página em branco e o corpo pedindo o cheiro, o toque e a violência equilibrada do encontro com outro alguém. Às vezes acho que o amo, às vezes me ocorre que talvez ele tenha vindo apenas cobrir um vão da minha existência e aplacar a carência que havia em mim. Eu nunca sei muito bem se sorrio ou se calo enquanto ele me olha nos olhos e diz que me ama. Criei uma dependência nada saudável desta relação. Tudo faz com que eu queira os lábios quentes dele tocando os meus. Meu coração diz não, minha alma diz que há algo de errado, mas eu só consigo olhar para ele e querer mais um beijo, mais um minuto ao seu lado, mais, mais, mais. A ausência me desespera. Eu só sei querer – querer que nada mude, que sempre haja a chama do início, querer mais. Querer, quere, querer.

O taxista interrompe minha digressão para me alertar sobre um motorista ziguezagueando na Radial: “Desgraçado não morre sozinho. Leva a vida da gente junto”. Concordo meio sem enxergar o que acontece. Os óculos ficaram em casa, a dor de cabeça pesa as pálpebras e a vontade verdadeira é de fugir, de um canto só meu, dormir e acordar acariciando aquela barba ruiva que tem meu cheiro favorito, pintar novos desenhos, os livros todos que sonhei e cada dia tenho mais certeza que nunca vou publicar.

É bom morar longe, eu diria, e melhor ainda atravessar a cidade a essa hora da noite. Não há quase carros nas ruas, não há quase gente acordada. A Augusta que acabei de abandonar continua fervendo e o meu bairro já está adormecido – tem algo de lindo nesses contrastes, algo que nem o taxímetro rodando furioso consegue apagar.

“É pra pegar sentido a Toco?”
“Não. Pode atravessar e subir a Olivetanos.”

Um motoqueiro fica me encarando – por um segundo me assusto. Vivo dizendo que quero morrer, mas quando a possibilidade se aproxima, o único desejo é que tudo passe. Querer é muito mais fácil quando a gente sabe que conseguir não depende de nós.

“Pode subir?”
“Pode sim.”

Parado no farol, um pedestre palita os dentes sem cerimônia, a boca escancarada, o barulhinho da saliva nos dentes. Em algum dos bares ainda acesos, Elis Regina canta “você me pergunta sobre a minha paixão…”. Relembro o espetáculo que assisti há alguns dias. Me identifiquei tanto com Elis. Tanto quanto com Maysa. E não acho que isso seja saudável. Não é. Mas me lembro. O celular vibra: “Já estou em casa :)”, diz a mensagem no visor. Eu sei, meu amor. Mas o que eu mais queria, dentre todas as outras coisas, era que você estivesse aqui.

E olha que querer é a minha especialidade.

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