anie

ela tinha cabelos negros e curtos e mais tatuagens do que pude contar na pele incrivelmente branca. na mesa, um amigo amparava suas mãos e uma amiga de muito bom humor pedia os chopes. conforme a quantidade de garrafas vazias da minha bancada ia aumentando, o impulso de levantar e puxar assunto parecia maior. meus companheiros estimulavam. o álcool já estava embaralhando minha vista quando finalmente sentei ao lado dela.

anie, era seu nome. de perto, notei que os dois amigos que a acompanhavam não mediam esforços para deixá-la à vontade. a razão foi revelada logo, por ela mesma. como tantos de nós, anie terminara um relacionamento que não conseguia superar nem mergulhando naquelas doses imensas de cerveja. envolta em filosofia, talvez não aceitasse que certas coisas jamais seremos capazes de compreender. mas eu, contando minhas derrotas, conseguia fazê-la sorrir, e esse era meu combustível. não a minha conversa fiada de quem já notou que não tem chance, nem os olhares lançados pelos rapazes das outras mesas, motivando um bote que não existiria. o sorriso de anie.

porque eu já fui anie também. já afoguei amores fracassados em imensos pints e em drinques coloridos. ali, sentada ao lado dela, conseguia enxergar passado e presente conversando feito comadres sobre que destino me dariam agora. a gente sofre nas mãos da vida: amar é cruel, anie. sampa é cruel. viver é cruel também – mas não mais do que a gente. a gente se permite ser cruel demais toda vez que olha pra dentro e fica tentando encontrar motivos pra consertar o que já se perdeu.

espero que você seja brava o bastante para perceber isso logo.

deixar ir é um favor que a gente se faz.

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