não escolhi esperar

por muito tempo foi sobre esperar. não esperar algo objetivo, nunca houve objetivo. nunca existiu promessa alguma – mas continuava a esperar que de alguma forma a vida surpreendesse, os sentimentos mudassem, as coisas se encaminhassem como eu gostaria. esperar, esperar, esperar: esperar ser olhada com outros olhos ou viver aquela cena clichê de filme. esperar milagres, esperar que meus olhos fossem arrancados e emprestados para que você visse as coisas como eu vejo, como se isso pudesse resolver.

esperei com a paciência pregada por líderes religiosos, com a fé pura feito a de uma criança, com o clamor de um devoto que morre acreditando que bastam promessas a seu santo para que os problemas acabem e os desejos sejam realizados. esperei por você. sempre, cegamente, sem hesitar, eu esperei – acreditando ser essa minha virtude, meu superpoder.

até que um dia, por um brevíssimo intervalo de tempo, minha alma se desprendeu do corpo e perdeu o prumo ao me avistar de fora: um quase cadáver pálido, perdido dentro dos próprios pensamentos, fincado no chão, criando raízes em terra seca. nenhuma perspectiva de vida. esperando, esperando, esperando. murchando, secando e sorrindo cada vez que seu objeto de adoração lhe arrancava um pouco mais da vida dando em troca apenas mais tempo de espera.

quando a alma voltou ao seu devido lugar, finalmente acordei. não foi fácil abrir os olhos ressecados, colados, condicionados a enxergar esperança nas coisas erradas. mas aconteceu. dolorosamente, pedacinho por pedacinho, as raízes foram arrancadas do chão, os pés saíram do lugar. e eu caminhei. nem para trás, nem para os lados: para frente. desviando das minhas armadilhas. rumo a qualquer coisa de diferente, verdadeira, imediata. eu esperei, esperei, esperei e precisei sair de mim pra perceber que a felicidade nunca apareceria ali, comigo encoberta pela minha obsessão. demorei muito para descobrir que felicidade é poder sentir o que quer que seja, bom ou ruim. porque não há nada melhor do que a consciência de que estamos vivos, respirando, sangrando ou não, com ou sem novas cicatrizes.

desde então, não te espero mais. e é sempre bom quando você vem – algumas coisas não vão mudar – mas é melhor ainda quando eu vou. pra onde quer que seja, com quem quer que seja, desde que seja leve. desde que eu não finque novamente os pés no chão infértil das expectativas e crie raízes no deserto das falsas esperanças. desde que eu não murche por tanto querer algo que eu nem sei o que é – algo que sequer existe – sempre será bom.

e esperei, e de tanto esperar acabei criando certa rigidez: mas não precisa ser assim. não vai ser assim. se é pra me destruir, que seja queimando. caminhando em terrenos improváveis, perdendo pedaços em aventuras imprecisas. porque esperar não me leva a lugar algum – e eu quero estar em todo canto. pra quê criar raízes até apodrecer quando posso queimar até virar poeira, espalhada no vento, leve, sem rumo… até desaparecer?

e quem quiser, que queime comigo.

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