acontece

quando você apareceu eu estava cética. resisti a cada gesto de carinho porque dentro de mim tudo dizia “uma pessoa nunca gostaria de você assim, de primeira” e a minha proteção ia ficando mais rígida, como se não devesse me machucar nunca mais.

o que ganhava com isso? nada. nem eu, nem você – que continuava seu ritual de atenção como nunca antes eu tinha recebido. eu olhava pra tudo um pouco assustada e pensava “isso nunca vai dar certo”. porque quando a gente sofre muito, meu amor, acaba perdendo um pouco a fé.

só que não parava para avaliar os porquês, apenas ia criando uma camada fina e rígida entre mim e o mundo. entre tudo que sentia vontade de fazer ou sentir. às vezes a apatia impede a gente de se entregar. nunca isso, nunca aquilo, nunca. e quanto mais você parecia valer a pena, mais eu inventava desculpas pra não me desprender do passado. pra não enxergar.

um dia, você sorriu e disse algo doce a respeito da forma como me via. eu, sob o efeito de algumas taças a mais, não consegui me forçar a usar o escudo dos nuncas. era apenas eu mesma, ali, sem camada nenhuma, e fui verdadeira como não havia sido ainda.

você soube que sim, podia continuar. parece que nunca desistiu, por pior que eu fosse. cada vez que reparava nisso, sentia minhas estruturas tremendo com mais força. dias depois, quando soube das minhas próprias palavras – que o excesso de álcool apagou da memória no dia seguinte – e vi o sorriso no seu rosto ao falar delas, decidi de uma vez por todas: chega de nuncas na minha vida.

e, desde então, sigo fazendo o que meu coração manda. porque ele manda, você e eu sabemos. e tolice é não obedecer achando que assim estamos protegendo alguém, querido.

quando tem que ser, ninguém sai ileso. é por isso que é tão bom. se for pra ser, que seja por inteiro. pra você, por você, com você: sem mais nuncas pra colecionar. daqui é até o fim, enquanto durar – muito ou pouco, tanto faz.

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