onde jazz meu coração

eu posso pensar em
desistir
desligar
perder a fé
mas, em algum lugar,
dentro ou fora de mim
sempre haverá você
uma mensagem
um texto
um poema
uma cerveja e alguns minutos de ruína
uma ressaca e alguns minutos de verdade
um poema tatuado nas costas
no peito
nas entranhas

sempre há você
pra falar e
ouvir minhas faltas
e me fazer seguir,
e errar,
e não hesitar

all the way.

nós, dois corações putos
mandões, perdidamente
apaixonados
atordoados
ligados

sustentando corpos e copos
e gatos e casos,
num acúmulo de palavras
e lágrimas
e sangue
e poeira de todos os cantis

nós que quase não nos vemos
quase não ouvimos nossas vozes
ou erguemos nossos copos sagrados
numa mesma mesa
nós, que buscamos a solidão
mesmo que inconsciente

estamos aqui
mais próximas que se
sob o mesmo teto.

unidas pela dor,
o trago, o trato
com a vida

e eu vou continuar me entregando,
e falhando, e escrevendo
enquanto te vejo se entregar,
falhar, escrever

e vamos trocar mensagens
e histórias, e cartas
e devaneios com personagens de séries de TV.

talvez nunca nos digamos “eu te amo”,
mas o que nós temos…
vale muito mais do que
qualquer palavra que possamos dizer.

é você.

acontece

quando você apareceu eu estava cética. resisti a cada gesto de carinho porque dentro de mim tudo dizia “uma pessoa nunca gostaria de você assim, de primeira” e a minha proteção ia ficando mais rígida, como se não devesse me machucar nunca mais.

o que ganhava com isso? nada. nem eu, nem você – que continuava seu ritual de atenção como nunca antes eu tinha recebido. eu olhava pra tudo um pouco assustada e pensava “isso nunca vai dar certo”. porque quando a gente sofre muito, meu amor, acaba perdendo um pouco a fé.

só que não parava para avaliar os porquês, apenas ia criando uma camada fina e rígida entre mim e o mundo. entre tudo que sentia vontade de fazer ou sentir. às vezes a apatia impede a gente de se entregar. nunca isso, nunca aquilo, nunca. e quanto mais você parecia valer a pena, mais eu inventava desculpas pra não me desprender do passado. pra não enxergar.

um dia, você sorriu e disse algo doce a respeito da forma como me via. eu, sob o efeito de algumas taças a mais, não consegui me forçar a usar o escudo dos nuncas. era apenas eu mesma, ali, sem camada nenhuma, e fui verdadeira como não havia sido ainda.

você soube que sim, podia continuar. parece que nunca desistiu, por pior que eu fosse. cada vez que reparava nisso, sentia minhas estruturas tremendo com mais força. dias depois, quando soube das minhas próprias palavras – que o excesso de álcool apagou da memória no dia seguinte – e vi o sorriso no seu rosto ao falar delas, decidi de uma vez por todas: chega de nuncas na minha vida.

e, desde então, sigo fazendo o que meu coração manda. porque ele manda, você e eu sabemos. e tolice é não obedecer achando que assim estamos protegendo alguém, querido.

quando tem que ser, ninguém sai ileso. é por isso que é tão bom. se for pra ser, que seja por inteiro. pra você, por você, com você: sem mais nuncas pra colecionar. daqui é até o fim, enquanto durar – muito ou pouco, tanto faz.

acumuladora

todos os dias acordo esperando que você tenha saído de mim. sumido. espero acordar ilesa, mas isso não existe. cada ruína é uma nova tatuagem. é adrenalina. prazer. orgulho… e então cicatriz. a dor passa, a coceira some, a ferida fecha. mas a marca tá sempre ali: estampada pra você, eu e todo mundo que a gente conhece – pra não deixar ninguém esquecer. a gente acostuma a viver com ela como se sempre tivesse existido. mas as vezes se olha no espelho, lembra de antes de tê-la feito e simplesmente não se reconhece.

sou acumuladora de cicatrizes. cada uma delas me torna diferente de todos. cada uma delas me torna igual a todos. cada cicatriz me aproxima de um passado que um dia talvez queira esquecer.

e eu não me arrependo de nenhuma delas, ainda assim.

Calmaria

de tanto se querer em descompasso a gente se perdeu um do outro – você provavelmente comemorou logo de cara, eu sofri um bocado antes de descobrir que só precisava disso: abrir mão do querer tolo, abrir mão da fragilidade e abraçar essa incerteza muito mais leve.

a gente se quis em descompasso e a tormenta me consumia numa espécie de castigo por aceitar tudo de uma forma tão simples: a vida tentava me dizer que era tudo masoquismo, que era tudo loucura, que a negação, a cautela, os astros e todo o meu desejo de consumir sua alma não faziam sentido algum. a vida tentava mostrar desde o começo, mas demorei a abrir os olhos porque simplesmente achava que não saberia lidar com a verdade, com a distância, com o silêncio.

mas aprendi. sim, eu aprendi a lidar com o silêncio quando descobri que assim – e só assim – ele me deixaria em paz. e agora não me importa o que você quer, porque eu simplesmente não quero mais.

ironia: a gente se quis em descompasso, não funcionou. e hoje, com expectativas alinhadas, finalmente posso dizer que estou feliz. a gente simplesmente não se quer: e basta a consciência disso para que a vida volte a se inundar da calmaria de uma praia sem ondas, sem ressaca. apenas o barulho do mar contra a areia e o sol nascendo e se pondo lá atrás enquanto observo a tudo sem deixar de sorrir.

bilhete

felicidade,

passei muito tempo me culpando pelos nossos desencontros.

a verdade é que sonhar com você sempre foi o que me manteve nos trilhos, o que alimentou minha esperança. até quando eu era pessimista ou não fazia ideia do rumo que as coisas tomariam, de alguma forma meu inconsciente dizia que nos encontraríamos no final, para uma última rodada.

e eu me culpei pela sua ausência, chorei e estraguei músicas, poemas, livros, fotografias minhas e alheias, cenários da cidade.

tudo porque nunca me senti tão viva como nesses momentos em que você se aproximou e me pegou pelas mãos.

e talvez eu não tenha demonstrado gratidão suficiente – mas a verdade é que essa relação só é incrível exatamente por isso: porque nunca sei quando você vem.

sua,

a.

no singular

começa devagar. uma, duas, dez coisas em comum. então o toque, uma espécie de permissão. vá em frente! e o beijo. o momento em que descubro se essa será minha próxima ruína ou não.

quando tudo parece tranquilo é como se não fizesse sentido. como se fosse amar pela metade. não, meu doce, eu vim aqui pra me entregar por completo. não quero a sorte de um amor tranquilo – eu só sei viver me rasgando, sangrando, entrando em choque com você, depois comigo, depois com o que quer que eu sinta.

sou intensa demais pra um amor que vem aos pedaços, fatia por fatia. eu quero o bolo inteiro.

começa devagar: e você se achega, e é bom. mas eu sei que ao primeiro sinal de qualquer ruína se aproximando em outra direção, eu parto. e nós seremos (de novo?) apenas história.

explodo

é como se eu tivesse tanto amor guardado no peito
que oferecê-lo a todos não seria suficiente
para evitar que qualquer coisa se rompa.

ainda assim
enquanto ele dói
e transborda
e sofre por ter muito e não saber o que fazer
também se nega a oferecer esse amor a qualquer um –

é tanto, para tão poucos.

talvez lesione,
sangre,
não cicatrize.
talvez não chegue a fazer muita diferença por aí,
não importa.

eu só quero amar, meu doce.
não espero sair ilesa.

vou explodir, decerto
um coração pequeno demais para tanto amor –
pulsando, transbordando,
de olhos fechados
e braços abertos

em direção a corações ocupados demais para recebê-lo.

desenhando

euzinha, ariana larga-tudo, estava passeando pelo pinterest e descobri o 30-day drawing challenge. funciona como todos os outros desafios dessa internet: uma coisa por dia, etc. e decidi participar, just because. até quando? só saberemos no futuro. hehe.

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vamos lá. dia 1: euzinha, em toda minha plenitude.
IMG_9017-1.

sabe de uma coisa?

toda vez que eu bebo um pouco e acabo falando sobre nós com alguém, me sinto extremamente culpada depois. ao mesmo tempo, eu vejo o quanto cresci, o quanto tudo me fez e faz bem. mas é horrível. era pra ser tudo só nosso. segredo. era pra eu parar de pensar e falar em você. tocar a vida.

e toda vez que eu penso que o barco partiu, isso tudo volta do mais absoluto nada pra me assombrar. pra me lembrar que os planos foram muito além do que devêssemos falar.

sabe de uma coisa?

isso de masoquismo é verdade. acho que eu busco sofrer quando as coisas começam a caminhar bem.