Dezenove semanas depois

outro dia você me ligou. eu sei que era você por causa do número do identificador de chamadas, e sei que era comigo porque pude te ouvir respirar do outro lado enquanto eu repetia pausadamente: “alô? alô?”. depois fiquei em silêncio e conseguia te ouvir na outra linha como se você ainda ocupasse o espaço agora vazio do meu colchão enorme. na cama, eu respirava baixinho e você se esforçava para evitar fazer ruídos, mas não podia impedir o inspirar pesado e ofegante que recusava tratar no médico. ouvindo assim, ao telefone, era como se você estivesse aqui de novo. então insisti. “alô?”. mas você não disse nada. inquieta, desliguei. pensei que fosse chorar, mas tudo que senti foi um aperto enorme no peito e um imenso vazio. uma dor de quem recebeu uma facada e pra quê? pra entender que finalmente não existia mais “nós dois”.

na primeira vez que vi pulp fiction, ainda guria de tudo, aquele discurso da mia wallace sobre os silêncios desconfortáveis me fisgou de uma forma muito singular porque sempre senti isso. sempre tive dificuldade de conversar com outras pessoas. a minha meta, desde o princípio, era encontrar a companhia certa para compartilhar os silêncios. e demorou – diria que pelo menos dez anos – mas um dia você apareceu. e funcionou. ou pelo menos eu achava que sim.

meu celular começou a vibrar de novo. pela primeira vez desde que você partiu, finalmente entendi que não, nossos silêncios não voltariam a ser confortáveis nunca mais. nada mudou, mas tudo mudou. não somos os mesmos. não nos relacionamos da mesma forma. e então, enquanto o aparelho vibrava ao meu lado na cama, eu chorei. o aperto aumentando, as lágrimas mais frequentes, o soluço. o celular parou, eu continuei. esvaziei.

e assim que a tempestade interna passou, levantei da cama. lavei o rosto e passei alguns minutos olhando para o espelho tentando decifrar o indizível. o que me tornei? o que mudou? descobri apenas o óbvio: ainda te amo, te amo sem medida. mas somos feitos de erros incompatíveis, e nem só de amor se mantém uma relação.

desde então, nunca, nunca mais chorei por você.

mas sinto sua falta todos os dias.

5 comentários em “Dezenove semanas depois”

  1. Tava pensando em mil respostas p/ colocar aqui, porque eu simplesmente TINHA que comentar esse texto que me cativou em tantos sentidos. Eu tenho essa mesma relação com o discurso da Mia… Não sei me relacionar com a maioria das pessoas e pensar que existe esse tipo de conexão que dispensa palavras, é reconfortante. Me faz acreditar que talvez eu consiga encontrar isso p/ mim.
    Obrigada. Eu precisava ler isso hoje.
    Beijos

  2. na hora em que você se pega chorando ouvindo Djavan, entende que algumas coisas se encaixam no peito e que amor de verdade é uma parada que nunca morre – mas saber amar tbem eh saber deixar alguém te amar. força gordinha :~

  3. Caí aqui por acaso – links de links de links, sabecomé – e tô revirando os aquivos do seu blog sem conseguir parar de ler. É incrível, garota, tudo o que você escreve. Ainda mais esse texto, anda mais esse filme, ainda mais esse diálogo. Me fez bem, obrigada. 🙂

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