augusta, de novo

Confesso que nem lembro se ainda era noite ou se a madrugada já havia começado: lembro de você, pequeno e delicado, me abraçando após anos de desencontros; lembro do seu cabelo penteadinho e da sua jaqueta de couro tão opostos e ao mesmo tempo tão graciosos juntos. O bar lotado, o que sempre me causa desconforto, as mesas lotadas de cervejas e conhecidos que eu sinceramente preferia não ter encontrado – mas que não podia evitar agora.

Lembro também de já ter tomado algumas caipirinhas e não estar assim tão tranquila quanto a terminar o drink que carregava na mão esquerda – a força do fígado não é a mesma de alguns anos atrás. Mas eu persistia, porque é isso que me mantém fora de casa. Cada gole é uma dose nova de tolerância. Não que essas pessoas mereçam toda essa minha revolta. Eu é que simplesmente não me sinto bem com elas em volta. Funciono melhor sozinha, é só isso.

Pensava no amor que deixei esperando do outro lado do computador, do outro lado do celular, o amor de mentira que eu cegamente alimentava todos os dias como se em algum momento tudo o que nos prometíamos, todas as expectativas que eu criava, pudessem se tornar reais. Um amor que não era nada além de fantasia minha, uma projeção inconsequente que eu insistia em alimentar. Alguém que não se importava. E você me chamou num canto, abraçou de novo e disse que lia tudo aquilo que eu escrevia. Há anos. Todos os desabafos, a alma transbordada, as histórias sem fim – e sem começo, ou sem meio. “Eu leio tudo”, você disse, “sou apaixonado por suas palavras. Sou apaixonado por você”.

Achei assustador. Não pelo álcool que havia ingerido até então, mas porque não estou acostumada mesmo com essas coisas. Com esse tipo de intimidade. Imaginei que estivesse caçoando de mim. É possível que sim.

Então, mais tarde, na mesa, enquanto eu olhava a caipirinha moderna com um picolé derretendo dentro concentrada em como tomar tudo sem fazer uma meleca enorme, você disse de novo. “Sou apaixonado por você”.

Fiquei me perguntando de onde vinha tanta coragem. Porque dizer isso, a sério ou de brincadeira, demanda uma força muito grande. No meu universo, pelo menos. Isso muda pessoas. Muda relações, muda a forma como interagimos com o mundo. Todas as vezes em que eu disse “estou apaixonada por você” acabei perdendo mesmo o pouco que tinha.

Bebi mais e tentei não me aproximar muito. A gente nunca sabe quando o corpo está testemunhando contra nós. Eu não queria fazer parecer que havia alguma chance de eu ter compreendido o que você disse. Porque eu não compreendi.

E então parti com uma amiga para qualquer beco em que pudéssemos nos meter naquela noite, para descontar minhas frustrações nos hormônios. Logo ela se tornou amante. Ela, e outro, e outra. E em nenhum momento eu pensei em nada que não fosse “quero esquecer esse relacionamento de mentira que estou vivendo sem questionar”. Sabia que estava sozinha.

Não fiquei surpresa quando o buraco em meu coração aumentou ofensivamente. A primeira boca que beijei. A segunda. A terceira. A quarta. O quase deslize que cometi com um amigo. A hora de voltar para casa. Tudo era vazio. E só aumentava. Vazio, vazio, vazio. Como doía o oco na minha mente todos os dias. E agora era como se esses beijos todos tivessem levado o pouco que me restava.

Foi só quando você mudou seu status de relacionamento nas redes sociais para “namorando” que eu finalmente me senti bem. Porque se você se dizia apaixonado por mim – de brincadeira ou não – e encontrou uma alma gêmea, alguém que te faz bem e te completa, eu ainda posso parar de sofrer por ele. Ainda posso encontrar alguém. Pode ser mais rápido do que imagino.

E se esse vazio simplesmente desaparecer a qualquer momento? Eu realmente quero que isso aconteça. Então obrigada por passar na minha vida. Obrigada por acender a luz antes de sair. Vou colocar o pé na estrada e espero não encontrar a poeira quando voltar. :}

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