Transição

Não importa o quanto figurativamente invertamos os papeis, sempre vai continuar tudo como é. Como foi desde o começo.

É muito bom estar de volta. Sozinha. Não sentir nada. Mas é péssimo o vazio que sinto quando bate aquela vontade de encontrar alguém, de trocar palavras, de sentir o coração apertar e voltar ao normal e ficar pensando em como fazer algo funcionar, mesmo que por pouco tempo… É péssimo porque a vontade agora vem e nenhum nome me ocorre. Nenhuma lembrança me inunda. Eu continuo transbordando todos os dias, mas já não é amor o que sobra aqui. É melancolia. É bom estar só, é horrível não ter ninguém.

Por quanto tempo?

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Terapia

Transformar o trabalho em algo que deixa o dia mais leve. Sempre bom.

E ver pessoas que amo. Incrível também. É claro, continuo falando mais do que deveria. E tocando em assuntos errados. E odiando gratuitamente porque não consigo ser boa o suficiente para simplesmente ignorar. Mas tudo passa.

Enquanto isso, eu rabisco.

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E em breve também me rabisco. Saudades, agulhinhas de cor na minha pele. Saudade.

Dezenove semanas depois

outro dia você me ligou. eu sei que era você por causa do número do identificador de chamadas, e sei que era comigo porque pude te ouvir respirar do outro lado enquanto eu repetia pausadamente: “alô? alô?”. depois fiquei em silêncio e conseguia te ouvir na outra linha como se você ainda ocupasse o espaço agora vazio do meu colchão enorme. na cama, eu respirava baixinho e você se esforçava para evitar fazer ruídos, mas não podia impedir o inspirar pesado e ofegante que recusava tratar no médico. ouvindo assim, ao telefone, era como se você estivesse aqui de novo. então insisti. “alô?”. mas você não disse nada. inquieta, desliguei. pensei que fosse chorar, mas tudo que senti foi um aperto enorme no peito e um imenso vazio. uma dor de quem recebeu uma facada e pra quê? pra entender que finalmente não existia mais “nós dois”.

na primeira vez que vi pulp fiction, ainda guria de tudo, aquele discurso da mia wallace sobre os silêncios desconfortáveis me fisgou de uma forma muito singular porque sempre senti isso. sempre tive dificuldade de conversar com outras pessoas. a minha meta, desde o princípio, era encontrar a companhia certa para compartilhar os silêncios. e demorou – diria que pelo menos dez anos – mas um dia você apareceu. e funcionou. ou pelo menos eu achava que sim.

meu celular começou a vibrar de novo. pela primeira vez desde que você partiu, finalmente entendi que não, nossos silêncios não voltariam a ser confortáveis nunca mais. nada mudou, mas tudo mudou. não somos os mesmos. não nos relacionamos da mesma forma. e então, enquanto o aparelho vibrava ao meu lado na cama, eu chorei. o aperto aumentando, as lágrimas mais frequentes, o soluço. o celular parou, eu continuei. esvaziei.

e assim que a tempestade interna passou, levantei da cama. lavei o rosto e passei alguns minutos olhando para o espelho tentando decifrar o indizível. o que me tornei? o que mudou? descobri apenas o óbvio: ainda te amo, te amo sem medida. mas somos feitos de erros incompatíveis, e nem só de amor se mantém uma relação.

desde então, nunca, nunca mais chorei por você.

mas sinto sua falta todos os dias.

Sincericídio

Decidiu: a partir de agora, falaria apenas as verdades que não machucam ninguém.

Calou-se para sempre.

um sábado qualquer

Toda noite é a mesma coisa. Parece que estou sozinha. E perdida.

Mas nem sempre fica assim até o fim. Às vezes eu faço o que tenho que fazer. Eu largo o transe das músicas e histórias e caminho por aí. E, de tanto procurar com cuidado pelos vãos do esquecimento, meus olhos encontram uma cena familiar e eu caminho até o porto seguro.

Simples como tem que ser: você chega mais perto e me beija violento no meio de uma conversa que geralmente não tem nada a ver. Um desabafo sobre a semana pesada, ou uma piada pronta sobre o ambiente hostil. Porque é assim: nós dois queremos e não há razões para passar vontade. A gente sabe lidar com isso.

Às vezes eu fico acelerada, entregue, e é como se nunca tivesse me sentido mais viva. Às vezes é como se eu não estivesse ali naquele beijo, como se só meu avatar participasse da pressão entre nossos corpos, eu não sinto absolutamente nada.

Mas sempre, sempre acabamos sorrindo um para o outro. Por um tempo, meu nó na garganta desaparece e eu passo pelo melhor da vida, debochando do batom que você me arrancou ou do piercing que seu dente ameaçou enroscar. Compartilhando algo completamente alheio à ligação física que repetidas vezes notamos ter. As pessoas em volta, nada do que esperávamos. Sempre a mesma coisa, e estamos cansados. Sem pressa, concluímos: “está tudo errado. isso é errado.”. E fazemos de novo, e de novo, porque fazer o certo, neste caso, não está com nada.

Eu tenho dezenas de coisas e pessoas atormentando minha cabeça e meu coração. Você não é uma delas. É companhia, um ponto de paz, um refúgio no meio de tanta confusão e barulho por nada. Você é algo leve no meio de uma coleção de pesos.

Tem muito castigo pra pouco crime na minha vida. Ainda bem que, quando menos espero, também tem uma dose saudável de você. Aliás, você tem razão: faltam mais seres humanos como nós no mundo. Gente que, num sábado qualquer, consegue tirar da pessoa mais amarga do mundo uma porçãozinha de ternura. E depois agir normalmente, como tem que ser.

augusta, de novo

Confesso que nem lembro se ainda era noite ou se a madrugada já havia começado: lembro de você, pequeno e delicado, me abraçando após anos de desencontros; lembro do seu cabelo penteadinho e da sua jaqueta de couro tão opostos e ao mesmo tempo tão graciosos juntos. O bar lotado, o que sempre me causa desconforto, as mesas lotadas de cervejas e conhecidos que eu sinceramente preferia não ter encontrado – mas que não podia evitar agora.

Lembro também de já ter tomado algumas caipirinhas e não estar assim tão tranquila quanto a terminar o drink que carregava na mão esquerda – a força do fígado não é a mesma de alguns anos atrás. Mas eu persistia, porque é isso que me mantém fora de casa. Cada gole é uma dose nova de tolerância. Não que essas pessoas mereçam toda essa minha revolta. Eu é que simplesmente não me sinto bem com elas em volta. Funciono melhor sozinha, é só isso.

Pensava no amor que deixei esperando do outro lado do computador, do outro lado do celular, o amor de mentira que eu cegamente alimentava todos os dias como se em algum momento tudo o que nos prometíamos, todas as expectativas que eu criava, pudessem se tornar reais. Um amor que não era nada além de fantasia minha, uma projeção inconsequente que eu insistia em alimentar. Alguém que não se importava. E você me chamou num canto, abraçou de novo e disse que lia tudo aquilo que eu escrevia. Há anos. Todos os desabafos, a alma transbordada, as histórias sem fim – e sem começo, ou sem meio. “Eu leio tudo”, você disse, “sou apaixonado por suas palavras. Sou apaixonado por você”.

Achei assustador. Não pelo álcool que havia ingerido até então, mas porque não estou acostumada mesmo com essas coisas. Com esse tipo de intimidade. Imaginei que estivesse caçoando de mim. É possível que sim.

Então, mais tarde, na mesa, enquanto eu olhava a caipirinha moderna com um picolé derretendo dentro concentrada em como tomar tudo sem fazer uma meleca enorme, você disse de novo. “Sou apaixonado por você”.

Fiquei me perguntando de onde vinha tanta coragem. Porque dizer isso, a sério ou de brincadeira, demanda uma força muito grande. No meu universo, pelo menos. Isso muda pessoas. Muda relações, muda a forma como interagimos com o mundo. Todas as vezes em que eu disse “estou apaixonada por você” acabei perdendo mesmo o pouco que tinha.

Bebi mais e tentei não me aproximar muito. A gente nunca sabe quando o corpo está testemunhando contra nós. Eu não queria fazer parecer que havia alguma chance de eu ter compreendido o que você disse. Porque eu não compreendi.

E então parti com uma amiga para qualquer beco em que pudéssemos nos meter naquela noite, para descontar minhas frustrações nos hormônios. Logo ela se tornou amante. Ela, e outro, e outra. E em nenhum momento eu pensei em nada que não fosse “quero esquecer esse relacionamento de mentira que estou vivendo sem questionar”. Sabia que estava sozinha.

Não fiquei surpresa quando o buraco em meu coração aumentou ofensivamente. A primeira boca que beijei. A segunda. A terceira. A quarta. O quase deslize que cometi com um amigo. A hora de voltar para casa. Tudo era vazio. E só aumentava. Vazio, vazio, vazio. Como doía o oco na minha mente todos os dias. E agora era como se esses beijos todos tivessem levado o pouco que me restava.

Foi só quando você mudou seu status de relacionamento nas redes sociais para “namorando” que eu finalmente me senti bem. Porque se você se dizia apaixonado por mim – de brincadeira ou não – e encontrou uma alma gêmea, alguém que te faz bem e te completa, eu ainda posso parar de sofrer por ele. Ainda posso encontrar alguém. Pode ser mais rápido do que imagino.

E se esse vazio simplesmente desaparecer a qualquer momento? Eu realmente quero que isso aconteça. Então obrigada por passar na minha vida. Obrigada por acender a luz antes de sair. Vou colocar o pé na estrada e espero não encontrar a poeira quando voltar. :}

setembro

Já começou horrível. Cheio da pressão de agosto. A sensação é de que tudo se perdeu. Não tenho mais as relações que eu tinha no começo desse ano, não tenho mais tesão no que faço, não tenho mais vontade de estar em casa, nem com ninguém. Tá tudo em falta, tá tudo estranho.

Eu não quero mais. Não quero.

Mais nada.