Não é sobre você

É sobre mim. Cada palavra sangrada e cada frase acusadora. Tudo aqui sou eu e minha forma um pouco errada de ver o mundo. Muito daqui tem você, é claro. Tem um monte de gente. Então não precisa se preocupar e nem me perguntar se está tudo bem. Não está acontecendo nada, e este é o maior dos problemas. Se alguém se encontra nos meus desarranjos, que bom. Eu sou um acumulado de livros, amores e mágoas. Mas acredite: não é sobre você, nem sobre nada além do desejo diário de me encontrar e perder a cada instante.

Não tem nada me esperando, não tem nada me segurando, não tem nada acontecendo. Isso obviamente me machuca muito mais do que me aborrece. E eu transbordo, porque desde que nasci funciona assim. Então é simples: é sobre tudo de novo que ainda vou conhecer. É sobre mim, sobre todos os meus porquês.

Talvez um deles seja você, não sei ao certo. Mas prefiro acreditar que não. Não é sobre você.

Agosto

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É como se fosse errado partir. Talvez ninguém entenda, mas a sensação é de que não há nada me esperando em casa – este é o momento de estar no mundo. É claro, há a família e os amigos que posso contar nos dedos, mas a questão não é essa. A minha família estaria me esperando mesmo que eu estivesse ainda em São Paulo. Eles me esperam, sempre irão esperar quando estiver ausente. Até que não estejam mais lá. Meus amigos, eu espero, também. De certo modo, todos são família. E família é algo incrível.

Estou falando de outras coisas.

Não tenho minha casa, não tenho um relacionamento ou um emprego que me prendam àquele lugar. Na verdade, tenho algumas mágoas que já descobri que incomodam muito menos quando estou longe. Por isso, tudo me diz para estar fora. Estar longe. Pertencer ao mundo, e mais nada.

Vejo o dia acabar aqui e, pela primeira vez na vida, desejo que o tempo de fato não passe. Eu não quero ir embora. A sensação é completamente diferente da primeira vez em que estive aqui. Eu quero ficar. E quero mais, mais lugares, mais pessoas, mais sotaques, culturas, sabores, mais línguas para conhecer. Quero viver mais loucuras, sentar mais vezes no parque e não pensar em nada que já conheça, quero ouvir grandes histórias de amor, quero falar sobre elas. Quero estudar mais sobre o passado de cada canto desse mundo do qual faço parte e que sempre me interessou, embora eu tanto tenha fugido de assumir.

Não sei se faz sentido, mas eu quero viver, mais nada. Escrever, mesmo que para que ninguém leia. E viver.

Uma vez que o meu vôo já esta marcado e eu não tenho outra opção senão embarcar para casa às 7h de amanhã, quero viver as coisas de forma diferente quando voltar. Porque é possível, eu sei. E vou me esforçar para fazê-lo. Pra não deixar que as coisas me puxem para baixo de novo. Pra que eu possa voltar logo para cá. Coloque o pé na estrada. Realize meus sonhos.

No momento, não há nada que me impeça. Nada.

Não vou receber um beijo apaixonado ao chegar no aeroporto de Guarulhos. Não vou receber um beijo apaixonado tão cedo. Também não chegarei ao meu apartamento, deitarei no meu sofá e nem colocarei música para tocar no meu cantinho – só meu. Mas há minha família. Meus sonhos. E a paixão que eu adquiri pela vida. Vale muito mais do que essas cenas quase-cinema que eu vivo todos os dias. Porque é real.

É isso. Agora é a hora de viver o que é real. E de tornar real o que desejo. Nunca foi tão simples, acho. Não há nada me esperando lá – mas também não há o que me segure aqui. Chega de fugir da realidade, Ariane.