the worst method is trying to let go

tem sempre tanta coisa acontecendo. tantos prejuízos financeiros e emocionais. mas tento não levar para o coração: roubaram, compra um novo. quebrou, conserta. gastou, trabalha e guarda de novo. brigou, pede perdão. não quer mais sofrer, esquece. minha mãe sempre me ensinou assim.

na prática, essas coisas não são simples na maior parte do tempo. doi gastar dinheiro com o supostamente desnecessário, doi quando levam nosso dinheiro – é e não é pelo material. na verdade, doi porque eu penso no tempo que gastei para juntar tanto, no quanto eu trabalhei, adoeci e engoli desaforos. doi porque eu sei que vou precisar me encontrar e me reinventar pra ganhar ainda mais – mas pera aí, isso é bom. então com essa parte, a parte material, no fim, eu sei lidar.

sobre perdão e esquecimento, as coisas ficam mais complicadas. não é simplesmente tirar uma quantia do bolso ou parcelar no cartão de crédito. não adianta só trabalhar mais. você precisa lidar consigo mesmo. e precisa lidar com o outro. com os outros. não. é. fácil.

quer dizer, não sei para o resto do mundo, mas para mim não é. minha cabeça processa tudo muito profundamente. eu penso demais, nossa senhora. e tudo vira o fim do mundo. não porque eu invento, mas porque doi mesmo. fisicamente. e a sensação é de que não tenho como resolver sozinha. parece conversa de louco (e provavelmente é), mas fica complicado sofrer diariamente a perda de algo que você nunca teve. e eu sofro.

tem tantas coisas que quero deixar para trás. que tenho me esforçado para ignorar, não permitir que me machuquem. mas a qualquer momento do dia, sem que eu espere, estou de novo sentindo aquela pontada no peito que insiste em apertar e apertar e é como se o ar me faltasse e eu fosse chorar, mas não sai lágrima alguma, só me inunda um desejo imenso de que tudo acabe. a vida toda. fim. simples, que eu apague. uma palavra, uma foto, uma música. qualquer coisa, às vezes imprevisível e às vezes (confesso) procurada, me destroi por horas e por horas.

por que eu faço isso? por que a gente se tortura tanto? no final é isso: não sobre o que nos fazem, mas sobre o que fazemos com o que resta de nós mesmos.

porque eu já cansei de saber que a vida é assim. que serei arrebatada ainda milhares de vezes antes de de fato encontrar alguém que corresponda o que sinto. que talvez nunca encontre esse alguém que gosta de mim e posso muito bem viver assim. nesse meio tempo, é preciso entender que as pessoas vão passar e vão agir como se gostassem de mim. mas não necessariamente gostarão. e vou ter que lidar com isto. vou ter que lidar com gente indo embora da minha vida sem sequer saber que fez morada nela. sem sequer saber o porquê de eu sentir tanto assim.

as pessoas não sabem o que fazem conosco. o que causam na gente. mas a gente sabe o que faz pra si mesmo. a gente olha pra dentro todos os dias. olha pro espelho todos os dias. e não devia se boicotar tanto. eu não devia me boicotar tanto.

é só quando você aceita. e se trata.

eu não devia estar aqui chorando que gostaria de deixar ir. não mesmo.
não devia estar morrendo de vontade de enviar uma dúzia de perguntas que ele não tem obrigação de me responder. não mesmo. porque simplesmente não terei resposta. e vai doer mais.

ou terei exatamente a resposta que imagino – vai doer mais do mesmo jeito.

tem situações em que a única opção é esquecer. e ficar tentando descobrir o que houve e o que há é o pior método de esquecimento. não ajuda por razões óbvias: enquanto você tiver o que remoer, o que culpar, o que tentar consertar, você não vai largar a memória do que achou que pudesse ser. você se torna uma pessoa cega e, agarrada a memórias inventadas, nunca vai estar pronta para aceitar que aquilo não te faz bem, que tem que ir embora. é ingênuo.
é tão burro tentar.

do or do not, ariane.

eu vivo aconselhando por aí. sei que é o que precisa ser feito. só não sei se tenho coragem de perder tanto de uma vez. tanto tem sido levado de mim nos últimos tempos. assim, sem anestesia. sem pausa pra recuperação.

mas é isso: cansei desse meu coração sem graça e é hora de recomeçar. manter minhas questões só comigo. aquela hora em que a gente cerra os punhos por alguns segundos, aceita que é sempre mais escuro antes do amanhecer e vai em frente. I’m damned if I do and I’m damned if I don’t, sabe?

vai doer pra caralho daqui pra frente. cada vez mais. mas é assim que tem que ser até cicatrizar. e tudo cicatriza, eu sei disso muito bem. chega de tentar. tentar é cutucar a ferida, ficar colocando vírgulas.

o que eu preciso agora é de um ponto final.

so shake it out.

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