À distância

É mais fácil? Não sei, mas os problemas parecem menores, os defeitos caem no esquecimento. O que sentimos se mostra maior quando tentamos conter, e aquele vão de saudade cria a sensação de que nunca mais vai ser preenchido.

À distância reconheço seu cheiro vindo de algum lugar da rua, procuro sua voz por toda parte, recebo seu pedido de notícias com um sorriso. E enquanto você diz que me procura, que em outros falta muito ou quase tudo, que um abraço sararia tua angústia… Eu tento recortar todos os fatos, enxergar com clareza o que é incerto, eu me deito sob a chuva e adoeço como forma de protesto.

A dor – até ela! – é uma delicia: mãe da expectativa do reencontro, do aconchego, da vida perfeita que nunca tivemos e nem teremos, mas que ali, naquele espaço de tempo, naquela separação, parece tão perto de acontecer. Contamos segredos, trocamos carências, lamentamos a distância pensando em tudo de bom que já vivemos e ainda podemos fazer juntos. É o mesmo de sempre e, ainda assim, é mais fácil.

E se tudo parece mais simples, mais bonito, mais fluido – assim é que de longe nos enganamos. Porque sei que quanto mais nos aproximarmos, mais a realidade vai bater à porta. É o castigo para a nossa escolha de amar em desencontro, essa dor tão lancinante que vicia. Você se permite me dizer muito mais de longe. Mas eu… Eu sei bem o que acontece quando a nossa distância chega ao fim.

A verdade, coração, é que o que mais amamos um no outro é essa distância de um oceano entre nós. Entre o que é e o que deveria ser toda essa história, nos alimentamos de Weltschmerz, eu diria. E vivemos imersos em lados opostos de um oceano de desprendimento.

À distância é mais fácil, meu amor. Porque faz parecer real o que não existe.

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