Tormenta

“alguns homens sublimam seus desejos, projetando-os num plano apenas mental, e isso é suficiente para satisfazê-los. Outros, diz Schianberg, apesar de resistirem com diferentes graus de esforço, acabam por ceder às tentações.”

Aquino, Marçal. “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios.

A gente se quer em descompasso. Você, o corpo – reflexo da carência, de hormônios, de um desejo que não tem a ver comigo e que quase sempre não me sinto habilitada a saciar. Você é bom demais e quer o de menos, quer quase nada. Você, o corpo. Eu, a alma – esse eterno emaranhado de sensações tão distintas e contraditórias, tão simples e tão exaustivamente complexas.

Você quer o corpo, o suor, os olhos fechados, a violência e o atrito entre nós dois. Mas a sua alma covarde não deixa, ela exige sensatez, cautela. E você, sempre tão reflexivo, tão contido, se pune e dentre todos os dilemas que vive sozinho, ainda é obrigado a conviver comigo, com meu desejo profundo por ela, o pacote completo, tudo que traz consigo, sonhos, paixões, diálogos, dramas, promessas, dor, prazer e tristezas.

Eu quero amar e você não. E assim, por medo de que um dia eu cobre todo esse amor de volta, você se guarda, se nega e se fecha mais a cada vez que se permite ser um pouquinho. Amor assim não cobra retorno, querido. Tolo, você, por não se permitir ser. Eu sou o tempo todo. Nessa batalha de opostos, encaro calada os nossos deslizes. Assumo, aproveito, absorvo ao máximo. Não me importo com a dor de ter todo o prazer de uma noite reduzido a nada no dia seguinte. Não me importo de negar tantas outras possibilidades e sentimentos, ou de olhar no espelho e acreditar que não houve nada além de você fingindo não estar ali. Eu não me importo com os significados ocultos que você tenta inutilmente encontrar para os gestos que faz diante do meu amor. Pode invadir minha cama, montar minhas costas, cantar e dormir pra em seguida dizer que nada aconteceu, se tudo isso bastar pra lhe fazer feliz.

Eu sei lidar com a não correspondência, com a falta de interesse, com a dúvida e o pudor, com a triste influência do alinhamento dos astros na hora de seu nascimento, com a negação. Eu só não sei lidar com uma coisa: o silêncio.

Em descompasso a gente se entende – um dia você vem, me abre as portas da alma, me faz plenamente feliz. No outro você cala, e no silêncio eu me desespero, encaro a morte e peço para que ela me leve, como se nunca mais fosse capaz de sorrir. No final sobrevivo, me encontro e desencontro, lido com seu cheiro de perto, seu coração sempre longe e, dos devaneios que guardo, da memória das poucas entregas, percebo que o que mais quero esteve sempre ali: sua alma, a uma só vez ridiculamente acessível e proibida. Exposta para mim todos os dias a cada riso e a cada palavra que você me diz.

É desse mistério que eu preciso pra seguir. É dessa distopia que não abro mão. Do desconforto que você sente a cada “eu te amo” que me ouve dizer. Da imensidão do que eu senti na única vez em que, embriagado, você disse o mesmo para mim. Eu gosto do descompasso: porque assim, e só assim, sei que sempre haverá algo novo pra explorar, decifrar, inferir. A gente se quer em descompasso: você, o corpo – eu, a alma. E, olhando bem de perto, talvez não haja maneira melhor que essa de satisfazer os dois de uma vez. Talvez o descompasso seja sim, para você e para mim, a melhor maneira de sentir. Essa tormenta certa, essa praia em tempos de ressaca, essa vida feita dos silêncios assustadores seguidos do barulho absoluto das ondas destruindo tudo após a maré subir.

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2 comentários em “Tormenta”

  1. Me identifico com seu desespero, com sua tristeza, com sua agonia.
    È horrivel amar tanto uma pessoa – tanto, que chega a sufocar – e não ter meios de fazê-la ficar com você. Estou vivendo isso agora e odeio o tal do livre arbítrio. Queria ele aqui, queria agora… queria poder fazer alguma coisa.

    Será que um dia passa?

    Bjs

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