À distância

É mais fácil? Não sei, mas os problemas parecem menores, os defeitos caem no esquecimento. O que sentimos se mostra maior quando tentamos conter, e aquele vão de saudade cria a sensação de que nunca mais vai ser preenchido.

À distância reconheço seu cheiro vindo de algum lugar da rua, procuro sua voz por toda parte, recebo seu pedido de notícias com um sorriso. E enquanto você diz que me procura, que em outros falta muito ou quase tudo, que um abraço sararia tua angústia… Eu tento recortar todos os fatos, enxergar com clareza o que é incerto, eu me deito sob a chuva e adoeço como forma de protesto.

A dor – até ela! – é uma delicia: mãe da expectativa do reencontro, do aconchego, da vida perfeita que nunca tivemos e nem teremos, mas que ali, naquele espaço de tempo, naquela separação, parece tão perto de acontecer. Contamos segredos, trocamos carências, lamentamos a distância pensando em tudo de bom que já vivemos e ainda podemos fazer juntos. É o mesmo de sempre e, ainda assim, é mais fácil.

E se tudo parece mais simples, mais bonito, mais fluido – assim é que de longe nos enganamos. Porque sei que quanto mais nos aproximarmos, mais a realidade vai bater à porta. É o castigo para a nossa escolha de amar em desencontro, essa dor tão lancinante que vicia. Você se permite me dizer muito mais de longe. Mas eu… Eu sei bem o que acontece quando a nossa distância chega ao fim.

A verdade, coração, é que o que mais amamos um no outro é essa distância de um oceano entre nós. Entre o que é e o que deveria ser toda essa história, nos alimentamos de Weltschmerz, eu diria. E vivemos imersos em lados opostos de um oceano de desprendimento.

À distância é mais fácil, meu amor. Porque faz parecer real o que não existe.

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Paris

pezinhos

Enquanto os Smiths tocavam Asleep nos meus fones de ouvido eu olhava admirada a beleza toda dos Campos de Marte no domingo ensolarado e pensava em como capturar aquela imagem: como eu poderia engarrafá-la e levá-la a você, compartilhar cada detalhe, cada uma daquelas cores que eu tanto adorava, todo o verde dos jardins e o azul tão forte do céu e o reflexo do sol nas flores e na Torre Eiffel projetando um contorno dourado nas pessoas que passavam ali tão encantadas quanto eu, que antes detestava esse lugar.

Uma foto não seria o suficiente, dezenas de fotos não seriam suficientes, eu queria guardar aquele domingo comigo e levá-lo ao seu encontro, eu queria que você se transportasse para o meu lado ali e lêssemos juntos nossos livros favoritos, contando detalhes um do outro que ainda não conhecemos, deitados na grama enquanto Iggy Pop cantaria para nós sem parar Candy Candy Candy e você não me deixaria ir e eu não te deixaria ir e nossa busca chegaria ao fim, e todo o amor gratuito nos consumiria, porque fica cada dia mais claro que a vida é louca assim mesmo, ora essa, em qualquer lugar do mundo. Então vamos amar.

Só que tudo o que eu tenho é a beleza e o desejo de compartilhá-la enquanto Morissey continua cantando para me lembrar que there is another world, there is a better world… Well, there must be.

Foi por isso que escolhi ficar sozinha: porque não há modo mais simples e verdadeiro de tê-lo por perto.

E assim eu me sinto infinita.

Paris é linda mesmo. É romântica, é quente, é mágica. Cedi aos seus encantos após um ano e meio de resistência. Achei que você devesse saber.

Engraçado

Faz mais de dez dias que estou em outro continente, e isso me da um certo alivio. Estava me sentindo um peso na cabeça dos amigos, sempre monotematica, chata, sempre pensando e falando sobre as mesmas coisas. Claro que andei tocando nesses assuntos por aqui com eles, mas é bem mais leve porque estou longe. Bem longe. E ai eu evito. Falo de coisas boas.

E também tento superar esse monte de merda que se passa na minha cabeça pra voltar zebrada pro Brasil. Esta mais difícil do que parecia no começo. Mas vai embora. Tem tanta coisa linda ao meu redor, tanta coisa linda se passando na minha vida. Eu vim aqui mais pra me conhecer do que qualquer outra coisa.

Esquecer tem feito parte do processo. Devagar, as obsessões diminuem.

E semana que vem fico completamente sozinha comigo. É hora.

This too shall pass.

coraçãozinho

Coraçãozinho… Gelado, vibrante. Treme um tiquinho de ansiedade, um outro tiquinho de paixão. Está lá bem quentinho e PUF! Balde de água fria no coco. Está lá, murchinho e murchando, vem alguém trazer calor – uma palavra, sorriso, um trecho de musica ou livro qualquer. E o coraçãozinho morno de novo.

Coraçãozinho se aventura e curte o gelo e o fogo na mesma intensidade. Tá vivão e vivendo. Bate até quando não quer. Pisca mas não se perde atrás das surpresas. 🙂

Coraçãozinho só quer mesmo é continuar transformando tudo o que toca em amor.

Tormenta

“alguns homens sublimam seus desejos, projetando-os num plano apenas mental, e isso é suficiente para satisfazê-los. Outros, diz Schianberg, apesar de resistirem com diferentes graus de esforço, acabam por ceder às tentações.”

Aquino, Marçal. “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios.

A gente se quer em descompasso. Você, o corpo – reflexo da carência, de hormônios, de um desejo que não tem a ver comigo e que quase sempre não me sinto habilitada a saciar. Você é bom demais e quer o de menos, quer quase nada. Você, o corpo. Eu, a alma – esse eterno emaranhado de sensações tão distintas e contraditórias, tão simples e tão exaustivamente complexas.

Você quer o corpo, o suor, os olhos fechados, a violência e o atrito entre nós dois. Mas a sua alma covarde não deixa, ela exige sensatez, cautela. E você, sempre tão reflexivo, tão contido, se pune e dentre todos os dilemas que vive sozinho, ainda é obrigado a conviver comigo, com meu desejo profundo por ela, o pacote completo, tudo que traz consigo, sonhos, paixões, diálogos, dramas, promessas, dor, prazer e tristezas.

Eu quero amar e você não. E assim, por medo de que um dia eu cobre todo esse amor de volta, você se guarda, se nega e se fecha mais a cada vez que se permite ser um pouquinho. Amor assim não cobra retorno, querido. Tolo, você, por não se permitir ser. Eu sou o tempo todo. Nessa batalha de opostos, encaro calada os nossos deslizes. Assumo, aproveito, absorvo ao máximo. Não me importo com a dor de ter todo o prazer de uma noite reduzido a nada no dia seguinte. Não me importo de negar tantas outras possibilidades e sentimentos, ou de olhar no espelho e acreditar que não houve nada além de você fingindo não estar ali. Eu não me importo com os significados ocultos que você tenta inutilmente encontrar para os gestos que faz diante do meu amor. Pode invadir minha cama, montar minhas costas, cantar e dormir pra em seguida dizer que nada aconteceu, se tudo isso bastar pra lhe fazer feliz.

Eu sei lidar com a não correspondência, com a falta de interesse, com a dúvida e o pudor, com a triste influência do alinhamento dos astros na hora de seu nascimento, com a negação. Eu só não sei lidar com uma coisa: o silêncio.

Em descompasso a gente se entende – um dia você vem, me abre as portas da alma, me faz plenamente feliz. No outro você cala, e no silêncio eu me desespero, encaro a morte e peço para que ela me leve, como se nunca mais fosse capaz de sorrir. No final sobrevivo, me encontro e desencontro, lido com seu cheiro de perto, seu coração sempre longe e, dos devaneios que guardo, da memória das poucas entregas, percebo que o que mais quero esteve sempre ali: sua alma, a uma só vez ridiculamente acessível e proibida. Exposta para mim todos os dias a cada riso e a cada palavra que você me diz.

É desse mistério que eu preciso pra seguir. É dessa distopia que não abro mão. Do desconforto que você sente a cada “eu te amo” que me ouve dizer. Da imensidão do que eu senti na única vez em que, embriagado, você disse o mesmo para mim. Eu gosto do descompasso: porque assim, e só assim, sei que sempre haverá algo novo pra explorar, decifrar, inferir. A gente se quer em descompasso: você, o corpo – eu, a alma. E, olhando bem de perto, talvez não haja maneira melhor que essa de satisfazer os dois de uma vez. Talvez o descompasso seja sim, para você e para mim, a melhor maneira de sentir. Essa tormenta certa, essa praia em tempos de ressaca, essa vida feita dos silêncios assustadores seguidos do barulho absoluto das ondas destruindo tudo após a maré subir.

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