Tudo cicatriza

Cansa. Cansa porque de repente vemos tudo bem mais claro do que no começo, tudo muito menos perdido do que quando insistimos no medo: se não tô entendendo nada, vai ver é que é porque não tem nada pra entender.

Faz muito tempo que estamos jogando o mesmo jogo e nenhum arrisca o próximo movimento. Os dois ficam ali, parados. É cômodo, o empate. Ninguém ganha, ninguém perde. O problema é que assim todos sofrem. Nós, os outros. Fica tudo envolto na poeira das nossas dúvidas, dos nossos desencontros. As euforias desmedidas seguidas pelas crises de profunda tristeza abalando os dois e o resto do mundo.

Nós todos, imbecis.

Porque tem que avançar quantas casas achar preciso. Dar na cara mesmo e não ter medo de partir ou ficar, nem de fazer o que der vontade, quando der vontade. Alguém tem que ganhar, alguém tem que perder – e mesmo um empate só faz sentido quando o jogo valeu a pena. Não dá pra entregar os pontos, passar a vida pensando no que os outros vão achar, no que você ou eu deveríamos escolher. Paremos de ficar criando critérios malucos de seleção, de perfeição, de avaliação. Você não é perfeito, eu não sou perfeita, ninguém é. Não se engane, não.

Triste é quem fica se tolhendo por isso. Quem passa o dia se julgando e lutando contra as próprias vontades. Eu escolho não acreditar em nada disso: em perfeição, em ideal, em esperar as coisas acontecerem. Escolho ceder às vontades, passar por louca, pedir desculpas, sofrer a amnésia e a ressaca que tiver que sofrer. Escolho me entregar de olhos abertos, pular do avião sem saber se a cordinha vai ou não abrir o paraquedas na hora certa.

Se vou voar ou me estabacar no chão, não importa. Por alguns segundos, eu tive o que sempre quis. O resto é consequência.

A única coisa certa nessa vida é que vamos todos morrer. E eu escolho ser sincera comigo até o fim.

Quero ser infinita, sabe por quê? A vida acontece, meu amor. Quer você queira ou não.
Olhe pela janela. Os carros na rua. As pessoas seguindo pra lá e pra cá sem nem ao menos notar que estamos aqui.

A gente muda. A vida acontece.

E não sei quanto a você, mas tudo que não quero é passá-la me culpando por não ter tentado. Eu quero continuar assim, aceitando cada situação como uma nova tatuagem. Eu escolho, enfrento a dor, aguardo a cicatrização e aprendo a conviver com aquela marca para sempre.

Porque tudo cicatriza, meu bem.

It’s a long way down, but I feel alright. And the cops get in, and the crowd gets tight – take your tomorrow, pain and your sorrow and teach it how to fly.

Sei que começa a doer, mas quero sempre a verdade.

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