you pull my heart out, and I don’t mind bleeding

Talvez eu devesse amaldiçoar o desejo de simplesmente guiar sem rumo. Um erro, seguir assim. Passava das onze e todo o bairro estava vazio – é disso que eu gosto na periferia, esse toque de recolher que se instaura muito antes da madrugada, as casas apagadas e a avenida silenciosa e iluminada apenas pelos sinais. É como estar num cenário de filme, nada é real.

Se chovesse naquela hora, eu me sentiria Joel Barish em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Mas o tempo estava seco. Gelado e seco. Eu me sentia verdadeiramente sozinha – exceto pela voz do GPS me guiando eventualmente “prepare-se para virar à esquerda a 200 metros”. Ah, a tecnologia. Liguei o rádio.

E aí tocou Lonely Boy, dos Black Keys. Foi aleatório e me pegou desprevenida. Ali, no deserto, no frio gostoso de São Paulo pré-inverno, era quase como se eu pudesse sentir os seus lábios macios nos meus de novo. Como se fosse a primeira vez, eu completamente enfeitiçada pelo seu sotaque carregado e as histórias que você me contou naquele vinte e um de janeiro abafado, histórias de longe e de perto, todos os corações que você partiu e ainda partiria, nós dois sentados num colchão em seu quarto.

Engraçado, faz tanto tempo.

Anos. E eu ainda consigo sentir o gosto do beijo mais estranho que já dei. Um beijo pra tentar quebrar o ar confuso que você criou com seu discurso ensaiado de que ora, eu sabia no que estava me metendo – e se o aceitava, era por minha conta e risco. E então sua mão repousando na minha cintura enquanto cobria minha cabeça com seu casaco, protegendo o que podia da chuva, ambos em frente à sua casa.

Eu me vi mais uma vez ali, partindo, mudada para sempre.
Sentindo-me tão esperta… Só que completamente perdida, tolinha.

Eu era tão jovem.

E nem faz tanto tempo assim, ora veja. Depois de você, pensei que não fosse conseguir gostar de ninguém. Depois de tudo, eu passei dois anos acumulando copos e corpos e me munindo de um discurso tão desprezível quanto o seu para fugir de algo simples: sentir de verdade.

Eu era mais jovem, sim. E faz algum tempo. Mas eu finalmente descobri o amor – e acho que talvez devesse te agradecer por ter falhado tanto comigo. Você me fez pensar. E ousar. Você me fez descobrir exatamente como eu não quero ser.

E só então entender que é sempre tão simples como tem que ser. Por mais complicado e cruel que pareça.

(e foi num show dos Black Keys que eu te vi pela última vez, de longe, um espelho do quanto eu mudei em tão pouco tempo. e como você continua o mesmo.)

Any of the time you keep me waiting, waiting, waiting.

Eu ainda sou tão jovem.

Um comentário em “you pull my heart out, and I don’t mind bleeding”

  1. oie ari… 🙂
    adorei o texto… inclusive até roubei uma frase do seu texto e tuítei! hehehe! e acho que é bem isso mesmo… a gente passa por vários “errados”, para então chegar e conseguir reconhecer o certo. também não acho que por serem errados, o sentimento não é real, mas acho que faz parte do aprendizado, que todo mundo passa na vida… essa frase em especial grudou –> “e eu ainda consigo sentir o gosto do beijo mais estranho que já dei.” e eu lembro mesmo! TENSOOOOO! o.O
    beijo, beijo!

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