Stay

É festa. Em casa. Com vários amigos passeando e me parando pra comentar o andamento de tudo. Pra rir. Estou conversando com alguns amigos e ele me pega pela mão e me leva para um cantinho vazio, como costuma fazer quando estamos entre outros – o que acho natural. Mas, quando encosta na parede e, ainda segurando minhas mãos, sem que ninguém além de mim ouça, diz “eu vou embora”, fico completamente perdida. Porque imediatamente entendo que o embora não é dali, mas é de nós, da cidade, dessa amizade que complementa outras e é base de tudo o que tem me mantido sã nos últimos meses. E permaneço em silêncio até que ele repita: “vou embora. Voltar para casa. Não tem nada para mim aqui”.

Só consigo encostar a minha cabeça nele – sempre amei o fato da distinção das nossas alturas fazer com que ele seja sempre um colo para mim, minha cabeça reclinando exatamente no meio do seu peito num abraço – e começo a chorar enquanto ele disserta sobre tantas coisas da vida, da cidade, do trabalho e de nós dois, coisas que apenas eu e ele poderíamos saber, do descompasso dessa nossa amizade, da minha brutalidade natural que afinal não é considerada tão espontânea assim pelos outros, dos planos e promessas que discutimos ao longo do último ano, terminando com um “eu preciso ir. Promete que não foge de mim?”.

Só consigo pensar “mas é você que sempre foge de mim. Que sempre muda de repente e me deixa confusa quanto a coisas que deveriam ser simples e objetivas, que continua fugindo e fugindo e agora vai embora” e é a primeira vez que, reclinada naquele peito e forçando aquele corpo contra a parede, o que sinto não tem nem um pouco de ternura, nem um pouco de desejo, apenas raiva. Vontade de deixar ir. Tristeza por ter que ouvir tantos defeitos meus ali, dissecados, e não conseguir rebater com os dele – não por não conhecê-los, mas porque eles não me incomodam -, tristeza por não ter importância e raiva por ouvir um “não foge de mim” que converte a culpa toda da história para mim, quando quem está fugindo é ele. Amigos não fazem isso. Amigos não torturam a mente da gente assim.

E eu acordei chorando, com febre e sem saber se pedi pra ele ficar ou não.

Não adianta. Em que momento vou parar de ficar me culpando por tudo que acontece? Sempre que algo é bom ,eu credito a outras pessoas, a deus, ao universo, sei lá. Mas se dá errado, não canso de me culpar. Não é bem assim. Eu não tenho culpa pela indecisão alheia. Não posso mudar o fato de que algumas pessoas são arredias e outras não gostam de mim. Não tenho muito o que fazer quando alguém se nega a falar o que está acontecendo e começa a me evitar. Existem limites na insistência, não? Não é culpa minha, é?

Então alguém avise meu cérebro. Porque a realidade já rende pancadas fortes o suficiente. Não preciso ficar sonhando com pessoas que eu gosto dizendo coisas horríveis pra mim e partindo. Não mereço acordar mal e preocupada com os outros quando eles estão mais é querendo que eu suma do mundo.

E digo mais: em sonhos ou na vida real, só quem pode foder com a minha mente e o meu coração sou eu.

Os Nãomorados

Eles estão sempre ali: pra nos levar ao cinema, jantar, trocar mensagens de madrugada, morrer de dar risada em papos no metrô, viver cenas de sitcom, dividir a conta do bar, dar presente fora de época, dividir livros, crushes, crises, discutir relacionamento, compartilhar relacionamentos, aprender e ensinar, ter e causar ciúme – e cantar, dançar, passear no shopping, nas ruas, em festas loucas cheias de desconhecidos.

Alguns servem até para sanar eventuais carências com abraços, beijos, sexo, o que for preciso. Outros ficam melhor só na zona do conselho, do sonho, da parceria – nosso suporte pra compreender e não desistir do amor. Uma hora cicatriza, uma hora chega.

O que importa é que eles existem e estão conosco diariamente. São amigos e amigas que nos fazem felizes gratuitamente, que completam o nosso cotidiano as vezes tão sem sentido. Que são incríveis apenas por existir e querer pertencer ao nosso universo. E, como todo ser humano, que às vezes até são difíceis de lidar, mas já se tornaram indispensáveis e merecem ouvir um “Eu te amo” hoje (e sempre) mais do que ninguém.

Meu dia hoje é dos Nãomorados. 🙂

Tudo cicatriza

Cansa. Cansa porque de repente vemos tudo bem mais claro do que no começo, tudo muito menos perdido do que quando insistimos no medo: se não tô entendendo nada, vai ver é que é porque não tem nada pra entender.

Faz muito tempo que estamos jogando o mesmo jogo e nenhum arrisca o próximo movimento. Os dois ficam ali, parados. É cômodo, o empate. Ninguém ganha, ninguém perde. O problema é que assim todos sofrem. Nós, os outros. Fica tudo envolto na poeira das nossas dúvidas, dos nossos desencontros. As euforias desmedidas seguidas pelas crises de profunda tristeza abalando os dois e o resto do mundo.

Nós todos, imbecis.

Porque tem que avançar quantas casas achar preciso. Dar na cara mesmo e não ter medo de partir ou ficar, nem de fazer o que der vontade, quando der vontade. Alguém tem que ganhar, alguém tem que perder – e mesmo um empate só faz sentido quando o jogo valeu a pena. Não dá pra entregar os pontos, passar a vida pensando no que os outros vão achar, no que você ou eu deveríamos escolher. Paremos de ficar criando critérios malucos de seleção, de perfeição, de avaliação. Você não é perfeito, eu não sou perfeita, ninguém é. Não se engane, não.

Triste é quem fica se tolhendo por isso. Quem passa o dia se julgando e lutando contra as próprias vontades. Eu escolho não acreditar em nada disso: em perfeição, em ideal, em esperar as coisas acontecerem. Escolho ceder às vontades, passar por louca, pedir desculpas, sofrer a amnésia e a ressaca que tiver que sofrer. Escolho me entregar de olhos abertos, pular do avião sem saber se a cordinha vai ou não abrir o paraquedas na hora certa.

Se vou voar ou me estabacar no chão, não importa. Por alguns segundos, eu tive o que sempre quis. O resto é consequência.

A única coisa certa nessa vida é que vamos todos morrer. E eu escolho ser sincera comigo até o fim.

Quero ser infinita, sabe por quê? A vida acontece, meu amor. Quer você queira ou não.
Olhe pela janela. Os carros na rua. As pessoas seguindo pra lá e pra cá sem nem ao menos notar que estamos aqui.

A gente muda. A vida acontece.

E não sei quanto a você, mas tudo que não quero é passá-la me culpando por não ter tentado. Eu quero continuar assim, aceitando cada situação como uma nova tatuagem. Eu escolho, enfrento a dor, aguardo a cicatrização e aprendo a conviver com aquela marca para sempre.

Porque tudo cicatriza, meu bem.

It’s a long way down, but I feel alright. And the cops get in, and the crowd gets tight – take your tomorrow, pain and your sorrow and teach it how to fly.

Sei que começa a doer, mas quero sempre a verdade.

you pull my heart out, and I don’t mind bleeding

Talvez eu devesse amaldiçoar o desejo de simplesmente guiar sem rumo. Um erro, seguir assim. Passava das onze e todo o bairro estava vazio – é disso que eu gosto na periferia, esse toque de recolher que se instaura muito antes da madrugada, as casas apagadas e a avenida silenciosa e iluminada apenas pelos sinais. É como estar num cenário de filme, nada é real.

Se chovesse naquela hora, eu me sentiria Joel Barish em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. Mas o tempo estava seco. Gelado e seco. Eu me sentia verdadeiramente sozinha – exceto pela voz do GPS me guiando eventualmente “prepare-se para virar à esquerda a 200 metros”. Ah, a tecnologia. Liguei o rádio.

E aí tocou Lonely Boy, dos Black Keys. Foi aleatório e me pegou desprevenida. Ali, no deserto, no frio gostoso de São Paulo pré-inverno, era quase como se eu pudesse sentir os seus lábios macios nos meus de novo. Como se fosse a primeira vez, eu completamente enfeitiçada pelo seu sotaque carregado e as histórias que você me contou naquele vinte e um de janeiro abafado, histórias de longe e de perto, todos os corações que você partiu e ainda partiria, nós dois sentados num colchão em seu quarto.

Engraçado, faz tanto tempo.

Anos. E eu ainda consigo sentir o gosto do beijo mais estranho que já dei. Um beijo pra tentar quebrar o ar confuso que você criou com seu discurso ensaiado de que ora, eu sabia no que estava me metendo – e se o aceitava, era por minha conta e risco. E então sua mão repousando na minha cintura enquanto cobria minha cabeça com seu casaco, protegendo o que podia da chuva, ambos em frente à sua casa.

Eu me vi mais uma vez ali, partindo, mudada para sempre.
Sentindo-me tão esperta… Só que completamente perdida, tolinha.

Eu era tão jovem.

E nem faz tanto tempo assim, ora veja. Depois de você, pensei que não fosse conseguir gostar de ninguém. Depois de tudo, eu passei dois anos acumulando copos e corpos e me munindo de um discurso tão desprezível quanto o seu para fugir de algo simples: sentir de verdade.

Eu era mais jovem, sim. E faz algum tempo. Mas eu finalmente descobri o amor – e acho que talvez devesse te agradecer por ter falhado tanto comigo. Você me fez pensar. E ousar. Você me fez descobrir exatamente como eu não quero ser.

E só então entender que é sempre tão simples como tem que ser. Por mais complicado e cruel que pareça.

(e foi num show dos Black Keys que eu te vi pela última vez, de longe, um espelho do quanto eu mudei em tão pouco tempo. e como você continua o mesmo.)

Any of the time you keep me waiting, waiting, waiting.

Eu ainda sou tão jovem.