Natal fora de época

Todo Natal, na casa do vô Manoel, o Papai Noel aparecia sorrateiro ao final da noite. Pelo menos a minha primeira lembrança de Natal da vida (sei lá se de 92 ou 93 – só lembro de ser antes da Tainá nascer), é simples assim: estamos assistindo o especial Roberto Carlos e esperando a hora da ceia. A árvore está cheia de presentes. O bom velhinho entra pela porta de vidro da sala em que toda a família está reunida e eu falo, já descrente, que ele não existe – tentando descobrir como provar isso às outras crianças.

(Quando criança, era metida a sabichona. Vinha daquilo de até então ser filha única – a caçula da família toda, cheia de carinhos, atenção e de ouvir “nossa, como ela é inteligente!” o tempo todo. Com o tempo, descobri que todas as crianças recebem esse tipo de atenção e elogio – mas até então eu realmente me sentia assim… Especial.)

Enquanto o Papai Noel entrega tranquilamente os presentes, por descuido, vira de costas e eu posso ver seus cabelos loiros, lisos e cheios aparecendo por baixo da peruca. “É o tio Bosco! O papai Noel é o tio Bosco!”, eu repetia – os adultos sorriam, as outras crianças não entendiam nada, alguém me levou no cantinho e pediu para não contar pra ninguém. Meu segredo. Desde então, nos anos que seguiram, eu sempre acabava lembrando dessa história e imaginando se ele iria estar ou não vestido de Noel na próxima festa – hoje já não para as crianças daquele primeiro Natal, mas para os filhos delas, o que torna tudo mais incrível ainda. De quem vou guardar o segredo? O tempo passa rápido demais.

E a resposta, infelizmente, é não. Não vai ter mais tio Bosco vestido de papai Noel no Natal, nem fantasiado de seu Boneco perambulando na garagem da Nívea Floresta numa tarde de verão. As fantasias ficaram lá nos anos 90. E o tio Bosco partiu hoje, depois de lutar por um bom tempo consigo mesmo, depois de insistir bastante para ficar, já fraquinho, cansado e merecendo o repouso da eternidade.

Um dos tios mais doces da família (o que fica difícil de mensurar, porque só tenho pessoas sensacionais por perto – tanto dos Queiroz quanto dos Freitas).

Descansa, tio Bosco.

Já sentimos sua falta.

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