Abril

Abril é o mês em que completo um ano de agência. Logo ali no finalzinho, 27, na trave. 27 de abril de 2012 foi o dia em que trabalhei meio período na Polvora, peguei um táxi e fui parar no Itaim, um mundo novo, a criação da DM9 me parecendo infinitamente maior do que é hoje – porque demorei a entender que eu não era assim tão pequena nela.

É o mês em que planejei e paguei minhas férias e descobri que vou estar completamente sozinha em outro continente por um período imenso pela primeira vez. E percebi que nunca estive sozinha de verdade até então. Nem aqui. Isso mesmo: nem em casa.

E é em Abril também a primeira vez que me pego num avião, viajando sozinha para negociar um contrato da minha própria empresa. Isso bateu um pouco diferente na cabeça e no coração.

Há um ano, exatamente nessa época, eu já estava perdendo as esperanças quanto a mudar de agência e jamais imaginei que conheceria uma parceira incrível, transformaríamos uma brincadeira em projeto e viraríamos sócias. Mais: pensando em como fazer o bem, tendo ideias malucas e, sobretudo, nos divertindo. Então não é a minha empresa, nem o meu contrato, nem a minha ideia, permitam a correção – somos nós, eu e Jessica, e nossas conquistas e nosso projeto e nossos sonhos, diferentes e compartilhados. E tem sido interessante, mesmo que não possamos prever onde tudo isso vai parar. Porque é mais um passo nesse mundo de correr o risco e ver o que ele tem a nos oferecer.

Abril seria meu prazo pra encontrar um apartamento perto do trabalho e finalmente sair de casa – mas tá difícil. De qualquer forma, eu já sei que estou chutando a zona de conforto pra longe (não com muito esforço, confesso, porque ela também não anda TÃO confortável assim).

De certo modo, olhar pra Abril me encheu um pouco de esperança.

Acho que estou crescendo.

Ou talvez eu continue uma criança brincando de ser adulto – não importa: com um monte de coisas dando errado na minha vida, Abril me diz “segura a onda, Ari. se ainda não tá tudo bem é porque não tá na hora”.


I’m better sorry than safe,
better never than late.

uma tarde chorosa, duas amigas, três emails.

esse sábado o timing mais assustadoramente perfeito do mundo estava na minha caixa de entrada do email.
obrigada, ryane e lívia.


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“de que forma posso reunir o que sobrou? é nisso que você pensa o tempo inteiro, ainda que negue. você quer costurar os frangalhos, as sobras. o que recria é outra coisa, não é mais o que se desfez. e você quer um jeito de explicar, de contar a você mesmo: o princípio de todo fim. insiste no que é escasso. faz um bocado de tempo que nada disso tem algum sentido. mas você quer sentir o conforto de entender. que nome dar a isso que sobrou?”

mi locura es sagrada

Eu sou uma pessoa solitária. Nao é como se forçasse isso, é minha natureza: me sinto melhor sozinha. Ainda assim, diariamente pratico o pertencer. Porque é necessário, porque faz parte da sobrevivência. Porque ser humano é pertencer, eu me aproximo ao máximo de grupos e pessoas com os quais me identifico, tentando amenizar essa dificuldade que sinto em estar bem quando cercada de gente. E encontrei, é claro, gente que me faz bem e que gosto. Quando nada mais parece uma possibilidade divertida, sempre há uma maneira. Encho a cara de cerveja, vodca, rum, livros, jogos, o que houver ao alcance das mãos, o que mais vier – e tudo fica menos desprezível.

Não são as pessoas, sou eu: sinto que não pertenço de verdade, que estou sempre incomodando, que estou sendo inconveniente, que não encaixo, não sou bem-vinda. Que estou sendo exigente demais com elas e que não sou obrigada a isso, portanto basta me retirar quando incomodada.

Sabe quando o local é familiar, mas as pessoas não? Então, é mais ou menos assim que meu cérebro funciona. Sempre. Pense nisso. Uma hora, ou você enlouquece, ou aceita e segue em frente.

Os meu métodos são esses. Eu escolhi aceitar e seguir em frente, porque já enlouqueci faz tempo e isso não impediu que o mundo continuasse soltando a pressão sobre mim.

É uma merda tentar fugir, é claro. É uma merda não ter recordação nenhuma da noite anterior, ouvir causos e causos e não lembrar de nenhum, conseguir coisas que sempre quis e nem ter uma vaga ideia de como elas aconteceram contigo pra contar.

Mas temporariamente é bom.
Temporariamente é maravilhoso.

Eu consigo rir e fazer rirem, eu consigo ser idiota ou fazer os outros de imbecis, odiar menos a humanidade e me sentir mais próxima dela. Até o último copo a última bebida o último beijo o último táxi o último caixa vinte e quatro horas e o último tropeço na porta trancada de casa – as palavras que digo as bocas que beijo os corpos que esbarro as palavras que escrevo: tudo se consome antes da manhã seguinte.

Tudo são cinzas, tudo se vai.

Minha loucura é sagrada, minha loucura me mantém sã. É um presente maior que o isolamento.

Como não pensei nisso antes?

Say what you need to say

(do mais absoluto silêncio da casa. do nada. enquanto penteava meu cabelo.)

– O que aconteceu entre vocês, hein?
– Nada. Nunca aconteceu nada.
– E por que você se machuca assim? Não é horrível manter amizade com alguém que você gostaria de ter mais?
– Mas eu não quero mais que o que nós temos, não entendo o porquê de me perguntarem isso. Sempre fui franca a respeito. Com ele e com quem sabe o que eu sinto.
– …
– Às vezes gostar demais dele machuca sim, mãe. Claro. Mas na maior parte do tempo é maravilhoso. O que quero é exatamente assim: tranquilo e impossível. E quando não machuca, não me agrada o suficiente. Eu corro atrás de me machucar, sempre fui assim. Você sabe, lembra das coisas que eu gravava na parede bem antes de ser adolescente?
– Então tá. Mas eu ainda me pergunto onde é que você foi arranjar alguém assim: tão igual e tão diferente.
– Eu também. Eu também…

“have no fear for givin’ in, have no fear for giving over. you better know that in the end it’s better to say too much, than never to say what you need to say again. even if your hands are shaking and your faith is broken. even as the eyes are closin’, do it with a heart wide open.”

_logo depois desse diálogo, o PostSecret me lembrou que isso acontece no mundo todo, todos os dias.

Natal fora de época

Todo Natal, na casa do vô Manoel, o Papai Noel aparecia sorrateiro ao final da noite. Pelo menos a minha primeira lembrança de Natal da vida (sei lá se de 92 ou 93 – só lembro de ser antes da Tainá nascer), é simples assim: estamos assistindo o especial Roberto Carlos e esperando a hora da ceia. A árvore está cheia de presentes. O bom velhinho entra pela porta de vidro da sala em que toda a família está reunida e eu falo, já descrente, que ele não existe – tentando descobrir como provar isso às outras crianças.

(Quando criança, era metida a sabichona. Vinha daquilo de até então ser filha única – a caçula da família toda, cheia de carinhos, atenção e de ouvir “nossa, como ela é inteligente!” o tempo todo. Com o tempo, descobri que todas as crianças recebem esse tipo de atenção e elogio – mas até então eu realmente me sentia assim… Especial.)

Enquanto o Papai Noel entrega tranquilamente os presentes, por descuido, vira de costas e eu posso ver seus cabelos loiros, lisos e cheios aparecendo por baixo da peruca. “É o tio Bosco! O papai Noel é o tio Bosco!”, eu repetia – os adultos sorriam, as outras crianças não entendiam nada, alguém me levou no cantinho e pediu para não contar pra ninguém. Meu segredo. Desde então, nos anos que seguiram, eu sempre acabava lembrando dessa história e imaginando se ele iria estar ou não vestido de Noel na próxima festa – hoje já não para as crianças daquele primeiro Natal, mas para os filhos delas, o que torna tudo mais incrível ainda. De quem vou guardar o segredo? O tempo passa rápido demais.

E a resposta, infelizmente, é não. Não vai ter mais tio Bosco vestido de papai Noel no Natal, nem fantasiado de seu Boneco perambulando na garagem da Nívea Floresta numa tarde de verão. As fantasias ficaram lá nos anos 90. E o tio Bosco partiu hoje, depois de lutar por um bom tempo consigo mesmo, depois de insistir bastante para ficar, já fraquinho, cansado e merecendo o repouso da eternidade.

Um dos tios mais doces da família (o que fica difícil de mensurar, porque só tenho pessoas sensacionais por perto – tanto dos Queiroz quanto dos Freitas).

Descansa, tio Bosco.

Já sentimos sua falta.

jogo da verdade

saved

em algum momento da noite você me perguntou se eu acho que devíamos ter tentado levar essa relação de uma outra forma. se me arrependo de ter desistido fácil, se o culpo por não me querer. eu parei pra pensar um pouco mais a respeito (quando foi que desisti? nunca, ué. quando foi que o culpei? jamais). e foi bom, porque entendi o que faz de nós algo tão especial.

é que tem que ser leve. leve como quando você me olha logo após recebermos nossos copos de cerveja e sorri esperando um brinde (“mas tem que me olhar nos olhos como quem deseja meu corpo!”, você brinca), ou como me chama apenas para dizer que está bem, que está aí, que do outro lado do telefone alguém vive e pensa em mim, se preocupa comigo, quer compartilhar.

tem que ser simples. simples como um “vamos jantar amanhã?” “claro! só dizer hora e local”. simples como um encontro por acaso no metrô antes do expediente, com direito a um abraço apertado e um olhar que diz “seu sorriso vale meu atraso”. simples como acordar num dia difícil com um email que demanda: “sorria, hoje tudo será maravilhoso”.

e tem que ser sincero. sincero como quando você me conta que não lê aquilo que escrevo porque teme se encontrar numa das histórias – e eu rebato esse pensamento dizendo que você tem razão, porque se lesse iria se encontrar aqui por toda a parte.

eu sei, você nem faz ideia de quantas vezes liguei o rádio em dias de plantão e passei a tarde sonhando com o momento em que ouviria sua voz. quantas vezes peguei meu telefone para checar se você havia mandado mensagem e ele vibrou exatamente na hora.

você não sabe o quanto estou feliz por ter algo assim: leve, simples e sincero. algo diferente de tudo o que já sonhei pra mim – e, talvez por isso, tão bom. (:

e, pensando bem, é bom que você não saiba: porque tudo isso é tão doce quanto é assustador. mas eu jamais esconderia caso me perguntassem, porque é algo que eu não posso e nem quero controlar agora.

é leve, simples e sincero como todas as vezes que você me faz sorrir (e todas as vezes que choro em segredo): eu amo você.

Insônia

Eu sei, sou a guria com “Isolation is the gift,” tatuado nas costas em letras enormes.

Mas isso não significa que eu não deseje, eventualmente, coisas básicas como um corpo pra jogar o peso sobre o meu na cama e me fazer dormir assim, sentindo sua respiração fazer pressão nas minhas costas.

Ou companhia na cama pra acordar durante a noite e ficar observando seu sono, mexendo nos cabelos, encaixando o corpo por pelo menos alguns minutos – não muitos, que eu tenho calor, que isso me sufoca.

Às vezes sinto falta de ter alguém, sim.

E isso prova que posso ser bem contraditória – mas quem não é?

Especialmente quando se trata de (falta de) amor.

de um outro tempo, até, mas agora mesmo.

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na primeira noite em que nos encontramos, eu passei batom vermelho e caprichei no delineado dos olhos. deixei a minha franja impecavelmente reta e trancei os cabelos para o lado, tentando ser delicada como nunca havia sido e ao mesmo tempo não deixar de lado aquilo que sempre fui de fato. não queria nada e, justamente por isso, tudo parecia ser possível. mas o tempo foi passando e nós fomos nos aproximando e agora que eu enxergava o que queria e percebia que as possibilidades eram cada vez menores, aumentavam as minhas vontades: quanto maior o impossível, mais eu o desejava incondicionalmente.

eu quero, sei que não posso mas eu quero, sei que não devo mas eu quero: você e os encontros casuais, o seu passado que não conhecia de perto e ainda assim me machucava no presente, tudo o que foi e o que havia de ser para nós dois, eu não compreendia nada daquilo, mas queria tudo. tudo.

nunca soube o que são limites, não consigo nem mesmo falar sobre eles e por isso mesmo tentava tanto te impressionar naquele tempo: queria ser vista por você, queria ter certeza de que você sabia que eu estava lá – o que de fato aconteceu muito rápido, mas não como o esperado, e de repente você e eu vivíamos e éramos parte tão certa do dia um do outro que praticamente nao existíamos para nós, apenas éramos o mesmo, um só.

eu era parte de você que você não olhava, mas sabia que estava lá. aquele detalhe ao qual você já está tão acostumado que passa batido quando se olha no espelho – eventualmente você me aceitaria como essencial, mas ainda não. ainda era algo que inconscientemente sempre estaria ali, portanto não fazia falta. e isso equivalia à minha não existência mais uma vez.

poderia passar dias e dias presa naquela sensação errada de pretérito imperfeito, do passado que não foi. e eu passei, é claro. construindo castelos de areia e fazendo planos que sabia que não iriam se tornar reais. eu poderia viver assim para sempre, mas escolhi deixar ir. esquecer.

pra um dia poder olhar para essa página da minha vida e finalmente entender que a razão não está no que poderia ser, mas no que foi. e foi lindo, lindo demais para que eu consiga explicar.

muito embora eu tenha compreendido tudo tão bem.

go right ahead

mais de uma pessoa veio falar comigo sobre o último post e situações parecidas com a que ele sugere. com o fato de que você só pode responder por si. achei bacana, mesmo. porque é bom quando eu descubro que não estou sozinha nesse mundo de sofrimento (maria do bairro tá ligada no hard essa semana).

daí, numa dessas minhas tentativas de resposta mal calculadas – é pra sair uma linha e sai um livro – acabei resumindo algo que acho que deveria estar aqui.

bom, eu escrevi aquilo pra mim. pra reler a porra toda várias vezes e não esquecer. mas não é fácil mesmo desapegar, deixar ir, cara. porque demanda uma força absurda – e mais nada.

a parada é progressiva. meio como quando roubam teu celular, sabe? tu vai estranhar pra caralho no começo. agir como se ele ainda tivesse lá e de repente se ver tentando programar o cérebro pra pensar “caralho, já era”. vai rolar algumas vezes essa confusão – tu sente ele vibrando, mas não tá ali. o dum amigo aparece na mesa e por um segundo cê acha que é o teu que voltou… até que um dia, naturalmente, tu te vê acostumado a viver sem ele – ou com um novo, porque a vida segue e é preciso trabalhar com o que temos.

pode ser um aparelho mega foda de ultima geração, pode ser um modelo mais simples que o antigo, pode ser um igual. nunca vai ser a mesma coisa, mas acostuma.

tu só não pode parar tudo pra ficar tentando consertar o que houve: uma hora tem que parar de procurar o ladrão ou pensar duas vezes antes de gastar uma fortuna na assistência técnica, que seja. deixa ir, sabe? corre atrás do novo.

vai ser uma merda. e vai ser incrível. eventualmente vai ter que trocar de novo.

é assim. e é simples – pelo menos na teoria.

mas, como eu disse, na prática demanda um esforço…
a gente não precisa apagar a memória pra esquecer. só criar memórias novas.

eventualmente a falta vai bater como se fosse a primeira vez. mas aí, porra, lembra: já foi. já passou. everything that happens is from now on.

vira e mexe eu me pergunto: será que posso largar a publicidade e investir na autoajuda? mas no final eu deixo pra lá e volto ao trabalho pra poder investir o salário em livros, rum e cerveja.

e até que vale a pena.

nem sempre dá pra saber se é certo ou errado, mas sério: vai em frente. sempre.
do anything that you wanna do, go right ahead.