dezenove do nove

Caminhamos lentamente lado a lado, eu com meu riso ensaiado para ocultar a timidez e ele com sua expressão introspectiva e sempre sincera. Não combinamos o encontro, ele simplesmente aconteceu – muito embora quem me conhecesse tivesse suas dúvidas sobre haver ali um pouco mais do que sorte.

Então lá estávamos: eu indo embora escoltada por ele até a rua; os dois prolongando assuntos de ordem fática desde o momento em que entramos no elevador. O calor, a idade de ambos, as entregas previstas para o futuro próximo, a seriedade dos funcionários do prédio, o novo corte de cabelo dele, as minhas novas peças de roupa.

Já na porta, dou um abraço rápido e distante para me livrar logo do embaraço e ir embora enquanto ainda não me entreguei sem querer em algum comentário. A avenida movimentada parece ter sido engolida pela timidez dos dois. São muitos carros e nós aparentemente não ouvimos barulho algum.

Então ele, na contramão de tudo que eu esperava, segura-me pela mão e, num deboche carinhoso, solta ‘dá um abraço direito, por favor?’ sem esperar que eu tome atitude, puxando-me contra si e me acomodando em seu colo num longo abraço apertado do qual nos desfazemos corados e incapazes de olhar nos olhos um do outro sem sentir conforto e curiosidade.

O abraço que fez com que eu estragasse tudo semanas depois.

he is exactly the poem I wanted to write (mary oliver)

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