delírio de verão

nem sei quantos minutos faz que o disco acabou e a vitrola repete seu clac clac ritmado de quem aguarda uma nova tarefa para cumprir. foi quando ela iniciou as batidas que, descontrolada, rasguei as folhas amassadas do caderno que tu me deixou.

ouço o barulho do celular vibrando entre as almofadas e encaro-o depressa, na esperança de que seja uma mensagem tua – “hoje é o seu dia de sorte”, diz o visor iluminado -, é só mais um torpedo da operadora me sugerindo assinar seus serviços inúteis.

dia de sorte, sério? pior timing.

a prateleira cheia de livros está revirada e com exemplares faltando. tanta coisa tua na casa, a primeira coisa que tu fez foi encher a bolsa de livros.

os gatos até tentaram ir junto, agora se recusam a sair do banheiro, onde estão desde o primeiro dos gritos, como se o box lhes servisse de Porto seguro.

às vezes, entre o respirar e o tentar entender, os detalhes da realidade me escapam, e aí continuo o ritual de ódio e saudades encarando as manchas de sangue espalhadas em proporções desiguais pelo lençol, o chão e a porta. o cheiro de álcool ainda envenena o ambiente todo – ele quase me sufoca, mas eu não deixo. é o preço da minha liberdade. é o resumo do que fizemos conosco.

como foi que cheguei até aqui? quando é que o que chamavamos de amor virou isto?

pisquei e perdi, é tudo um borrão. já não me lembro nem de te ouvir chamando meu nome.

o único objeto que limpei desde a tua saída foi a garrafa de rum que restou ao lado da cama: saltei descalça entre os cacos de vidro, escorreguei de leve até a mesa e peguei na cozinha um guardanapo e alguns cubos de gelo. derrubei um pouco da bebida nos cortes e perdi algumas horas apenas tragando a tristeza e fazendo compressa pra ver se a dor passava, enquanto balançava ansiosamente as pernas. como se me importasse de alguma forma. como se fosse a maior herança que deixamos um ao outro: a dor física e algumas cicatrizes.

cansada de resistir, levanto do sofá mais uma vez e vou até a pia lavar as mãos. ironicamente, água e sabão fazem as feridas arderem pela primeira vez. talvez eu devesse ter ido ao hospital dar alguns pontos nisso, penso, e aí me lembro que sequer saberia o que dizer aos médicos.

meus chinelos pedem socorro no chão, em que a poça de sangue, suor e vodca divide espaço com os cacos de vidro e os pedaços de papel que aproveitam seus últimos momentos nessa casa.

em instantes, tudo o que já foi parte de ti aqui dentro se tornará apenas mais volume num saco cheio de sujeira arremessado na lixeira do condomínio.

menos a garrafa que quebrei nas tuas costas quando ouvi que irias partir. essa eu faço questão de guardar, ainda que aos pedaços, feito um troféu que ganhei sem merecer.

mesmo sabendo que quem perdeu fui eu.

um hambúrguer, uma cerveja e fritas, por favor.

Hoje foi mais um dos dias em que não fumei nenhum cigarro. No entanto, o sabor amargo da nicotina e do alcatrão e o arranhão na garganta caracteristico do abuso deles prevaleceram. Não sei explicar, parece que toda vez que qualquer coisa que remeta ao meu passado errado e inconseqüentemente inocente é mencionada, meu organismo acaba trazendo todas essas sensações de novo, mesmo que de forma leve.

De forma única.

Hoje é mais um dia para lembrar que muito do que acreditamos no decorrer da vida não é real. Que o “pra sempre” que ouvimos desde cedo em filmes, músicas, livros e conversas de adultos e crianças simplesmente não existe.

E que não, isso não significa que as experiências não possam ser incríveis. Não invalida nem desmerece todos os “para sempre” que em algum momento vivemos e acabaram de repente. Não impede que novos amores e esperanças e “para sempres” invadam nossas vidas como da primeira vez.

Casais se formam e se desfazem, pessoas morrem e outras nascem, famílias mudam e pessoas também… Até as melhores amizades podem perder força com o tempo – e nem por isso o amor é uma mentira.

Porque não há certo ou errado, ou quem determine por si só o andamento das historias. Não há culpados pelos inícios ou finais, porque ninguém é capaz de controlar o tempo e o que ele causa nas pessoas.

Hoje eu não fiz nada demais, mas pensei muito, mesmo quando não queria, em coisas que fiz em outros tempos. Sem saudades, sem remorsos: feliz.

É isso que torna a existência tão incrível.

não está funcionando

eu sei, ainda é dia dois. mas estou enlouquecendo. eu prometi pra mim que ia dar tempo aos meus planos para que funcionassem direitinho. mas eu não tenho tempo. eu não quero mais.

eu não aguento mais.

não está funcionando. não vou aguentar esperar muito mais tempo para fugir.

 

how to fight loneliness?
smile all the time.

shine your teeth to meaningless and sharpen them with lies. and whatever is going down, will you follow around. that’s how you fight loneliness: you laugh at every joke, drag your blanket blindly, fill your heart with smoke… and the first thing that you want will be the last thing you’ll ever need. that’s how you fight it: just smile all the time.