das cartas que encontro escondidas no meio dos livros,

a que mais me comoveu essa semana foi uma que te escrevi no dia em que soube que tu ias embora. madrugada chuvosa e eu no banco traseiro dum táxi cujo rádio ligado transmitia qualquer coisa de melancólica pouco antes do meu telefone tocar. acho que um daqueles sertanejos antigos que sequer lembro quem dos dois ouviu primeiro. o que sei é que partilhávamos do mau gosto do condutor.

“tá por aqui ainda?”, ouvi meu sotaque favorito dizer do outro lado da linha. “não, já a caminho de casa…”, respondi enquanto o motorista desligava o som e tua voz me dizia que a reunião havia acabado, que tudo agora era certo e a proximidade não ia ter o fim tão breve que eu imaginava, mas já tinha prazo pra terminar.

naquele tempo eu ainda achava te amar além do amigo e não sabia o que tu pensavas dessa coisa toda. naquele tempo eu carregava uma cruz enorme: a de ter dito o que sentia por ti do mais absoluto nada e de não ter tido resposta alguma, de estar confusa e pagar pelas minhas palavras de bêbada, de mais uma vez ter errado a mão na hora de medir a linha nada tênue entre o amor de irmão e a paixão. porque tudo pra mim é paixão e muito poucos são os irmãos que acumulo nessa vida.

naquele tempo, portanto, eu não estava feliz como estou agora. então o conjunto de palavras me parece muito melhor do que seria hoje, talvez porque da tristeza eu tire maiores verdades de dentro de mim.

ou não. mas prossigamos. dizia assim, escrito numa caligrafia quase que feita unicamente de borrões, o bilhete maldito que nunca chegou às tuas mãos:

“Queria dizer que odeio tua namorada. Porque ela te fez sofrer. Te fez querer ir embora daqui. Te fez uma ferida horrível que não posso ajudar a sarar. Mas, sobretudo, queria dizer que odeio tua namorada porque o teu amor foi dela um dia. O teu amor que em partes ainda é dela, eu sei, por mais que te veja fingir de forte diariamente. Eu nem sei o porquê do final entre vocês dois, mas é isso que me faz querer tanto vê-la longe. O que me faz querer tanto te estapear e dizer ACORDA.

Só que não posso odiar tua ex namorada. Porque se não fosse ela, também não teria te encontrado aqui na minha cidade. No meu prédio, na minha gravação, na minha vida. Se não fosse ela, teus dias e os meus talvez até se cruzassem na rede mundial de computadores, mas não iriam se entrelaçar assim. Nada de almoços, cafés ou mesas de bar.

Talvez eu não possa odiá-la. Mas é que é muito difícil te ver com data marcada pra partir e não ter a quem culpar pelo meu sofrimento. Um sofrimento egoísta – porque sei que tudo isso é pro teu bem, e ainda assim só consigo pensar no quanto estou infeliz. E enunca vou poder te contar nada disso.”

daí me pergunto hoje que ideias erradas eram essas que eu acumulei assim de uma vez [e em tão pouco tempo] pra despejar todas em ti num momento tão difícil quanto o que te via viver. e sinto um pouco de ódio não da tua namorada, coitada, mas de mim.

então lembro que conversamos pouco tempo depois, quando todo mal entendido acabou. tudo passa.

lembro que hoje tu e tuas memórias fracas não devem fazer a menor ideia de nada disso – e nem eu nisso pensaria não fossem essas cartinhas que meu eu do passado costuma deixar espalhadas por aí pra me pegar assim, desprevenida, e mostrar como costumo fazer dentro de pequenos copos d’água tempestades enormes.

tudo está tão diferente. tudo sempre vai estar tão diferente.

porque tudo acontece é daqui pra frente, guri. o que passou eu leio como se fosse um livro qualquer: causa lágrimas, eventualmente uma boa risada, mas no final… irremediável está. já foi.

e temos um novo começo, a cada segundo. tudo o que acontece é a partir de agora.


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