e todo mundo que a gente conhece

Um dos meus filmes favoritos da adolescência, “In The Land Of Women”, tem as duas cenas que mais vi durante os dezesseis anos, porque sempre me vi no Carter. Então, antes de tudo, a segunda cena: a que me faz me identificar com ele…

… e que resume o meu dia a dia muito bem: os protagonistas, Carter e Sarah, tem um diálogo íntimo e simples, e precisam se despedir. Um não gosta de partir sem ter dado a última palavra, o outro não consegue se conter e acaba sempre falando depois da despedida. Isso se repete durante o filme, e os encontros deles meio que se prolongam desnecessariamente.

É romântico, mas desnecessário.

Assim como os meus silêncios diários entre uma fala e outra, por medo de acabar sendo a última a falar algo. Ou me expressar errado e estragar tudo. Em todas as áreas da minha vida, veja bem, sempre fui a que não conseguia se conter. Mas ultimamente as coisas andam meio estranhas. Isso está me incomodando. Eu não gosto de ter a última palavra, na maior parte dos casos. Mas sempre desando a falar.

E a primeira cena mais vista da minha adolescência já esteve aqui antes… Bom, Carter conta um pouco sobre como é a vida real pra Lucy.

Eu nem sei por que diabos comecei esse post, no fim.

Ah, sei sim. Seu convite está aberto aqui e eu não sei como devo respondê-lo: se aceito ou não, se falo ou não falo, por que diabos todo esse silêncio, como eu chego mais perto assim, a tantos quilômetros de distância, e como faço para viabilizar a maldita hora do encontro.

O mundo lá fora é um caos, é inesperado, e não adianta eu deixar o medo tomar conta. Mas às vezes é difícil pra caralho.

das cartas que encontro escondidas no meio dos livros,

a que mais me comoveu essa semana foi uma que te escrevi no dia em que soube que tu ias embora. madrugada chuvosa e eu no banco traseiro dum táxi cujo rádio ligado transmitia qualquer coisa de melancólica pouco antes do meu telefone tocar. acho que um daqueles sertanejos antigos que sequer lembro quem dos dois ouviu primeiro. o que sei é que partilhávamos do mau gosto do condutor.

“tá por aqui ainda?”, ouvi meu sotaque favorito dizer do outro lado da linha. “não, já a caminho de casa…”, respondi enquanto o motorista desligava o som e tua voz me dizia que a reunião havia acabado, que tudo agora era certo e a proximidade não ia ter o fim tão breve que eu imaginava, mas já tinha prazo pra terminar.

naquele tempo eu ainda achava te amar além do amigo e não sabia o que tu pensavas dessa coisa toda. naquele tempo eu carregava uma cruz enorme: a de ter dito o que sentia por ti do mais absoluto nada e de não ter tido resposta alguma, de estar confusa e pagar pelas minhas palavras de bêbada, de mais uma vez ter errado a mão na hora de medir a linha nada tênue entre o amor de irmão e a paixão. porque tudo pra mim é paixão e muito poucos são os irmãos que acumulo nessa vida.

naquele tempo, portanto, eu não estava feliz como estou agora. então o conjunto de palavras me parece muito melhor do que seria hoje, talvez porque da tristeza eu tire maiores verdades de dentro de mim.

ou não. mas prossigamos. dizia assim, escrito numa caligrafia quase que feita unicamente de borrões, o bilhete maldito que nunca chegou às tuas mãos:

“Queria dizer que odeio tua namorada. Porque ela te fez sofrer. Te fez querer ir embora daqui. Te fez uma ferida horrível que não posso ajudar a sarar. Mas, sobretudo, queria dizer que odeio tua namorada porque o teu amor foi dela um dia. O teu amor que em partes ainda é dela, eu sei, por mais que te veja fingir de forte diariamente. Eu nem sei o porquê do final entre vocês dois, mas é isso que me faz querer tanto vê-la longe. O que me faz querer tanto te estapear e dizer ACORDA.

Só que não posso odiar tua ex namorada. Porque se não fosse ela, também não teria te encontrado aqui na minha cidade. No meu prédio, na minha gravação, na minha vida. Se não fosse ela, teus dias e os meus talvez até se cruzassem na rede mundial de computadores, mas não iriam se entrelaçar assim. Nada de almoços, cafés ou mesas de bar.

Talvez eu não possa odiá-la. Mas é que é muito difícil te ver com data marcada pra partir e não ter a quem culpar pelo meu sofrimento. Um sofrimento egoísta – porque sei que tudo isso é pro teu bem, e ainda assim só consigo pensar no quanto estou infeliz. E enunca vou poder te contar nada disso.”

daí me pergunto hoje que ideias erradas eram essas que eu acumulei assim de uma vez [e em tão pouco tempo] pra despejar todas em ti num momento tão difícil quanto o que te via viver. e sinto um pouco de ódio não da tua namorada, coitada, mas de mim.

então lembro que conversamos pouco tempo depois, quando todo mal entendido acabou. tudo passa.

lembro que hoje tu e tuas memórias fracas não devem fazer a menor ideia de nada disso – e nem eu nisso pensaria não fossem essas cartinhas que meu eu do passado costuma deixar espalhadas por aí pra me pegar assim, desprevenida, e mostrar como costumo fazer dentro de pequenos copos d’água tempestades enormes.

tudo está tão diferente. tudo sempre vai estar tão diferente.

porque tudo acontece é daqui pra frente, guri. o que passou eu leio como se fosse um livro qualquer: causa lágrimas, eventualmente uma boa risada, mas no final… irremediável está. já foi.

e temos um novo começo, a cada segundo. tudo o que acontece é a partir de agora.


Sobre o que mais me faz falta na ~vidaloka

Não são as festas, os amigos, a música, o álcool ou a (desa)pegação.

Eu sinto falta só de estar anestesiada e não ver a imbecilidade do mundo.

Acho que sempre foi o que mais gostei no ato de beber: automaticamente tudo de desinteressante deixava de me incomodar porque só eu existia. Só meus instintos.

Anestesia, sim.

Eu podia “participar” sem existir.

Existir demanda energias que não tenho – demanda aceitar o que não gosto. Existir demanda contato com outros seres humanos. E eu sou um ser que precisa de solidão.

Talvez não sempre, talvez não como os outros a conheçam, mas na maior parte do tempo e do meu jeito, preciso estar sozinha.

É nisso que eu penso quando lembro da frase que marquei na minha pele no final do ultimo ano.

“Isolation is the gift”, amigos. Quem me ama sabe que isso é verdade para min.

para um mês indócil

fugir com alguém por algumas horas para esquecer completamente dos problemas com muita risada.

fugir até sozinha, se preciso for. e voltar nova. 🙂

quantas vezes puder.

Cruz

hesitei muito em começar a me corresponder com meus amigos porque sei quão quebrada sou. sei que iria acabar num profundo mar de magoas e desabafos e a ideia de construir pensamentos e conhecer aqueles que amo melhor ia se perder rápido demais.

mas aí terminei o ultimo ano dando esse passo. e consegui acreditar que fosse funcionar porque, de fato, começou tudo bem. tudo ia bem.

até a pagina dois.

a pagina dois envolve as palavras saco cheio, tumor e internação; em ordem cronológica de aparecimento, todas ainda acontecendo. por enquanto isso é tudo que direi delas aqui.

o fato é que, mais uma vez, com motivos específicos combinados ao costume, perdi o chão.

e falei de mim pelos cotovelos. e estou aqui me sentindo limitada, enfadonha, insatisfatória, culpada.

e não quero mais incomodar ninguém, falar com ninguém, escrever pra ninguém, viajar com ninguém, trabalhar com ninguém.

eu não queria existir neste momento.

mas não tem switch on e off.

2013, nao estamos nem em seu vigésimo dia e eu já me sinto incapaz de carregar seu fardo.

é o tipo de coisa que acontece

você está lá, pensando numa pessoa e puf! magicamente chega uma mensagem dela. pequena, grande, que seja: sem que você tivesse enviado algo antes, sem que você mencionasse ou tomasse alguma atitude, a pessoa pensou em você também.

isso se repetiu hoje várias vezes, com relação a pessoas diferentes, sensações diferentes, mensagens diferentes.

em todas elas, eu tive apenas uma reação:

como é bom ter amigos queridos.

ainda não foi hoje que publiquei algo feliz

Estava toda feliz e escrevendo coisas alegres pela primeira vez no ano – apesar de uma alergia horrorosa que me derrubou hoje. Daí cheguei em casa e recebi uma noticia ruim, e lembrei (mais uma vez sentindo na pele) que o que fere quem a gente ama fere a gente também.

Nessas horas sou obrigada a admitir que não sou tão forte assim, sabe? E nossa, como é difícil.

tantas coisas pra dizer

meu coração aqui acelerando, todo fora de ritmo. talvez eu pudesse contar para o mundo o que se passa – mas aí isso deixaria de ser um enorme prazer só meu pra se tornar um pequeno detalhe para os outros.

não, não. deixa guardado aqui. deixa em segredo o bem que isso me faz. 🙂