charada

da primeira vez que eu te vi, pensei “quem diabos é esse garotinho? o que está fazendo aqui, entre nós?”. e na mesma noite, depois de ignorá-lo o máximo que pude, depois de mergulhar num mar de auto piedade regada a cachaça e muitas lágrimas, depois de dormir no banheiro, confrontar o inimigo e me humilhar diante de todos, conhecidos ou não, quando eu já havia perdido completamente a esperança de sentir algo bom naquele lugar, você caiu no meu colo sem querer e foi a solução para todos os problemas daquele dia.

e não, não vou transformar a memória daquela noite em algo lindo e emocional, porque não foi. eu não preciso e nem posso mascarar isso. foram nossos corpos brigando, isso sim: nossas bocas se beijando como se procurassem fugir desta dimensão e encontrar qualquer outra menos desconfortável, menos opressora, qualquer outro lugar no espaço. aquilo foi carne, foi um encontro inesperado, com sensações boas e que, a princípio, deixaram nada além de marcas físicas em nós dois.

na segunda vez em que te vi, tentei aceitar que você não era uma criança como eu imaginava até então. que nem culpa, nem arrependimento combinavam com a lembrança do que houve e que, apesar de todos os pesares – as piadas, as marcas, o constrangimento –, foi uma surpresa maravilhosa. da segunda vez que te vi, soube que você era um garoto incrível. que talvez nunca encontrasse ninguém igual. e eu tive orgulho de saber que havia estado com alguém assim, mesmo que de forma tão superficial. que, diferente de tantas outras ocasiões e pessoas passando por minha vida de forma semelhante, eu poderia ser sua amiga.

nossos encontros se tornaram mais frequentes desde então. não muito frequentes, é claro – mas você agora é parte da minha vida. um amigo que me orgulha mesmo de longe e sem saber. e a cada dia te enxergo muito mais como homem do que como um menino. a cada nova conversa (ou mesmo cada vez que observo você falando ou reagindo ao que outras pessoas falam apenas com o olhar), sinto que tenho muito a aprender com aquele garotinho que eu vi pela primeira vez vestido de Charada numa noite na Av. Consolação.

acho que por isso eu nunca me senti tão feliz como quando você disse o que achava de mim: porque sinto o mesmo. você é inteligente, é educado, é carinhoso e gentil. um dos melhores presentes que a vida me deu nesses anos – junto a todos os outros irmãos que ganhei, e que nos apresentaramm. obrigada.

foi um final de semana maravilhoso e eu quero mais disso no próximo ano. na vida.

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