O mundo é um moinho

euzinha aos 17.

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Aos 16 anos eu estava numa fase muito particular. Tinha feito uma cirurgia na coluna e começava o cursinho pré-vestibular. Pela primeira vez na minha vida, meus pais cortaram o cordão umbilical (por falta de opção) e eu ia sozinha de casa à Liberdade, e vice-versa.

Por mais clichê que possa parecer, naquele tempo “Liberdade” era então muito mais que o nome de um bairro, era o que eu estava experimentando de maneira confusa e ao mesmo tempo prazerosa. Passava o dia estudando (amava estudar), caminhando pelas ruas sozinha, tomando cafés e pensando no futuro que eu escolheria em breve, nos anos que se seguiriam e em que profissional deveria me tornar.

Eu tinha um daqueles aparelhos de mp3 chineses de 2Gb de memória e minha playlist era composta, basicamente, de Amy Winehouse, bossa nova e MPB. Muito sambinha bom, muita mágoa bem cantada.

Por um ano – um pouco mais, porque no primeiro ano das faculdades prolonguei essa onda – a minha vida foi ouvir sem parar a Chico, Caetano, Elis, Marisa, Maysa, Cazuza, Simonal, Adoniran, Cartola, Toquinho, Vinicius, Jobim, sobretudo Amy Winehouse. E vagar pelas ruas da Liberdade – depois pela Avenida Paulista e a Cidade Universitária – procurando um sofá vazio em um café pra ler e escrever.

Pra estudar sobre a contracultura, entender os movimentos que tanto admirava, mergulhar na geração Beat, no universo Punk que cultuei superficialmente até então.

E observar. As pessoas, as relações que ocorriam ao meu redor, a plenitude da cidade, da Avenida Paulista – que parecia tão grande comparada à minha pequenez! – tudo isso me deixava encantada, perplexa. O simples ato de atravessar as ruas mexia comigo de forma intensa, se tornava uma crônica, um conto, uma viagem pela imaginação cheia de perspectivas para o meu futuro: o fim da faculdade, que parecia tão distante.

Esse mês completa um ano desde a entrega do meu TCC. Um ano desde que o tal futuro antes distante chegou. E em diversos aspectos sou completamente diferente daquela Ariane que vagava pelas ruas, perdida e insegura, cheia de sonhos, de planos e de convicções que sequer me lembro. Uma Ariane cheia de primeiras vezes para explorar.

Ao mesmo tempo, eu sou a mesma Ariane. A mesma. Como se não tivesse crescido, como se os desafios apenas ficassem mais difíceis e os cenários fossem mudando.

Há seis anos eu era a mesma, com os mesmos sonhos, mas uma playlist diferente. Ou igual, não sei. Com centenas de livros a menos na prateleira, na mente e no coração. Com dezenas de experiências boas e ruins a menos para contar. Mas a mesma.

Aquela Ariane que cantava que o Mundo é um Moinho quase sem entender, hoje já viu vários de seus sonhos triturados e ilusões reduzidas a pó – e ainda assim não se deixa iludir quanto ao fato de ter amadurecido.

Porque tem uma coisa que não muda: continuo sentindo que preciso de mais. Mais livros, mais experiências, mais sonhos, ilusões, paixões.

Eu quero novos lugares que me façam sentir pequena em relação ao mundo como senti quando olhei para cima na Paulista pela primeira vez. A avenida onde hoje me sinto em casa – não porque sua grandeza diminuiu, mas porque eu cresci nela.

Não sei em que momento da vida a gente sente que cresceu o suficiente. Nem sei se isso de fato acontece.

E, pra falar a verdade, não sei se quero sentir isso algum dia. Porque não tem nada mais gostoso que o nó na garganta e o frio na barriga de ter que explorar e começar tudo de novo. E de novo. E de novo. Várias vidas vividas para completar apenas uma.

Até a morte chegar.
(Ainda é cedo, amor.)

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