na janela vazia

– você me confunde. todas essas idas e vindas.
– do que você está falando?
– …
– ?
– você sabe. esse desinteresse. e ao mesmo tempo essa cumplicidade. você sabe.
– não, não sei.
– ah, por favor. você parece não se importar nem um pouco e, segundos depois, toma qualquer atitude parecida com uma declaração de amor. se eu tivesse que descrever a pessoa perfeita, mesmo tendo demorado para notar o quanto faz sentido, seria você. você e o seu cuidado para não invadir meu espaço, seu carinho e atenção especiais, sua ética e sua inteligência. e eu não isento você dos defeitos, não me tome por boba. consigo visualizá-los, sim. posso fazer uma lista deles. mas isso só me faz gostar ainda mais.
– você está dizendo que…?
– somos grandes amigos. por anos você cumpriu o papel do amigo que eu sempre quis ter ao meu lado. cheio de sentimentos, mas com um lado racional também. eu estava cega e a resposta sempre esteve muito perto. você é a pessoa com quem sonho passar o resto da minha vida.
– mas você sabe que…
– eu sei. não fala.
– eu preciso falar. preciso. você sabe. só existe um problema na sua teoria: eu amo um outro alguém. adoro nossos convenientes e inconvenientes, mas não é  por você que estou apaixonado. não agora.

Alguns fatos aleatórios que preciso botar para fora*

– algumas pessoas acharam que isso de enxergar os detalhes escondidos nas entrelinhas era incrível. talvez o meu texto passe essa ideia. mas vou dar uma dica para vocês sobre o que acho que é uma maldição: como a maioria das pessoas não enxerga esses detalhes, muitas vezes você é julgado como uma pessoa fantasiosa, que enxerga coisas onde não tem. o que te deixa meio paranoico quando as situações estão relacionadas diretamente com suas relações interpessoais. o que te faz nunca acreditar que alguém esta de fato afim de você porque você enxerga a química antes, mas não pode intervir pra não causar o desconforto do talvez. o que te faz ficar se julgando e se manter sempre na defensiva. é uma merda.

– não aguento mais esse meu bloqueio quanto a tomar a atitude. eu sou super tranquila para chamar as pessoas para sair e dar risadas, para beber, para qualquer porra que seja. mas a partir do momento em que fico interessada por elas, imediatamente tenho um bloqueio. em resumo: você nunca vai me ouvir contar que chamei alguém por quem estou apaixonada para sair. e isso está me enlouquecendo.

ou alguém acha que eu gosto de não ter controle sobre as situações e fico esperando a vida me trazer as coisas prontas?

– tô com a sensação frequente de que estou exatamente onde eu queria estar. é maravilhoso. mas também é confuso, é claro. afinal, não estou vivendo às mil maravilhas desde que cheguei ao destino. e embora tenha passado um tempão sofrendo muito por isso, embora reclame eventualmente, o meu tesão pela vida está impressionante nos últimos dias. até otimista eu ano sendo. será que todo mundo é sempre assim tão contraditório?

– por falar em reclamar: acho muito babaca quem fica magoado por causa de unfollow. ninguém é obrigado a se seguir. mas essa semana, confesso, fiquei fora de mim tamanha a raiva que senti quando alguém que eu gostava deixou de me acompanhar. não se engane, não foi o unfollow que doeu – alguns dos meus melhores amigos não me seguem/não são seguidos por mim. o que doeu foi a indireta completamente desnecessária que a pessoa mandou ao fazê-lo. vou compartilhar uma coisa que me chateia muito na internet: aqui todo mundo é muito corajoso, perfeito e adora brigar.

é muito fácil pedir para as pessoas serem positivas e ser escroto com elas ao mesmo tempo. internet é foda. mas o que mais me diverte nessa rede mundial de computadores é gente que se faz de coitada o tempo todo e depois conta vantagem. malandro é malandro, mane é mané. pode crer que é.

*porque é pra isto que este espaço me serve há cinco anos.

hiding my heart away

Algum dia, em algum momento da sua vida, você vai ter essa surpresa.

Alguém que nunca viu antes vai saltar na sua frente, pode ser pessoalmente, num vídeo, numa foto, numa história qualquer. Pode ser em todas essas situações, como num aviso do destino: tem alguma coisa aqui que você está deixando escapar, foco!

E você vai se apaixonar por essa pessoa. Uma dessas crushes à primeira vista/ouvida. Aquela paixão pela ideia de alguém, e não por esse alguém de fato. Pelo menos no começo.

Porque a partir de então várias coisas podem acontecer. Você descobre que a pessoa está muito longe, namora, tem uma orientação sexual incompatível, não existe. Ou que a ideia que criou dela não existe. A crush passa ou você aprende a conviver com ela.

Mas tem uma possibilidade – a mais cruel de todas, devo dizer – que ninguém quase nunca espera: por acidente, vocês acabam dividindo espaço e tempo. Muito – ou pouco, mas o suficiente para interferir no processo de esquecimento.

E mesmo com um dos impossibilitadores acima mencionados existindo… Aproximam-se. E você descobre que a pessoa que achava ser incrível é ainda melhor que isso. Tantas coisas em comum. Tanto do mundo a conhecer juntos. Mas não diz nada. Porque fica tudo explícito no seu silêncio: toda a negação.

O tempo passa e é como se o destino apenas estivesse brincando com os dois. Provocando. Ou o destino não tem nada a ver com isso? Não importa: vocês são próximos agora. Tão próximos quanto poderiam ser. Mais do que poderiam ser? E a crush, que adormeceria em outras circunstâncias, vira uma paixão ainda mais devastadora.

Na verdade, não uma paixão. Um conflito interno profundo.

A dúvida entre pensar em si mesmo ou pensar no outro. A angústia de cogitar o Nós todos os dias sabendo que ele não vai acontecer. Não como o previsto. A espera cada vez mais angustiante. Os sinais que não tem significado nenhum se transformando em tudo que de mais significativo você tem para se agarrar no momento.

Você chora. Ri. Compartilha o que há de bom com o outro lado e nem cogita dizer o quanto há de saudades e paixão em tudo o que faz. Afinal, ele está longe. Completamente fora de alcance.

E bom. Nem pensar em se movimentar e estragar tudo… Porque você sabe que no final tudo se acerta.

A única questão é: quando é que chega o final?

 

 

 

“And I wish I could lay down beside you
When the day is done
And wake up to your face under the morning sun
But like everything I’ve ever known
I’m sure you’ll go one day
So I’ll spend my whole life hiding my heart away
And I can’t spend my whole life hiding my heart away”