i’m coming home

 pode apertar o play antes de começar. assim você entende melhor.

não é como se eu olhasse pela janela e pudesse ver acontecendo. toda essa confusão só é irremediável agora exatamente por não estar lá fora, mas dentro de mim.

quando pequena, uma professora reclamou com minha mãe pois acreditava que eu dava atenção demais aos detalhes. “vai ser escritora a guria”, ela dizia, e outras depois repetiram. minha mãe encorajava, eu sonhava com isso e nem de longe a loucura aconteceu.

mas havia a fixação nos detalhes. pensei que tivesse ido embora após anos ligada à tecnologia, ao desvio de atenção e às tantas informações inúteis que filtramos automaticamente durante o dia, mas a verdade é que sempre esteve ali.

não um detalhismo calculado ou previsível, e por isso passou batido por tanto tempo. é uma habilidade natural de, por algum motivo que desconhecemos, captar detalhes que ninguém notou antes. colocá-los no radar. ver as coisas tomando forma.

e sofrer muito por enxergar algumas coisas antes de acontecerem de fato.

mas também sofrer por saber ver tanto do mundo e tão pouco de mim: apenas uma imagem distorcida no espelho, um aglomerado de cicatrizes, um desejo profundo de ser. simples assim.

e, a execução plena resultando no não pertencer. a lugar nenhum, a ninguém, a coisa alguma. para ser por completo, sem intervenções, sem medo, acabei abrindo mão disso: de ser parte do outro.

eu construo pontes entre pessoas muito parecidas e mesmo sem algoritmos sei quando são feitas umas para as outras – não pela eternidade, pois nela sequer acredito – mas naquele momento. e não enxergar para dentro, não enxergar do avesso, apenas ser – sem confundir o reflexo absurdo no espelho – é angustiante.

porque quando consegue notar os detalhes mais imprevisíveis de desconhecidos e não sabe identificar as sensações mais simples na sua vida, o inimigo começa a ser você mesmo.

não é como se não fosse aparecer um remédio logo ou como se esse sofrimento todo não compensasse de alguma forma – aprendizado, que seja. é só que a sensação de que o remédio está mais longe do que deveria e que algumas feridas poderiam ser evitadas dura tempo demais.

é só que incomoda saber que consigo ajudar a todos, menos a mim.

estar com o controle não é de todo mal. estar sem ele é desesperador.

 

e ainda dizem que o inferno são os outros.

[a quem interessar possa, esse é o milésimo post neste humilde blog]

2 comentários em “i’m coming home”

  1. Isso de perceber cada detalhe aconteceu comigo quando comecei a fotografar, eu penso nisso o dia todo, às vezes vejo uma cena num canto e só consigo pensar que isso seria uma ótima foto! quando estou com a minha câmera aproveito, o ruim é quando vc não leva e fica só pensando como poderia ter feito uma foto massa..

    Ariane: Oi, Fernanda! Quando comecei a fotografar, tive a sensação de que havia acabado de virar a mulher-aranha! Parece que os sentidos da gente se aguçam mesmo. Dá até culpa quando a gente perde a foto? A sensação do texto é parecida. Diferente, mas parecida. Fiquei feliz de ter conseguido expressar! 🙂

    Obrigada por comentar. Beijo

  2. É a velha história de que a pessoa mais amiga, mais companheira e que sabe como e as respostas pra ajudar todos ao seu redor é também a que não sabe ser ajudada, que não pede ajudar e não sabe como resolver seus próprios problemas.
    Eu consigo te ver assim mesmo. Você sendo onipresente, estando com vários grupos de amigos, fazendo várias coisas e isso é uma forma de você evitar procurar a resposta pra algo que você nem sabe se existe. É focar no que você sabe e hope for the best, sabe? Eu consigo me identificar porque eu já fui bem assim.

    Algumas coisas mudaram, mas eu ainda continuo sem saber o que fazer comigo.

    Ariane: Sabe, Tany, a gente não tem muito pra onde escapar, por mais que tente, não é mesmo? E bom, você pegou um pouco da minha essência sim. Tem mais que isso. Mas você vai descobrir sozinha com o tempo. Stay close. <3
    Beijo

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