catorze de maio

começou com uma garrafa de rum e algumas verdades fragmentadas em mensagens no celular.  intimidade.

da segunda vez que pensei nisso havia apenas uma mesa, uma caipirinha e algumas cervejas entre nós. consolação. e de repente uma pizza caindo da bandeja e luzes distintas piscando em todas as direções, e fazendo com que meu estômago seguisse um ritmo ainda mais acelerado que o coração, que pulsava descontrolado. talvez por medo, não sei, o que acontece é que você estava ali. esteve ali. e todas aquelas pessoas estranhas que iam e vinham ao nosso redor não importavam: não importava sequer a voz daquela negra linda e sensual que ambos amávamos cantando que encontrou amor onde não havia esperança (embora isso estivesse acontecendo conosco também).

podia fugir. dizer que era a cachaça, a vodca, o rum ou a cerveja, mas a verdade mesmo é que era eu, só eu ali dizendo tudo o que eu sentia e planejava para nós – e recebendo em troca teu recato e timidez, teu receio e teus traumas, a investida das tuas amigas mais atraentes, até o momento em que te olhei nos olhos, peguei pelos braços e beijei pela primeira vez, dizendo “saiam daqui que esta é minha” e tentando protegê-la do mundo mesmo quando nao era necessária defesa alguma.

e eu não sentia segurança ao teu lado: era como se possuísse uma jóia preciosa demais para que pudesse porta-la sem correr o risco de um assalto, um roubo – até mesmo o risco de morte apenas por tê-la só para mim.

mas tudo muda e nossa história mudou: se foram minhas palavras acariciando teus ouvidos ou teus votos de confiança me abrindo portas, não sei: só sei que um dia estavas lá, a porta, dizendo me querer tanto quanto e até mais do que eu mesmo quis qualquer coisa um dia. apaixonamos?

e os dias agora talvez tivessem mais cor – as músicas certamente faziam mais sentido – simplesmente porque escolhemos enxergar assim. salas de cinema, teatro, cantos escuros, banheiros, festas, ruas, casas aleatórias. sempre a tua vontade sobre o meu descontrole, sempre tua voz sobre a minha resistência, sempre tuas neuras sobre os meus interesses distintos.

até que um dia eu tinha tua boca me pedindo de perto e baixinho pra que usasse teu corpo ali mesmo, como bem entendesse – e eu mal entendia o que se passava, mas soube pelo peso da tua repetição (ora tristeza e solidão, ora  instinto) que deveria obedecer. ainda que com resistência, medo, frio e dúvidas, encontrei uma parte de ti que não achei que fosse tocar tão cedo – uma intimidade tão convidativa e inesperada que decidi explorá-la, mãos, olhos, boca, nariz, coração. tudo ali era uma forma de me ligar à tua carne, de me entranhar em tua pele e ser teus ossos nos meus ossos, tua alma na minha alma.

resisti o quanto pude entre teus tremores, as tuas mãos guiando as minhas, minha boca na tua, meus olhos apenas em ti e mais nada, um quarto avulso, uma rua perdida. naquele momento, ali, naquele canto escuro, vendo tua silhueta nua e trêmula, eu pereci. bem que a vida tentou me tirar de ti enchendo-se de obstáculos, questionamentos e intolerância, mas já era tarde demais.

desde então (um, dois, três, dez meses venham: é da nossa distância que me alimento e são o tempo e as definições humanas que me perturbam e assolam ainda mais) não há nada além de ti que me possa consertar.

só te peço paciência. por algum motivo eu gosto de viver assim, do errado, do irremediável, do perdido. e é assim que quero continuar, ao teu lado ou não: sem conserto. desconcertada.

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