decência

dentre as doses e garrafas viradas, os cigarros alheios e os próprios e as queimaduras nos dedos; os monstrinhos guardados naquele canto íntimo, que acreditava que ninguém ia achar, acabaram saindo para passear de mãos dadas com a vodca, o rum e os marlboros todos mandados pra dentro.

às vezes a gente passa da conta. entra num loop infinito de amigos, bocas, derrapadas no asfalto, lágrimas, hematomas surpresa, aquela insistência chata de bêbado, luzes, cores, sexo (ou quase isso), prazer e dor. o dinheiro vai e você não vê, os amigos vêm e você… bom, faz o que pode para se manter ali, mesmo já com a alma longe. no outro dia, acorda sozinha na cama, o rímel preto escorrendo pelas bochechas, os olhos inchados, as lembranças em fragmento e o corpo num estado entre a leveza incontrolável e o peso de uma tonelada.

foi sonho, foi real, foi a vodca?

você sou eu e sinto que faltam diálogos às vezes. a gente precisa se entender pra parar de se torturar. esse boicote que por tanto tempo instauramos uma à outra não dá certo. vamos nos divertir. você sou eu e, sendo eu, qualquer veneno injetado em mim faz mal às duas. mas sua forma de ver a vida me vale muito: porque eu tenho medo e sinto culpa, e na maior parte do tempo te enjaulo e nos tranco num quarto, atrás de uma tela, refugiadas nos livros, vivendo imaginariamente as histórias alheias. e você me leva às ruas, é alma entregue, quer que eu me desfaça, me desnude, não reprima, seja feliz – não importa quanto custe. não posso te libertar pra sempre, mas enquanto puder te ver solta agora eu vou lutar para que fique. você sou eu sem um pingo de decência. e todos os dias eu acordo esperando que apareça e me faça sentir viva de novo.

~

sempre que caio perdida pela augusta tem uma canção de tatá, maranho, cortez, souza e trz pra embalar minha ressaca e me lembrar de que isso é natural. assim eu abro as cortinas, dou com o pé na porta e vivo o próximo dia sem dever nada a ninguém. e não, não me dou por vencida e muito menos dou satisfação.


4 comentários em “decência”

  1. Faz um tempo que eu perguntei para a senhora se você achava que a faculdade de jornalismo, de alguma maneira, ensinaria a escrever bem… são textos como esse, cheios de graça, prazer, ressaca e música que respondem minha pergunta.

    Dá até pra lamber os dedos! Dilíça!

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