mortos-vivos

aquelas pessoas que não nos fazem mal, mas também não nos acrescentam nada e que, pelo nosso próprio bem, optamos por apagar completamente de nossas vidas.

(então que em algum momento estamos vivendo normalmente e uma delas —  sempre a que julgávamos morta a mais tempo — aparece subitamente em nosso caminho, causando um desconforto estranho, mas passageiro. porque não somos devorados senão uma vez — e o que fica mesmo, no final, é a certeza de que tudo está em seu lugar. está tudo bem.  uma vez morto, não importa quão vivo lhe pareça o indivíduo: não fará falta e é incapaz de causar qualquer mal.)

lembrando que o mantra desta que vos fala sempre foi tudo passa.

e teve boatos de que eu estava na pior

faz algumas semanas que tou só nas frutinhas. já tive até ALUCINAÇÕES pela falta de açúcar, mas aí foram-se 4kg em uma semana e ó, tô numa boa, continuemos assim, faltam só mais 25kg pra eu voltar a um peso aceitável e poder ser chamada de “gordinha”. só que é sempre assim: começo a fazer dieta FOR REAL, direito, sem refrigerante,  fast food e chocolate diários, e a resistência vai abaixo.

eu não gosto de ficar doente. já teve um tempo em que eu curtia, fazia charminho, adorava os dias de molho da escola, sendo o centro das atenções e do carinho da mãe. mas hoje, com 21 anos, sozinha em casa, em férias forçadas, em ano de tcc, essa não parece a opção mais agradável. porque amigo, se você curte ficar com uma dor horrível que não te permite nem falar, embaixo do edredom, se contorcendo tamanha a febre, suando e tremendo ao mesmo tempo, sem ninguém pra te ajudar… masoquismo não explica.

então, quando o médico me disse “a garganta está muito inflamada”, eu já sabia o que ia acontecer.

“você tomou amoxicilina recentemente?”
“não. tem mais de um ano desde a última vez”
“certo. então é isso. amoxicilina de 8 em 8 horas, por 8 dias”
“você não tem uma injeção?”
“INJEÇÃO? só tenho benzetacil”
“imaginei. então, vou ficar com a benzetacil.”
“você já tomou alguma vez? sabe que dói, né?”
“sei. mas eu vou ficar com ela mesmo”
“SÉRIO? mas dói muito! tem certeza? eu não tomo nem a pau”

em resumo, ficamos ali uns cinco minutos, ele tentando me convencer de que benzetacil dói, eu explicando pra ele que, olá, não tenho medo de dor e só não quero ficar doente. injeção é muito mais eficiente, muito menos desconfortável para quem odeia tomar remédio. e quando ele finalmente aceitou, pediu pra que eu sentasse na sala de medicação e esperasse. aí vem a enfermeira, com um sorrisinho sádico de canto de lábio:

“você é a Ariane?”
“sim.”
“seu médico avisou que você vai tomar benzetacil?”
“avisou”
“hm, ok. vou ali preparar e já te chamo”

minha mãe, que me acompanhou e estava endossando o coro do médico, desacreditou de vez.  e eu fui pra salinha de procedimento com a enfermeira numa boa. depois de perguntar da minha cicatriz na coluna — e, em seguida, pedir desculpas pela indiscrição — ela preparou a seringa e recomeçou o papo.

(enfiando a agulha) “dói essa picadinha, né?”
“pouco.”
“pois é, mas o líquido dói de verdade.” (risos) (começa a injetar)

nem doeu tanto, amigos. só curti um enjoo automático e uma sensação de CADÊ MINHAS PERNAS? então aproveitei a leveza rara e saí com aquela cara de FUCK YEA, pedindo somente uma coisa: “me leva direto pra casa” .

ok que eu podia contar de como fiquei verde de repente e quis estapear a enfermeira pelo tom sádico dela, e de como minha mãe me incomodou desde então perguntando se estava tudo bem. mas quer saber, o que me importa acima de tudo é que eu acordei OUTRA PESSOA. garganta quase sem dor, cabeça mexendo normalmente (ontem não podia nem levantar ;~) e respiração normal novamente. ainda estou doente, sem voz nenhuma, mas não estou mais morrendo, então posso dizer que tá tudo uma maravilha por aqui.

 

…menos pra minha bunda, que acordou inchada, dura e intocável. mas sei lá, sentar nem é algo muito útil mesmo, né?