o lado par do brinco-ímpar

lonely mornings by ~panibe


eu não valho nada. sei disso quando lembro das vezes em que ouvi a nossa música e tive vontade de falar a ela (como quem confidenciava inocentemente) da falta que sentia do brinco que perdi no último de meus romances. “sempre perco quando durmo com alguém”, eu diria, e contaria de quando sumiu a delicada argola de ouro branco do nariz ou parte da minha joia favorita em noites de muito álcool e furor algum. depois, como quem não quer nada, descreveria aqueles pedaços meus que ficaram na tua casa — um ou dois, não lembro — na esperança de que um dia ela encontrasse ao fuçar na tua cabeceira, mesmo que sem querer, e juntasse as pontas, desfizesse os nós, descobrisse tudo.

eu tive (várias vezes) vontade de destruir vocês dois, não por te desgostar ou por achá-la insuficiente, não mesmo. apenas porque era estranho saber que estavas real e visivelmente interessado naquela guria — talvez nem tanto, mas certamente muito mais do que jamais pudera imaginar alguém se interessando por mim. e eu sabia que eu não valia nada porque não tive forças de dizer a verdade a ela e destruir a amizade que construíamos — gostava dela –, nem de culpá-lo — porque quem escolheu aceitar tudo isso fui eu, antes mesmo de começar, antes mesmo de saber que um dia teria aquela guria ao meu lado me contando em pormenores o que sentia por ti. também porque no fim não havia mesmo culpados — o jogo estava limpo, como deveria ser.

e quer saber? eu gostava de não oferecer risco, gostava de estar na cama e constatar que não valia nada, que era a dona dos brincos-ímpares pela tua casa e a qualquer momento podia estragar tudo, criar confusão e rir do final — fosse ele qual fosse — mas que preferia calar, e só me importava em continuar assistindo as coisas darem certo para vocês, fosse como fosse. eu não valho mesmo nada. e quem diz isso sou eu, toda vez que me meto numa nova encrenca. porque sim, eu adoro encrencas — e cada vez que evito uma e vêm outras mil atrás de mim, não resisto e abraço o caos, exatamente como aprendi contigo. eu só espero que ela nunca te descubra assim, como te conheci, tão o oposto do que pregas. e espero de verdade que jogues meus retalhos no lixo, para ninguém ver.

sobretudo que sejas feliz, e ela também, porque às vezes parece que tu amas aquela esquisita.

e eu que me foda toda, que é isso que me faz sempre tão feliz.

[inspirado nesse texto que a Lia compartilhou no reader + um diálogo entre amigos]

not worthy anymore

estar destruída por dentro há meses e fingir todos os dias que não, não é nada, está tudo bem, vai passar, maturidade é isso, etc. e aí, num dos piores dias da vida (as dores vão vindo à tona, as pessoas vão indo embora), ouvir jeff buckley cantando hallelujah e simplesmente desmontar, virar água, chorar olhando para o computador enquanto tenta pensar em sustentabilidade ou hipertexto ou qualquer outra coisa que a profissão lhe exige, como se isso bastasse para reconfortar — e não basta, só aprofunda ainda mais a dor.

(baby, I’ve been here before. está difícil e não se sabe se ainda vai aguentar muito tempo antes da explosão final.)

estou viva

mas, pro bem ou pro mal, bem mergulhada em projetos [vitroleiros, meu trabalho, faculdade y otras cositas más].

se procurar dá pra ouvir minha voz de traveco e minha boca suja numa discussão por aí.