retrato da blogueira quando jovem

ultimamente tenho sentido falta do tempo em que o blog era o meu quartinho escuro. quando eu vinha aqui, botava tudo pra fora e sempre tinha alguém que comentava comigo, compartilhava experiências e tudo o mais. que ria e chorava junto. era adorável especialmente quando não precisava medir as palavras porque estava sendo observada pela família, pela faculdade, pelo trabalho, por mim mesma. quando não havia esse policiamento. mas passou, faz anos — quase dez, por sinal. e hoje o que mudou não foi só a internet ou a maneira como lidamos com ela. com toda a liberdade do mundo, estamos ainda numa prisão, eu sei. mas o problema maior não é esse: é que eu não sou mais criança. só isso. passou a fase de declarar um amor por dia e expor confissões aqui e lá. passou da hora de trocar o sonho de ser a power ranger amarela (só porque ela era japonesa) pelo  de uma carreira, uma família, uma vida que vá além de levantar, trabalhar, estudar, comer e, eventualmente, surtar para todo mundo. não sou a heroína que era em 1995. e o melhor que eu faço, na maior parte do tempo, é ficar quieta.

o problema é conseguir.

(all those unwanted comparisons)

Foram bons dias e tentativas nem um pouco sutis de que não parecesse nada — não era — até que sumisses de novo. Já era previsto, desde o início falávamos das tuas mulheres e dos teus planos e qualquer um que alguma vez já tenha trocado duas palavras contigo sabe que não és e nunca serás de ninguém senão de ti mesmo. Mas foi engraçado poder ter uma perspectiva de como ages por dentro da carcaça inventada, os modos tão carinhosos e doces que poucas vezes alguém já teve comigo.

Porque naquele momento eu te servia, e tu me servias, então estávamos bem. Eu podia acordar no meio da madrugada com tua boca na minha, querendo atenção. Travar batalhas contra o teu desejo que me impedia de pegar no sono. E depois que cochilássemos, a ressaca dos cigarros da noite anterior me faria hesitar antes de levantar a buscar água, e depois comemorar a glória de poder então sentar ao teu lado e observar teu sono tranquilo. E como éramos iguais, almas gêmeas. De repente e sem menos ou mais, descobrir que não era bem assim, e em ambos os lados havia alguém especial, e não éramos feitos um para o outro, mas um do outro, um como o outro, irmãos.

E ali, naquela cama, num adeus silencioso enquanto dormias, aquele era o nosso fim.

someday sunny sounds will soothe me
but it won’t happen soon
‘cause the cloud you left hanging over
is raining like a mean monsoon

Pitty, SUA LINDA.

Daí, depois de enrolar por quase um mês, comprei a Inked #01.
Poderia ficar horas narrando, mas deixarei que as imagens falem sozinhas.




Parei de respirar pra sempre.

Bukowski, esse boca-suja pervertido

Depois de passar mal o dia todo sozinha em casa, recebi a visita de mãe ao lado da minha cama. Danada resolveu puxar papo lá pelas onze da noite, quando chegou do serviço. Pontuei que não gostaria de ser incomodada a respeito do meu trabalho. Única condição. Então falaríamos de amenidades.

Veja bem: eu, minha mãe e minha irmã engatamos, sem razão aparente, um papo sobre livros. Esse final de semana devorei “Juliet, Nua e crua” e “Slam”, elas queriam saber do que se tratavam ambos. A minha irmã está lendo o extra da Stephenie Meyer, “A Breve Segunda Vida de Bree Tanner”, que eu dei de presente na semana passada (com o coração partido por gastar dinheiro com essa literatura vampiresca e ainda estimular a guria a ler esse tipo de coisa), quando ela terminou a saga de Crepúsculo. Minha mãe está estacionada em “Clarice,” também presente meu, mas de aniversário (bote aí uns três meses). E eu, nesse meio tempo, já li dúzias de coisas que elas nem sonham conhecer, porque meu caso com livros às vezes é digno de internação. Então ficamos dialogando sobre minha prateleira cheia de sobrenomes que as duas desconheciam, elas me apresentando universos novos pelos quais eu ainda não passeei, eu apresentando meu universo esquisito a elas.

Foi engraçado quando aconteceu. Eu só não sei contar direito.

A questão é que nenhuma das duas CONHECE Bukowski. A não ser de ouvir falar. Mãe até que tentou, mas ao ver duas vezes a palavra buceta na primeira poesia, saiu do quarto horrorizada “ai-meu-deus-o-que-minha-garotinha-anda-lendo”. A irmã ouviu esse comentário e desde então eu sou a filha devassa que lê putarias e fala palavrão. Não é  concebível pra família que 1) Vai muito além de onde elas estão olhando; 2) “Você vai acabar queimando no inferno junto com ele” não é algo que eu considere ameaçador e 3) Eu já falava e fazia tudo o que faço hoje bem antes de CONHECER o Hank. Na cabeça dos meus pais (e da minha irmã), eu só ouço e leio certas coisas para parecer rebelde, não porque eu gosto. CLARO, NÃO É?

Enfim, ontem, no meio da conversa, dispostas a me provar que Bukowski não é literatura e que uma dama como eu não deveria se submeter a esse tipo de obras (porque, segundo elas, eu falo palavrão, sou amarga e anti social, trabalho muito… tudo por causa dele. minha mãe adora dizer “você não era assim antes desse velho safado”), minha irmã resolveu folhear o “Fabulário geral do delírio cotidiano” na cama.   De repente, a guria fala “MÃE, OUVE ISSO AQUI. NUNCA TINHA OUVIDO NADA PARECIDO” e desata a ler em voz alta, meu pai na porta, algo do gênero “chegamos juntos ao orgasmo e esperei ainda dentro dela até que meu pau amolecesse”. Sério: Vocês não queriam ter visto as caras deles.

Eu ri enquanto ela repetia horrorizada “Nossa, Ari, nunca tinha ouvido nada parecido…”.

Pra complementar, depois de muito HORROR familiar, já no silêncio das luzes apagadas, minha irmã engatou o seguinte diálogo:

“Ari, acho que Bukowski não pode ser considerado erótico.”
“Do que você está falando?”
“Palavras de baixo calão. Eu ouvi que literatura erótica não tem isso. E ele falou ‘pau mole’. Isso é baixo calão. Devia esta escrito ‘pênis não ereto’.”

Sim, minha irmã, 14 anos, leitora de Crepúsculo, é o novo Antonio Candido. Manja tudo de literatura.

E minha mãe, lá de fora do quarto, respondeu: “Filha, esqueça o que você leu. Pare de pensar nesse boca-suja pervertido e vá dormir! Sua irmã não vai mais compartilhar essas coisas conosco”.

Sozinha, falando baixinho, a caminho do quarto dela: “Deus, eu sei que errei com a primeira, mas vou acompanhar a educação da segunda bem de perto. Nada de faculdade de jornalismo, Charles Bukowski, palavrões… Eu prometo, Deus, que eu vou cuidar bem da caçula”.

Sou o projeto que deu errado. É infantil, eu sei, mas ri sem parar.