either way

o rádio relógio me acordou a tempo de ouvir “nove graus em são paulo, tirem suas blusas do armário sem medo!”. seduzida pelo barulho da chuva lá fora, levantei o braço direito sem me descobrir e abri um vão na janela. “dá pra ver o bairro inteiro dormindo”, pensei. então foi a vez do braço esquerdo buscar um cigarro na cabeceira (dor de garganta se cura com dor de garganta), desligar o despertador e voltar à fumaça. fumaça, era o que estava faltando na manhã fria. fumaça e teu braço em torno de mim naquela cama pela metade, tão grande e tão vazia. ainda deu tempo de sentir teu cheiro no travesseiro antes de reparar que havia gasto dez minutos nesse ritual de saudades. “vão me custar no mínimo trinta minutos a mais no trânsito”, previ. então levantei, me enfiei embaixo do chuveiro e mandei embora do meu corpo toda a vontade de desistir. na bagunça do quarto, enquanto buscava o que vestir — de preferência algo que me deixasse invisível, ao menos por hoje — tropecei na vontade de te beijar mais uma vez. beber, preciso beber. assim, a essa hora, eu só quero fugir.

companheiros da manhã: uma garrafa de café amargo, wilco nos fones de ouvido e alguma esperança de ver tudo acabar mais uma vez. afinal, se passou um ano e eu nem me dei conta, é porque o tempo cura mesmo qualquer ferida. maybe I won’t be so afraid, I will understand everything has its plan… either way.

3 comentários em “either way”

  1. Bem, no fim você terminou se dando conta, né? Ou não? Enfim.

    Sensação de vouyer essa de está acordado enquanto tudo dorme.

    BJBJBJ

    Ariane: Na verdade, Amanda, senti como se a vida estivesse passando em algum outro lugar e eu a estivesse perdendo por razão desconhecida. Mas voyeur é uma boa definição também. 😉

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